Socialismo, anarquismo e feminismo – Carol Ehrlich (1977)

“Você é uma mulher na sociedade capitalista. Você fica puta: com emprego, com as contas, com seu marido (ou ex), com a escola das crianças, com as tarefas domésticas, ser bonita, não ser bonita, ser vista, não ser vista (e no mesmo sentido não ser escutada), etc. Se você pensa em todas essas coisas, como elas se encaixam e o que tem que ser mudado, e ai você procura por algumas palavras para abarcar todos esses pensamentos juntos de forma abreviada, você quase tem que chegar em ‘feminismo socialista'”[1]

Tudo indica que um grupo de mulheres brilhantes teve de “inventar” o feminismo socialista como uma solução ao problema persistente do sexismo. “Socialismo” (em sua surpreendente variedade de formas) é popular para muitas pessoas hoje em dia, porque tem muito a oferecer: preocupação com xs trabalhadorxs, um corpo de teoria revolucionário para o qual as pessoas podem recorrer (tendo ou não lido), e alguns exemplos reais de países industrializados estruturados de forma diferente que os Estados Unidos e seus satélites.

Para muitas feministas, o socialismo é atrativo porque promete acabar com a desigualdade econômica para as mulheres trabalhadoras. Além disso, para aquelas mulheres que acreditam que uma análise exclusivamente feminista é muito estreita para abarcar todas as desigualdades existentes, o socialismo promete abrangê-la, enquanto se resguarda contra a diluição de sua perspectiva radical.

Por boas razões, então, as mulheres estão considerando se o “socialismo feminista” faz ou não sentido como uma teoria política. Para as feministas socialistas realmente parece ser ao mesmo tempo sensível e radical – pelo menos, a maioria delas evidentemente sente uma forte antipatia por algumas armadilhas reformistas e solipsísticas nas quais um crescente número de mulheres parece estar caindo.

Para muitas do tipo mais não-romanticas de nós, a Sociedade Amazônica, com seus exércitos de fortes matriarcas cavalgando ao por-do-sol, é irreal, mas inofensivo. Uma questão mais séria é a atual obsessão com a Grande Deusa e diversos outros objetos de culto, bruxaria, magia e fenômenos psíquicos. Como uma feminista preocupada em transformar a estrutura da sociedade, eu acho isso qualquer coisa menos inofensivo.

Primeiro ponto: Mais de 1400 mulheres foram para Boston em abril de 1976 para assistir a uma conferência de espiritualidade feminina que lida em grande parte com as coisas apontadas acima. Não poderia a energia investida em encantamentos, difundir as últimas idéias pagãs e ir a workshops de dança do ventre e rituais menstruais ter sido utilizada para alguns usos melhores e mais feministas?

Segundo ponto: De acordo com reportagens em um jornal feminista, um grupo de bruxas tentou levitar Susan Saxe para fora da cadeia. Se elas honestamente acharam que isso iria libertar Saxe, então elas estavam totalmente fora de sintonia com as realidades da opressão patriarcal. Se isso pretendia ser uma piadinha alegre, então por que ninguém está rindo?

O reformismo é um inimigo muito maior para os interesses das mulheres do que jogos psíquicos bizarros. Sei que “reformismo” é um nome que pode ser usado de modos que não são nem honestos nem muito úteis – principalmente para demonstrar a pureza ideológica de alguém, ou para dizer que trabalhos políticos concretos de qualquer tipo não valem a pena ser feitos porque são potencialmente cooptáveis. Em resposta, algumas feministas argumentaram persuasivamente que os tipos certos de reformas podem construir um movimento radical[2].

Da mesma forma, existem estratégias reformistas que gastam as energias das mulheres, que aumentam as expectativas de uma grande mudança e que são ilusórias e alienantes porque elas não podem atingir os fins. O melhor (ou pior) exemplo é a política eleitoral. Algumas socialistas (seduzidas pela noção de gradualismo) caem nessa. Anarquistas conhecem melhor. Você não pode se libertar através de meios não-libertadores; você não pode eleger um novo conjunto de políticos (não importa o quão sinceros sejam) para operar nas mesmas velhas instituições corruptas – que por sua vez governam você. Quando a Majority Caucus da National Organisation of Women (NOW) – a corrente radical dessa organização – pede para que as mulheres a sigam “fora do tradicional [mainstream], para a revolução”  através de meios que incluem a política eleitoral, elas vão todas se afundar na profundezas das coisas como elas são.

A política eleitoral é um tipo de armadilha óbvia e rotineira. Até muitas não-radicais aprenderam a evitá-la. Um problema mais sutil é o capitalismo disfarçado de empoderamento econômico feminista. Considere, por exemplo, o Feminist Economic Network. O nome pode talvez enganar você. Ostensivamente era uma rede de negócios alternativos configurada para destruir o capitalismo de dentro para fora por meio da criação de auto-suficiência econômica para mulheres. É uma idéia atraente. Contudo, o primeiro grande projeto do FEN começou em Detroit, abril de 1976. Por uma taxa anual de filiação de 1oo dólares, mulheres privilegiadas poderiam nadar em uma piscina particular, beber num bar privado e conseguir descontos em um punhado de boutiques. O FEN pagava a suas empregadas $2.50 por hora para trabalhar lá. Sua diretora, Laura Brown, anunciou essa empreitada como “o começo da revolução econômica feminista”[3].

Quando dois dos mesmos velhos jogos – política eleitoral e capitalismo – são rotulados de “revolução”, a palavra foi virada de ponta-cabeça. Não é surpresa que uma marca socialista de feminismo parece ser a fonte de sanidade revolucionária para muitas mulheres que não querem ser bruxas, guerreiras primitivas, senadoras ou pequenas empreendedoras, mas sim que querem acabar com o sexismo enquanto criam uma sociedade transformada. O feminismo anarquista pode dar um quadro teórico significativo, mas muitas feministas nunca ouviram falar disso, ou então o descartam como as senhoritas ajudantes de homens que lançam bombas.

O feminismo socialista oferece uma série de “lares” políticos. De um lado, existem os esquálidos, limitados quartéis dos setores da Velha Esquerda, como o Partido Comunista Revolucionário (formalmente a União Revolucionária), a Liga de Outubro e o Partido Internacional dos Trabalhadores. Pouquíssimas mulheres consideram eles habitáveis. Por outro lado, um bom número de mulheres está se movendo para os dispersos e ecléticos estabelecimentos construídos por grupos de esquerda mais novos, como o New American Movement, ou por diversas “união de mulheres” autônomas.

As novas feministas socialistas tem feito uma campanha enérgica e sensata para recrutar mulheres sem alinhamento. Contrariamente, os grupos da Velha Esquerda mais rígidos extensivamente rejeitaram a idéia em si de que lésbicas, separatistas e diversas outras desajustadas e inadequadas feministas poderiam trabalhar com os nobres herdeiros de Marx, Trotsky (apesar de que trostskistas são imprevisíveis), Stalin e Mao. Muitos rejeitaram a idéia de um movimento de mulheres autônomas que se importa só com questões das mulheres. Para eles,  está cheio de mulheres burguesas (o mais condenável de todos os jargões marxistas!) focadas em “fazer suas próprias coisas” e isso “divide a classe trabalhadora”, o que é uma suposição curiosa de que os trabalhadores são mais burros do que todo mundo. Alguns tem uma antipatia histérica por lésbicas: os grupos mais notórios são o Liga de Outubro e o Partido Comunista Revolucionário, mas eles não estão sozinhos. Nessa prática política, como em muitas outras,  a linha anti-lésbica segue a dos países comunistas. O PCR, por exemplo, lançou uma nota de posicionamento no começo dos anos 70 (de volta aos dias de pré-partido, quando era o pleno e velho Revolutionary Union), em que anunciava que homossexuais estão presos no lodo e na lama da decadência burguesa” e que a libertação gay é ” anti classe trabalhadora e contra-revolucionária”. Todos os grupos da velha esquerda são desconfortáveis com a idéia de que qualquer mulher fora do “proletariado” seja oprimida. A classe trabalhadora, é claro, é um conceito maravilhosamente flexível: nos atuais debates de esquerda, abrange desde trabalhadores da ponta da produção (ponto final) até um enorme grupo que inclui cada pessoa que vende seu trabalho por salário, ou que depende de alguém que o faz. Isso é praticamente todxs nós. (Então, Papa Kari, se 90% das pessoas dos Estados Unidos são a vanguarda, por que ainda não fizemos a revolução?)

As feministas socialistas mais novas têm tentado de todas as maneiras dos modos inventivos de manter uma coesão com o pensamento marxista-leninista, atualizá-lo e trazê-lo para o feminismo radical contemporâneo. Os resultados são as vezes peculiares. Em julho de 1975, as mulheres do New American Movement e um número de grupos autônomos realizaram a primeira conferência nacional sobre feminismo socialista. Não foi especialmente divulgado em massa previamente e todo mundo pareceu surpreso que tantas mulheres (mais de 1600, mais as deixadas de fora) quisessem passar a semana do 4 de julho em Ohio.

Lendo as palestras dadas na conferência, assim como os extensos comentários escritos por mulheres que compareceram[4], não é claro o que as organizadoras da conferência pensaram o que estavam oferecendo sob o nome de “feminismo socialista”. Os Princípios da União que foram elaborados antes da conferência incluía dois itens que foram sempre associados ao feminismo radical e que na verdade são tipicamente pensados como antíteses a uma perspectiva socialista. O primeiro princípio colocava: “Nós reconhecemos a necessidade de e apoio ao movimento de mulheres autônomas através do processo revolucionário”. O segundo dizia: “Nós concordamos que toda opressão, seja baseada na raça, classe, sexo ou lesbianismo está interrelacionada e que as lutas por libertação da opressão devem ser simultâneas e cooperativas”. O terceiro simplesmente comentou que o “feminismo socialista é uma estratégia para a revolução” e o quarto e último princípio convidava a manter a discussão “no espírito da luta e união”.

Isso é, claro, uma incrível miscelânea de princípios saborosos – um menu desenhado para atrair praticamente todo mundo. Mas quando feministas “socialistas” servem o movimento de mulheres independentes como o prato principal, e quando dizem que a opressão de classe é só mais uma de muitas opressões, não mais importante do que qualquer outra, então (como seus críticos marxistas dizem) não é mais socialismo.

No entanto, feministas socialistas não seguem as implicações do feminismo radical o tempo todo. Se o fizessem, aceitariam outro princípio: que estruturas não-hierárquicas são essenciais para uma prática feminista. Isso, é claro, é demais para qualquer socialista. Mas o que significa é que o feminismo radical é muito mais compatível com um tipo de anarquismo do que com o socialismo. Esse tipo é o anarquismo social (também conhecido como anarquismo comunista), não as variedades individualistas ou anarco-capitalistas.

Isso não será novidade para feministas acostumadas com os princípios anarquistas – mas poucas feministas são. Isso é compreensível desde que o anarquismo tem se virado entre uma má publicidade e nenhuma. Se as feministas se familiarizassem com o anarquismo, não estariam olhando tanto para o socialismo como um meio de combater a opressão sexista. As feministas tem de ser céticas a qualquer teoria social que vem com um conjunto embutido de líderes e seguidores, não importa o quão “democrática” essa estrutura centralizada se supõe ser. Mulheres de todas as classes, raças e circunstancias de vida tem estado na posição de receptoras da dominação por tempo demais para querer trocar um grupo de mestres por outro. Nós sabemos quem tem poder e (com poucas exceções isoladas) não somos nós.

Várias feministas anarquistas contemporâneas apontaram para as conexões entre anarquismo social e feminismo radical. Lynne Farrow disse que “o feminismo pratica o que o anarquismo prega”. Peggy Kornegger acredita que as “feministas tem sido há anos anarquistas inconscientes tanto na teoria quanto na prática”. E Marian Leighton coloca que ” a distinção refinadora entre feminismo radical e anarco-feminismo é a basicamente aquela em que se dá um passo de desenvolvimento teórico auto-consciente”[5].

Nós construímos autonomia

O processo sempre crescente de síntese

Para toda criatura viva

Nós espalhamos

Espontaneidade e criação

Nós aprendemos os prazeres da igualdade

De relacionamentos

Sem domínio

Entre irmãs.

Nós destruímos a dominação

Em todas as suas formas.

Essa canção apareceu no jornal It Aint Me Babe[6] cujo título principal dizia “acabe com todas a hierarquias”. Não se classificava como um jornal anarquista (ou anarco-feminista), mas as conexões são impressionantes. Exemplificou muito do que a libertação da mulher se tratava nos primeiros anos de ressurgimento do movimento. E é esse espírito que vai ser perdido se o híbrido socialista feminista se enraizar; se as adorações à deusa ou a nação lésbica convencerem às mulheres a estabelecerem novas formas de dominação-submissão.

Feminismo Radical e Feminismo Anarquista

Todas as feministas radicais e todas as feministas anarquistas-sociais estão preocupadas com um conjunto de questões em comum: controle sobre o próprio corpo; alternativas à família mono-nuclear e à heterossexualidade; novos métodos de criação de crianças que libertem mães/pais e crianças; auto-determinação econômica; acabar com os estereótipos sexuais na educação, na mídia, no trabalho; a abolição de leis repressivas; um fim à autoridade , direito de propriedade e controle masculin0s sobre as mulheres; prover às mulheres meios de desenvolver habilidades e tomar atitudes positivas; um fim para os relacionamentos emocionais opressivos; e o que os Situacionistas chamaram de “a reinvenção da vida cotidiana”.

Existem, então, muitas questões em que as feministas radicais e as feministas anarquistas concordam. Mas as feministas anarquistas estão preocupadas com algo mais. Porque são anarquistas, elas trabalham para acabar com todas as relações de poder, todas as situações em que alguém pode oprimir outra pessoa. Diferente de algumas feministas radicais que não são anarquistas, elas não acreditam que poder nas mãos das mulheres poderia levar a uma sociedade não-coercitiva. E diferente de muitas feministas socialistas, elas não acreditam que nada bom possa sair de um movimento de massas com uma liderança de elite. Em resumo, nem um Estado dos trabalhadores, nem um matriarcado vai acabar com a opressão de qualquer um. O objetivo, então, não é “conquistar” o poder, como socialistas incitam, mas abolir o poder.

Contrariamente a crença popular, todxs anarquistas sociais são socialistas. Isso é, querem tirar a riqueza das mãos de poucos e redistribuí-la entre todos os membros da comunidade. E acreditam que as pessoas precisam  contribuir umas com as outras como uma comunidade, ao invés de viver como indivíduos isolados. Para anarquistas, no entanto, os problemas centrais são sempre poder e hierarquia social. Se um estado – mesmo um estado representando os trabalhadores – continua, vai reestabelecer formas de dominação, e algumas pessoas não vão mais ser livres. As pessoas não são livres só porque estão sobrevivendo, ou até economicamente confortáveis. Elas são livres somente quando elas tem poder sobre suas próprias vidas. Mulheres, muito mais do que muitos homens, tem muito pouco poder sobre suas próprias vidas. Obter essa autonomia e insistir para que todxs a tenham, é o objetivo principal das anarquistas feministas.

O poder à ninguém, e poder a todxs: para cada umx o poder sobre sua própria vida, e não outros.[7]

Na prática

Essa é a teoria. E quanto a prática? Novamente, o feminismo radical e o anarquista tem muito mais em comum do que com o socialista. Ambos trabalham para criar estruturas alternativas e ambos levam a política do pessoal muito a sério. Feministas socialista são menos inclinadas a pensar que isso é particularmente vital para a prática revolucionária.

Desenvolver formas alternativas de organização significa construir self-help [especializadas e organizadas por mulheres] clínicas, ao invés de lutar para colocar uma radical no quadro de diretores de um hospital; significa grupos de vídeo e jornais de mulheres, ao invés de televisões e jornais comerciais; viver em coletivos, ao invés de famílias nucleares isoladas; centros de crise de estupro; cooperativas de comida; creches controladas pelos pais; escolas livres; cooperativas de editoras; grupos de radio alternativos, e assim em diante.

Ainda, não faz nenhuma melhoria construir instituições alternativas se as estruturas imitam os modelos capitalistas e hierárquicos dos quais somos tão familiarizadxs. Muitas feministas radicais reconheceram isso cedo: é por isso que elas trabalharam para mudar a maneira como as mulheres percebiam o mundo e a si mesmas (através de um grupo de tomada de consciência), e porque elas trabalharam para mudar as formas de relacionamento no trabalho e interações interpessoais (através dos grupos pequenos, sem líderes onde as tarefas eram rotativas e habilidades e conhecimento divididos). Elas estavam tentando fazer isso em uma sociedade hierárquica que não nos dá modelos a não ser os da desigualdade. Certamente, um conhecimento sobre teoria anarquista e modelos de organização teria ajudado. Equipadas desse conhecimento, as feministas radicais talvez teriam evitado alguns dos erros que fizeram – e talvez estivessem melhor capacitadas para superar algumas das dificuldades elas encontraram ao tentar simultaneamente transformar a si mesmas e a sociedade.

Tome, por exemplo, o debate ainda corrente das “mulheres fortes” e a questão intimamente ligada da liderança. A posição das feministas radicais pode ser resumida dessa forma:

1- As mulheres tem sido minorizadas porque estão isoladas umas das outras e estão emparelhadas com homens em relações de dominação e submissão.

2- Os homens não vão libertar as mulheres; as mulheres devem libertar a si mesmas. Isso não pode acontecer se cada mulher tenta se libertar sozinha. Assim, as mulheres devem trabalhar juntas em um modelo de ajuda mútua.

3- “A irmandade é poderosa”, mas as mulheres não podem ser irmãs se recapitulam padrões masculinos de dominação e submissão.

4- Novas formas organizacionais devem ser desenvolvidas. A forma básica é o pequeno grupo sem liderança; os comportamentos mais importantes são o igualitarismo, apoio mútuo e o compartilhamento de habilidades e conhecimento.

Se muitas mulheres aceitam isso, muitas mais não. Algumas eram contra desde o começo; outras viram de primeira que isso era difícil de por em prática, e lamentavelmente concluíram que um idealismo tão bonito nunca funcionaria.

Suporte ideológico àquelxs que rejeitam os princípios apresentados pelas “anarquistas inconscientes” foi dado em dois documentos que circularam rapidamente entre jornais e organizações de libertação das mulheres. O primeiro foi o discurso feito por Anselma dell’Olio no segundo Congresso por União das Mulheres, que aconteceu em maio de 1970 em Nova Iorque. O discurso, intitulado Divisão e Auto-Destruição no Movimento das Mulheres: Uma Carta de Desligamento [Resignation, abandono], dava os motivos de Dell’Olio para sair do movimento. O segundo documento foi A Tirania da Falta de Estrutura de Joreen, que apareceu pela primeira vez em 1972 na Segunda Onda. Ambos levantaram questões sobre práticas organizacionais e pessoais que foram, e ainda são, tremendamente importantes para o movimento das mulheres.

“Eu venho anunciar minha derradeira participação no movimento das mulheres… Eu fui destruída… Eu aprendi há 3 anos e meio atrás que as mulheres sempre foram divididas umas com as outras, que eram auto-destrutivas e repletas de raiva impotente. Eu nunca sonhei que veria o dia em que essa raiva, mascarada de um radicalismo pseudo-igualitário sob a bandeira de “pro-mulher”, se tornaria fascismo anti-intelectual assustadoramente vicioso da esquerda, e usado dentro do movimento para derrubar irmãs apontadas com toda sutileza e justiça de uma corte do Ku Klux Klan. Estou me referindo, é claro, ao ataque pessoal, evidente e odioso, que mulheres do movimento, as quais penosamente conseguiram algum grau de realização, foram submetidas… Se você é… realizada é imediatamente rotulada de uma aventureira oportunista, uma cruel mercenária, tentando ganhar fama e fortuna por aí em cima dos cadáveres de irmãs altruístas que queimaram suas habilidades e sacrificaram suas ambições pela glória maior do Feminismo… se você teve a desgraça de ser sincera e clara, você é acusada de ser louca por poder, elitista, racista, e por fim o pior adjetivo: IDENTIFICADA COM A MASCULINIDADE”[9]

Quando Anselma Dell’Olio deu esse adeus raivoso ao movimento, fez duas coisas: para algumas mulheres, trouxe a questão de como as mulheres podem em relações de poder desiguais entre elas sem destruir uma a outra. Para outras, causou quase o oposto – deu justificativa fácil para todas as mulheres que têm dominado outras mulheres de uma forma não-irmã. Qualquer uma que fosse envolvida com a libertação das mulheres naquele tempo sabe que a declaração de Dell’Olio foi retorcida por algumas mulheres exatamente dessa maneira: Chame a si mesma de assertiva (enérgica/segura), ou forte, ou talentosa e você pode dar outro nome a uma boa porção de comportamentos feios, insensíveis e opressores. As mulheres que se apresentam como heroínas trágicas destruídas por suas “irmãs” invejosas ou disfarçadas (e, é claro, muito menos talentosas) podem contar com a resposta compreensiva de algumas mulheres.

Da mesma forma, as mulheres que estavam envolvidas com o movimento naquele tempo sabem que o tipo de coisa que Dell’Olio falou sobre realmente aconteceram, e elas não deviam ter acontecido. Um conhecimento de teoria anarquista não é o bastante, é claro, para prevenir ataques indiscriminados a mulheres. Mas na luta de aprender novas formas de se relacionar e trabalhar umas com as outras, tal conhecimento poderia – só poderia – ter prevenido alguns desses erros destrutivos.

Ironicamente esses erros foram motivados pela aversão do feminismo radical pelas formas convencionais de poder, e o as relações pessoais desumanas que resultam de um grupo de pessoas tendo poder sobre outras. Quando as feministas radicais e as feministas anarquistas falam de abolir o poder, elas querem dizer se livrar de todas as instituições, todas as formas de socialização, todas as maneiras em que as pessoas são coercitivas com outras – e se sujeitam a serem coagidas.

Um problema maior surgiu ao definir a natureza da coerção no movimento das mulheres. A hostilidade contra a mulher “forte” surgiu porque ela poderia, pelo menos potencialmente, ser coercitiva com mulheres que fossem menos articuladas, menos auto-confiantes, menos contundentes do que ela. A coerção costuma ser muito mais sutil do que a força física ou a sanção econômica. Uma pessoa pode ser coercitiva com outra sem tirar seu emprego, ou golpeá-la ou a atirando na cadeia.

As mulheres fortes começaram com uma vantagem tremenda. Muitas vezes, elas sabiam mais. Certamente elas tinham há muito tempo superado a socialização traumatizante que enfatizou o comportamento passivo, tímido, dócil, conformista – o comportamento que ensinou as mulheres a sorrir quando não estão achando graça, a sussurrar quando querem gritar, a abaixar os olhos quando alguém olha agressivamente para elas. As mulheres fortes não estavam aterrorizadas de falar em público; elas não estavam com medo de fazer tarefas “masculinas”, ou de tentar algo novo. Ou pelo menos pareceu isso.

Ponha uma mulher “forte” no mesmo grupo pequeno que mulheres “fracas”, e ela se torna um problema: Como ela não domina? Como ela compartilha suas confidencias e habilidades arduamente adquiridas com suas irmãs? Do outro lado – como as mulheres “fracas” aprendem a agir por conta própria? Como alguém pode conceber a ajuda “mútua” numa situação de mão-única? De “irmandade” quando os membros “fracos” não se sentem iguais ao membro “forte”?

Essas são perguntas complicadas, sem respostas simples. Talvez o mais próximo que possamos chegar é com o lema anarquista, “um povo forte não precisa de líderes”. Aquelxs de nós que aprendemos a sobreviver dominando outrxs, assim como aquelxs que aprenderam a sobreviver aceitando a dominação, precisamos re-socializar nós mesmxs a sermos fortes sem jogar jogos de dominação-submissão, a controlar o que acontece conosco sem controlar xs outrxs. Isso não pode ser feito elegendo as pessoas certas para cargos ou seguindo a linha certa de partido; nem pode ser feito sentando e refletindo sobre nossos pecados. Nós reconstruímos nós mesmas e o mundo através da atividade, através de sucessos parciais, fracasso, e mais sucessos parciais. E a todo tempo ficamos mais fortes e auto-confiantes.

Se Anselma dell’Olio criticou a prática pessoal das feministas radicais, Joreen levantou algumas questões pesadas sobre a estrutura organizacional. A Tirania da Falta de Estrutura [10] mostrou que não existe isso de um grupo “sem estrutura” e as pessoas que alegam existir estão enganando a si mesmas. Todos os grupos tem uma estrutura; a diferença é se a estrutura está ou não explícita. Se está implícita, elites escondidas certamente existirão e controlarão o grupo – e todo mundo, xs líderes e xs lideradas, vai negar ou ficar confuso pelo controle que existe. Essa é a “tirania” da falta de estrutura. Para superar isso os grupos precisam definir estruturas explícitas, abertas, que sirva a associação.

Qualquer feminista anarquista, eu acho, concordaria com a análise dela – até esse ponto e nada além. Joreen também disse que os auto-entitulados “grupos sem liderança e sem estrutura” eram incapazes de ir além da teoria para a ação. Não somente sua falta de estrutura aberta, mas também seu pequeno tamanho e ênfase na tomada de consciência (teoria) estavam destinadas a fazer dele ineficaz.

Joreen não disse que os grupos de mulheres devem ser hierarquicamente estruturados. Na verdade ela tratou de uma liderança que seria “difusa, flexível, aberta e temporária”; para organizações que pretendiam construir responsabilidade, difusão do poder entre o maior número de pessoas, rotatividade de tarefas, compartilhar habilidades, e disseminar informação e fontes. Todos os bons princípios de organização do anarquismo social! Mas a minorização dela a cerca da tomada de consciência e sua preferência por organizações grandes regionais e nacionais estavam estreitamente ligadas a velha forma de fazer as coisas, e implicitamente aceitava a manutenção de estruturas hierárquicas.

Grupos grandes são organizados de forma que o poder e a tomada de decisões são delegadas para poucos – a não ser, é claro, que se esteja falando de uma rede horizontalmente coordenada de pequenos coletivos, o que ela não mencionou. Como um grupo como o NOW (Organização Nacional de Mulheres), com seus 60.000 membros em 1975, distribui tarefas, divide habilidades e assegura que todas as informações e fontes estejam disponíveis para todo mundo? Não consegue, é claro. Grupos assim tem um presidente, tem um quadro de diretores, um escritório nacional, e associados – alguns dos quais estão em filiais locais, alguns são membros isolados. Poucos desses grupos tem democracia direta e poucos ensinam seus membros novas formas de trabalhar e se relacionar uns com os outros.

O efeito infeliz de A Tirania da Falta de Estrutura é que pôs junto grandes organizações, estrutura formal e ações diretas bem sucedidas de uma forma que pareceu fazer sentido para muitas pessoas. Muitas mulheres sentiram que para combater a opressão social, uma organização grande era essencial, e que quanto maior melhor. A imagem é força confrontando força: Você não mata um elefante com uma pistola de ar, e você não derruba o Estado patriarcal com um grupo pequeno. Para mulheres que aceitam o argumento de que o maior tamanho está relacionada com a maior efetividade, as opções organizacionais parecem limitadas a grandes grupos liberais como o NOW ou a organizações socialistas que são organizações de massa.

Assim como muitas coisas que parecem fazer sentido, a lógica é defeituosa. “Opressão social” é uma reificação, uma entidade inventada, paralizante e exagerada que é basicamente no sentido de que as mesmas opressões acontecem com muitxs de nós. Mas as opressões, não importa o quão universais (penetrantes), o quão previsíveis, quase sempre nos são feitas por alguém – mesmo se essa pessoa está agindo como agente do Estado, ou como um membro da raça, gênero ou classe dominante. As investidas massivas da polícia sobre nossas forças organizadas são poucas; até o policial ou o chefe ou o marido que está exercendo sua porção de sexismo ou papel autoritário nos intersepta num dado ponto da nossa vida cotidiana. A opressão institucionalizada existe, em larga escala, mas raramente precisa ser atacada (na verdade, raramente pode ser atacada) por um grande grupo. Táticas de guerrilha feitas por um pequeno grupo – ocasionalmente até por um único indivíduo – servirão muito bem para retaliação.

Outro efeito infeliz da mentalidade da Tirania da Falta de Estrutura é que alimentou os estereótipos  das pessoas sobre anarquistas. (É claro que as pessoas só consomem algo se demandam por algo). Anarquistas sociais não são opostos à estrutura: nem sequer são contrários à liderança, desde que não acarrete nenhuma recompensa ou privilégio, e que seja temporária e específica para uma meta particular. No entanto, xs anarquistas, que desejam abolir uma estrutura hierarquizada, são quase sempre estereotipadxs como não querendo nenhuma forma de estrutura. Infelizmente, a imagem de um bando de mulheres anarquistas, desorganizadas e caóticas, vagando à deriva sem direção, pegou. Por exemplo, em 1976 a Quest relançou e editou a transcrição de uma entrevista que Charlott Bunch e Beverly Fisher deram para a Feminist Radio Network em 1972. De um lado, o mais interessante da entrevista é que xs editorxs da Quest sentiram que as questões estavam ainda em dia em 1976. [11] (“Nós vemos o mesmo desprezo por líderes e glorificação da falta de estrutura que existia há uns anos atrás” p.13). Mas o que Bunch tinha a dizer naquele tempo era também extremamente interessante: de acordo com ela, a ênfase em resolver problemas de estrutura e liderança era “um desejo anarquista muito forte. Era um desejo bom, mas irrealista” (p.4).

Anarquistas, acostumadxs a serem chamadxs de “irrealistas”, notarão que a irrealidade daquilo tudo aparentemente estava nos problemas que o movimento das mulheres estava tendo em organizar a si mesmo – problemas de liderança oculta, de “líderes” impostxs pela mídia, a dificuldade de alcançar mulheres interessadas mas não envolvidas, do super-representação de mulheres de classe média cheias de tempo sobrando, do movimento amorfo, da escassez de grupos com metas específicas que as mulheres possam aderir, da hostilidade contra mulheres que tentaram demonstrar liderança ou iniciativa. Uma acusação pesada! Ainda assim, esses problemas sérios não foram causados pelo anarquismo, nem serão sanados com doses de vanguardismo ou reformismo. E ao taxarem essas dificuldades organizacionais de “anarquistas”, as feministas ignoram uma rica tradição anarquista, enquanto ao mesmo tempo propõe soluções que são -embora aparentemente elas não saibam – anarquistas. Bunch e Fisher expuseram um modelo de liderança no qual todxs participam na formulação das decisões; e a liderança é específica para uma situação em particular e por tempo limitado. Fisher criticou o NOW por ter “uma liderança hierárquica que não tem responsabilidade com a vastidão de membros”(p.9) e Bunch colocou, “liderança são pessoas tomando iniciativa, dando meios das coisas acontecerem, tendo idéias e imaginação para começar algo, e apresentando habilidades particulares para areas diferentes”(p.8). Como elas sugerem que nós previnamos o silenciamento dessas mulheres sobre falsas noções de igualdade? “A única forma das mulheres pararem de depreciar mulheres fortes, é que elas mesmas sejam fortes” (p.12). Ou, como disse antes, um povo forte não precisa de líderes. E tenho o dito!

Situacionismo e feminismo anarquista

“Transformar o mundo e mudar a estrutura da vida são a mesma única coisa”. [12]

“O pessoal é político”. [13]

Os anarquistas estão acostumadxs a ouvir que elxs não tem uma teoria que ajude a construir uma nova sociedade. Na melhor das hipóteses, dizem paternalmente seus detratores, o anarquismo nos diz o que não fazer. Não permite burocracia ou estruturas hierárquicas; não deixa um grupo de vanguarda tomar as decisões; não pise em mim. Não pise em ninguém. De acordo com essas perspectiva, o anarquismo não é de forma alguma uma teoria. É um conjunto de práticas cautelosas, as vozes da consciência libertária – sempre idealista, as vezes um pouco truculenta, ocasionalmente anacrônica, mas um lembrete necessário.

Existe mais de um núcleo de verdade nessa objeção. Da mesma forma, existem variados pensamentos anarquistas que podem oferecer um enquadramento teórico para analisar o mundo e tomar atitudes para mudá-lo. Para as feministas radicais que querem dar esse “passo em direção a um desenvolvimento teórico auto-consciente” [14], talvez o maior potencial esteja no Situacionismo.

O valor do Situacionismo para uma análise anarca-feminista é que ele combina a consciência socialista dos primórdios da opressão capitalista com a ênfase anarquista em transformar tanto a vida pública como a privada. O ponto da opressão capitalista é importante: com muita frequencia anarquistas parecem esquecer que esse sistema econômico explora a maioria das pessoas. Mas com muita frequencia socialistas – especialmente marxistas – estão cegos para o fato de que as pessoas são oprimidas em todos os aspectos da vida: trabalho, lazer, cultura, relacionamentos pessoais – todos. E somente xs anarquistas insistem que as pessoas devem transformar as condições de suas vidas elas mesmas – ninguém pode fazer isso por elas. Nem o partido, nem o Estado, nem “organizadores”, nem ninguém.

Dois conceitos básicos do Situacionismo são “mercadoria” e “espetáculo”. O capitalismo fez de todas as relações sociais, relações de mercado: O Mercado manda em tudo. As pessoas não são apenas produtoras e consumidoras no estreito sentido econômico, mas a estrutura de sua vida cotidiana é baseada em relações financeiras. A sociedade “é consumida como um todo – o conjunto das relações sociais e estruturas é o produto central da economia de mercado” [15]. Isso inevitavelmente alienou as pessoas de suas vidas, não só do trabalho; consumir relações sociais faz da pessoa uma espectadora passiva de sua própria vida. O espetáculo, então, é a cultura que nasce da economia de mercado – o palco está montado, a ação de desenrola, nós aplaudimos quando pensamos que estamos felizes, nós bocejamos quando achamos que estamos entediados, mas não podemos deixar o show, porque não existe mundo fora do teatro para irmos.

Nos últimos anos, no entanto, o palco social tem começado a esfacelar-se, e assim existe a possibilidade de construir um outro mundo fora do teatro – dessa vez, um mundo real, onde cada umx de nós participa como sujeito e não como objeto. A frase situacionista para essa possibilidade é “a reinvenção da vida cotidiana”.

Como a vida cotidiana pode ser recriada? Criando situações que rompam com o que parece ser a ordem natural das coisas – situações que sacudam as pessoas para fora da forma costumeira de pensar e agir. Só então elas terão meios de agir, de destruir o espetáculo manufaturado e a economia da mercadoria- isto é, o capitalismo em todas as suas formas. Só assim elas estarão livres para criar vidas livres e não alienadas.

A congruência desse ativismo, a teoria do anarquismo social com a teoria do feminismo radical é surpreendente. Os conceitos de mercadoria e espetáculo são especialmente aplicáveis às vidas das mulheres. Na verdade, muitas feministas radicais descreveram eles em detalhe, sem localizá-los no quadro situacionista [16]. Fazer isso abrange a análise ao mostrar a situação da mulher como parte orgânica da sociedade como um todo, mas ao mesmo tempo sem jogar os jogos reducionistas do socialismo. A opressão das mulheres é parte da opressão geral da economia capitalista sobre as pessoas, mas não é menos uma opressão do que as outras. Nem – de uma perspectiva situacionista- você precisa ser de um tipo particular de mulher para ser oprimida; você não precisa ser parte do proletariado, tanto literalmente enquanto uma trabalhadora industrial, nem metaforicamente como alguém que não é rico. Você não tem que esperar ansiosamente por um manifesto socialista feminista para lhe dizer que você tem os requisitos – como dona de casa (reproduzindo a próxima geração de trabalhadores), como trabalhadora de escritório, como estudante ou profissional de classe média empregada pelo Estado (e assim parte da “nova classe trabalhadora”). Você não precisa ser parte do terceiro mundo, ou lésbica, ou idosa, ou alvo de políticas de bem-estar. Todas essas mulheres são objetos na economia de mercado; todas são espectadoras passivas do espetáculo. Obviamente, mulheres em algumas situações estão muito piores do que outras. Mas, ao mesmo tempo, nenhuma delas é livre em todas as áreas de suas vidas.

Mulheres e a Economia de Mercado

As mulheres têm um relacionamento dual com a economia de mercado – elas são ao mesmo tempo consumidoras e consumidas. Como donas de casa, elas são consumidoras de bens domésticos comprados com dinheiro que não pertence a elas, porque não foi “ganho” por elas. Isso deve dar a elas uma certa quantidade de poder de consumo, mas muito pouco poder sobre qualquer aspecto de suas vidas. Como jovens e heterossexuais solteiras, as mulheres consomem bens feitos para dar um alto preço no mercado do casamento. Como qualquer outra coisa –    como lésbica, ou como solteira em idade avançada, ou como mulher auto-suficiente com “carreira”, o relacionamento das mulheres com o mercado enquanto consumidoras não é tão bem definido. Se espera que elas comprem (e quanto melhor sua situação, mais se espera que elas comprem), mas para algumas categorias de mulheres, comprar não é definido primordialmente como o papel que uma mulher deve desempenhar.

Então o que mais é novidade? Não é a idéia da mulher como consumidora passiva, manipulada pela mídia e que se envolve com homens viscosos um cliche exagerado do movimento? Bem, sim – e não. Uma análise situacionista amarra o consumo de bens econômicos ao consumo de bens ideológicos, e então, nos diz para criarmos situações (ações de guerrilha em diversos níveis) que quebrem esse padrão de aceitação social do mundo como ele é. Sem acusações; não vou criticar mulheres que “compraram” a perspectiva de consumidora. Para aquelas que realmente compraram: isso foi vendido a elas como um meio de sobrevivência desde os primeiros momentos de suas vidas. Compre isso: Tornará você bonita e adorável. Compre isso: Vai deixar sua família mais saudável. Está deprimida? Se trate com um dia no salão de beleza ou com um novo vestido!

A culpa leva a inação. Somente a ação, para re-inventar a vida cotidiana e torná-la outra coisa, mudará as relações sociais.

O Presente

Pensando que ela era o presente

Eles começaram a empacotá-la antes do tempo.

Eles poliram seu sorriso

Eles abaixaram os seus olhos

Eles plugaram suas orelhas no telefone

eles fizeram cachinhos em seu cabelo

eles endireitaram os dentes

eles a ensinaram a enterrar seus desejos

eles derramaram mel pela sua goela a baixo

eles a fizeram dizer sim, sim e sim

eles a deixaram imobilizada

Aquela caixa tem meu nome,

disse o homem. É para mim.

E eles não estavam surpresos.

Enquanto eles sopravam beijinhos e me piscavam

ele levou pra casa. Colocou na mesa

onde seus amigos podiam averiguar

dizendo dance, dizendo mais rápido.

Ele a afundou para longe da saída

e queimou o nome dele mais fundo.

Depois ele a colocou em uma plataforma

debaixo dos holofotes

dizendo vai, dizendo mais forte

dizendo assim que eu queria

você me deu um filho.

Carole Oles [17]

As mulheres não são apenas consumidoras na economia de mercado; elas são consumidas como mercadoria. É disso que fala o poema de Oles, e isso é o que Tax chamou de “esquizofrenia feminina”. Tax constrói um monólogo interior para a dona-de-casa-mercadoria: “Não sou nada quando estou sozinha comigo mesma. Em mim mesma, não sou nada. Só sei que existo se sou desejada por alguém que é real, meu marido, e pelos meus filhos”.[18]

Quando as feministas descrevem a socialização nos papéis sexuais de mulher, quando elas apontam as características que garotas são ensinadas a ter (dependência emocional, infantilidade, timidez, preocupação em ser bonita, docilidade, passividade e assim vai), elas estão falando da fabricação cuidadosa de um produto – apesar de não se chamar assim normalmente. Quando elas descrevem a opressão da objetificação sexual, ou de viver em família nuclear, ou de ser uma Supermãe, ou de ser trabalhadora precarizada, subempregos com baixo salário que são ocupados majoritariamente por mulheres, elas também estão descrevendo a mulher enquanto mercadoria. As mulheres são consumidas por homens que as tratam como objetos sexuais; são consumidas por seus filhos (que elas mesmas produziram!) quando eles compram o papel da Supermãe; são consumidas por maridos autoritários que esperam que elas sejam servas submissas; e elas são consumidas por patrões que as mantém instáveis na força de trabalho ativa e que extraem o máximo trabalho pelo menor salário. Elas são consumidas por pesquisadores médicos que experimentam nelas novos e inseguros contraceptivos. São consumidas por homens que compram seus corpos nas ruas. São consumidas pelo Estado e pela Igreja, que esperam que proliferem a próxima geração pela glória de deus e do país; são consumidas por organizações políticas e sociais que esperam que elas “voluntariem” seu tempo e energia. Elas tem pouca noção de si mesmas porque sua pessoa enquanto identidade foi vendida para os outros.

Mulheres e o Espetáculo

É difícil consumir pessoas que travaram uma luta, que resistem à canibalização de seus corpos, mentes e suas vidas. Algumas pessoas tentam resistir, mas não o fazem de forma efetiva, porque não podem. É difícil localizar nosso carrasco, porque é tão difuso, tão familiar. Nós o conhecemos a vida inteira. É a nossa cultura.

Os situacionistas caracterizam nossa cultura como um espetáculo. O espetáculo nos trata a todxs como espectadorxs passivxs do que nos dizem ser nossas vidas. E a cultura-como-espetáculo cobre a tudo: nós nascemos nisso, somos socializadas nisso, vamos para a escola nisso, trabalhamos, relaxamos e nos relacionamos com outras pessoas dentro disso. Mesmo quando nos rebelamos contra isso,  a rebelião geralmente é definida pelo espetáculo. Alguém se importaria em fazer uma estimativa de quantos homens adolescentes sensíveis e alienados que há uma geração atrás  modelaram seu comportamento como James Dean em Juventude Transviada? Estou falando de um filme, cujos produtores capitalistas e cujo astro fizeram uma bagatela em dinheiro com seu espatáculo.

Os atos rebeldes, tendem então a serem atos contra o espetáculo, mas raramente diferem dele ao ponto de transcender o espetáculo. As mulheres tem uma série de comportamentos que demonstram insatisfação em ser o oposto do que se espera. Ao mesmo tempo esses atos são cliches da rebeldia, e assim são quase prescritas como válvulas de escape seguras que não alteram o teatro em nossas vidas. O que se espera que uma mulher rebelde faça? Podemos todos nomear as atitudes – elas aparecem em todos os jornais, no horário nobre da TV, nas lista dos best-sellers, nas revistas populares – e, é claro, na vida cotidiana. Num contexto em que se preza pela manutenção perfeita da casa, ela pode ser uma desleixada; em uma subcultura que preza por grandes famílias, ela pode se negar a ter filhos. Alguma outra insurgência previsível? Ela pode desafiar o padrão de binarismo sexual para mulheres casadas tendo um caso (ou muitos); ela pode beber; ou ela pode usar o que é visto como linguagem de “baixo calão”; ou ela pode ter uma crise nervosa; ou -se ela é adolescente- pode ter um impulso e fugir de casa e transar com muitos homens.

Qualquer uma dessas coisas pode tornar a vida de uma mulher individualmente mais tolerável (com frequência também fazem o contrário); todas elas são garantias para o discurso conservador de que a sociedade está ruindo. Mas esses tipos de insurreições previstas não a fizeram ruir ainda, e, por si só, não farão. Qualquer coisa menos que um ataque direto a todas as condições de nossas vidas não será o bastante.

Quando as mulheres falam de mudar os papéis sexuais destrutivos em que são socializadas, elas escolhem uma das 3 soluções possíveis: (a) garotas devem ser socializadas mais ou menos como garotos para serem independentes, competitivas, agressivas e assim por diante. Em poucas palavras, como é um mundo dos homens, as mulheres que querem se encaixar dele devem ser “como um dos caras”. (b) devemos glorificar o papel de gênero feminino e perceber que aquilo que havíamos chamado de fraqueza, na verdade é força. Devemos ser orgulhosas de ser maternais, provedoras, sensíveis, emotivas… e assim por diante. (c) As pessoas andrógenas são as únicas saudáveis: devemos erradicar as fronteiras artificiais que dividem a humanidade entre masculino e feminino, e ajudar ambos a se tornarem uma mistura do que há de melhor traço em cada.

Com esses três modelos, as possibilidades de soluções pessoais para problemas de opressão sexista são bem abrangentes: ficar solteira; viver em comunidade (com homens e mulher ou apenas com mulheres). Não ter filhos; não ter filhos homens; ter quantos filhos quiser, mas deixar que seus parentes cuidem ou pagar alguém/alguma instituição para cuidar deles. Ter um emprego; conseguir um emprego ainda melhor; fazer pressão para receber ações afirmativas. Ser uma consumidora informada; vestir a camisa de uma causa;  aprender karate; receber treinamento de auto-confiança. Desenvolver a lésbica dentro de você. Desenvolver sua identidade de proletariada. Tudo isso faz sentido em algumas situações, para algumas mulheres. Mas todas elas são soluções parciais para problemas muito maiores, e nenhuma delas implica necessariamente em ver o mundo de forma qualitativamente diferente.

Assim, vamos de soluções particulares para mais gerais. Destruir o capitalismo. Acabar com o patriarcado. Derrubar o heterossexismo. Todas são tarefas óbvias na construção de um mundo novo e verdadeiramente humano. Marxistas, outros socialistas, anarquistas sociais, feministas – todos concordariam. Mas o que o socialismo, e até alguns feminismos, deixam de fora é isso: devemos destruir todas as formas de dominação. Isso não é só um slogan, e é a tarefa mais difícil de todas. Significa que devemos enxergar através do espetáculo, destruir os cenários e palcos, saber que existem outras formas de fazer as coisas. Significa que devemos fazer mais que reagir em rebeliões programadas – devemos agir. E nossas ações serão feitas coletivamente enquanto cada um age anonimamente. Parece contraditório? Não é – mas será muito difícil de fazer. O indivíduo não consegue mudar muita coisa, por essa razão devemos agir juntxs. Mas esse trabalho deve ser feito sem líderes como conhecemos até então, sem delegar nenhum controle sobre o que fazemos e sobre o que queremos construir.

Os socialistas podem fazer isso? Ou as matriarcas? Ou o pessoal das viagens espirituais? Você sabe a resposta. Trabalhe com elxs quando fazer sentido que se deva trabalhar, mas não abra mão de nada. Não ceda nada a eles ou a nenhuma outra pessoa.

O passado nos leva a algum lugar se o forçamos a isso.

Caso contrário, ele nos mantém

em seu asilo sem portões.

Ou nós fazemos a história,

ou ela nos faz. [19]

  • 1. Barbara Ehrenreich, “What is Socialist Feminism?”, Win Magazine, June 3, 1976, p.4.
  • 2. The best of these arguments I’ve encountered are “Socialist Feminism; A Strategy for the Women’s Movement”, by the Hyde Park Chapter, Chicago Women’s Liberation Union, 1972; and Charlotte Bunch, “The Reform Tool Kit”, Quest, 1:1, Summer 1974, pp.37-51.
  • 3. Reports by Polly Anna, Kana Trueblood, C. Corday and S. Tufts, The Fifth Estate, May, 1976, pp. 13, 16. The ” revolution” failed: FEN and its club shut down.
  • 4. People who are interested in reading reports of the conference will find them in almost every feminist or socialist newspaper that appeared in the month or so after July 4th. Speeches by Barbara Ehrenreich, Michelle Russell, and the Berkeley-Oakland Women’s Union are reprinted in Socialist Revolution, No. 26, October-December 1975; and the speech by Charlotte Bunch, “Not for Lesbians Only”, appears in Quest, 2:2, Fall 1975. A thirty-minute audiotape documentary is available from the Great Atlantic Radio Conspiracy, 2743 Maryland Avenue, Baltimore, Maryland 21218.
  • 5. Farrow, “Feminism as Anarchism”, Aurora, 4, 1974, p.9; Kornegger, “Anarchism: The Feminist Connection”, Second Wave, 4: 1, Spring 1975, p.31; Leighton, “Anarcho-Feminism and Louise Michel”, Black Rose, 1, April 1974, p. 14.
  • 6. December, 1, 1970, p.11.
  • 7. Lilith’s Manifesto, from the Women’s Majority Union of Seattle, 1969. Reprinted in Robin Morgan (ed.), Sisterhood is Powerful. N.Y.: Random House, 1970, p.529.
  • 8. The best and most detailed description of the parallels between radical feminism and anarchist feminism is found in Kornegger, op cit.
  • 9. The speech is currently available from KNOW, Inc.
  • 10. The Second Wave, 2:1, 1972.
  • 11. “What Future for Leadership?”, Quest, 2:4, Spring 1976, pp.2-13.
  • 12. Strasbourg Situationists, Once the Universities Were Respected, 1968, p.38.
  • 13. Carol Hanisch, “The Personal is Political”, Notes from the Second Year. N.Y.: Radical Feminism, 1970, pp. 76-78.
  • 14. Leighton, op cit.
  • 15. Point-Blank!, “The Changing of the Guard”, in Point-Blank, October 1972, p.16.
  • 16. For one of the most illuminating of these early analyses, see Meredith Tax, “Woman and Her Mind: The Story of Everyday Life”, Boston: Bread and Roses Publication, 1970.
  • 17. Carole Oles, “The Gift”, in 13th Moon, II: 1, 1974, p. 39.
  • 18. Tax, op cit., p. 13.
  • 19. Marge Piercy, excerpt from “Contribution to Our Museum”, in Living in the Open. N.Y.: Knopf, 1976, pp.74-75.

Ciúmes: Causas e uma possível cura – Emma Goldman

Ninguém em geral é capaz de uma intensa consciência interna, porque a vida sempre necessita de esperança para escapar da angústia mental e do sofrimento. O sofrimento, e muitas vezes o desespero, sobre a chamada característica eterna das coisas são a mais persistente companhia de nossas vidas. Mas eles não surgem em nós do exterior, através dos atos malignos de pessoas particularmente más. Eles são condicionados ao nosso próprio ser, de fato, eles estão interligados através de mil propostas e grossos fios com a nossa existência.

É absolutamente necessário que nós compreendamos esse fato, porque as pessoas que nunca se livram da noção de que sua desgraça é fruto da maldade dos outros nunca podem superar o ódio mesquinho e a malícia que constantemente acusa, condena e persegue os outros por algo que é inevitavelmente parte de si mesmos. Tais pessoas não irão subir para as alturas sublimes do verdadeiro humanista, para quem o bem e o mal, a moral e a imoral, são, portanto, termos limitados para o conflito interior das emoções humanas no mar da vida humana.

O filósofo “além do bem e do mal”, Nietzsche, é atualmente denunciado como criador de um ódio nacional e uma destruição metralhadora. Mas apenas maus leitores e maus alunxs o interpretam desta forma. “Além do bem e do mal” significa além do Ministério Público, além de fazer julgamentos, além de matar, etc. Além do Bem e do Mal se abre diante dos nossos olhos como uma visão do pano de fundo que é a afirmação individual, juntamente com a compreensão de todos aqueles que são o contrário de nós mesmos, que são diferentes.

Por isso eu não me refiro à tentativa desajeitada da democracia de regular as complexidades do caráter humano por meio da igualdade externa. A visão de “além do bem e do mal” aponta para a direita de si mesmo, à própria personalidade. Tais possibilidades não excluem a dor do caos da vida, mas excluem a justiça puritana que se insere no julgamento de todos os outros, exceto de si mesmo.

É auto-evidente que a profundidade radical – muitos são superficiais, você sabe – deve aplicar esta profundidade ao reconhecimento humano da relação de amor e sexo. Emoções de amor e sexo estão entre as mais íntimas, intensas e sensíveis, expressões do nosso ser. Elas são tão profundamente relacionadas às características físicas e psíquicas individuais como um carimbo em cada caso de amor como um caso independente, diferente de todos os outros casos de amor. Em outras palavras, cada amor é resultado das impressões e características que duas pessoas envolvidas dão a isso. Toda relação de amor deve, por sua própria natureza, permanecer como um caso absolutamente privado. Nem mesmo o Estado, a Igreja, a moralidade ou as pessoas devem mediar isso.

Infelizmente esse não é o caso. A mais íntima relação é submetida a proscrições, regulamentos e coerções; porém, esses fatores externos são absolutamente estranhos ao amor, e leva a eternas contradições e conflitos entre o amor e a lei.

O resultado disso é que nossa vida amorosa está imersa em corrupção e degradação. O “amor puro”, tão aclamado pelos poetas, é, no atual matrimônio, divórcio e disputas alienadas, um espécime raro. Com dinheiro, status social, e posição como critérios para o amor, a prostituição é quase inevitável, ainda que seja coberta pelo manto da legitimidade e da moralidade.

O mais permanente demônio da nossa mutilada vida amorosa é o ciúme, frequentemente descrito como “mostro de olhos verdes”, que mente, engana, trai e mata. O senso comum é de que o ciúme é inato e, portanto, nunca poderá ser erradicado do coração humano. Essa ideia é uma desculpa conveniente para aqueles que não têm capacidade ou vontade para mergulhar dentro das causas e efeitos.

A angústia sobre um amor perdido, sobre o fio quebrado da continuidade do amor é, de fato, inerente ao nosso ser. O sofrimento emocional tem inspirado muitas letras sublimes, com olhares muito profundos e exaltação poética de Byron, Shelley, Heine e outros. Mas será que é possível comparar esta tristeza com o que comumente acontece no ciúme? Eles são tão diferentes como a sabedoria e a estupidez. Como o refinamento e a rudeza. Dignidade e coerção brutal. O ciúme é o oposto da compreensão, da simpatia, e dos sentimentos generosos. O ciúme nunca adicionou algo ao caráter, nunca fez o indivíduo grande e bom. O que ele realmente faz é torná-lo cego com fúria, mesquinho com suspeita, e duro de inveja.

Ciúme, as contorções que vemos nas tragédias e comédias matrimoniais, são invariáveis por um lado, intolerantemente acusadoras, convencidas da sua própria justiça e da maldade, crueldade e culpa da sua vítima. O ciúme nem mesmo tenta compreender. Seu único desejo é punir, e punir tão severamente quanto possível. Essa noção é incorporada ao código de honra, como representada em um duelo ou em uma lei não escrita.  Um código que vai considerar que a sedução de uma mulher deve ser punida com a morte dx sedutor(a). Mesmo onde a sedução não tomou lugar, onde ambos voluntariamente cederam ao desejo mais íntimo, a honra só é restaurada quando o sangue é derramado, seja do homem ou da mulher.

O Ciúme é obcecado pelo sentimento de possessão e vingança. Isto está de acordo com todas as outras leis de punição nos estatutos que ainda aderem à barbárie noção de que uma ofensa, muitas vezes meramente resulta de injustiças sociais, e devem ser adequadamente punidas ou vingadas.

Um argumento muito forte contra o ciúme pode ser encontrado nos dados de historiadores como Morgan, Reclus e outros, como sobre as relações sexuais dos povos primitivos. Qualquer um que esteja familiarizado com suas obras sabe que a monogamia é uma forma de sexo que surgiu muito mais tarde, como resultado da domesticação e da propriedade das mulheres, e que criou o monopólio do sexo e o inevitável sentimento de ciúme.

 No passado, quando homens e mulheres se misturaram livremente sem a interferência da lei e da moralidade, não poderia existir ciúme, porque este repousa sobre a suposição de que certo homem tem o monopólio exclusivo sobre o sexo de determinada mulher e vice-versa. No momento em que ninguém visa transgredir este preceito sagrado, o ciúme está em pé de guerra. Sob tais circunstâncias, é ridículo dizer que o ciúme é perfeitamente natural. Fatidicamente, se trata de um resultado artificial de uma causa artificial, nada mais.

Infelizmente não são apenas os casamentos conservadores que são afetados pelo ciúme com a noção de monopólio sexual; as chamadas uniões livres também são vítimas dele. O argumento provavelmente levantado é que isto é mais uma prova de que o ciúme é um traço inato. Mas é preciso ter em mente que o monopólio sexual tem sido transmitido de geração em geração como um direito sagrado e como a base da pureza da família e do lar. E assim como a Igreja e o Estado aceitam o monopólio sexual como a única segurança para o vinculo matrimonial, eles tem justificado o ciúmes como uma arma legítima de defesa para a proteção do direito de propriedade.

Agora, se é verdade que um grande número de pessoas superou a legalidade do monopólio do sexo, elxs não superaram as suas tradições e hábitos. Por isso, elxs se tornaram tão cegxs pelo “monstro de olhos verdes” quanto seus/suas vizinhxs conservadorxs no momento os seus bens estão em jogo.

   Um homem ou uma mulher livre e grande o suficiente para não interferir ou inquietar-se sobre as outras atrações da pessoa amada são com certeza desprezadxs por seus/suas amigxs conservadores, e ridicularizadxs por seus/suas amigxs radicais. Elx também será acusadx de ser umx degeneradx ou umx covarde; e frequentemente alguns motivos materiais mesquinhos serão imputados a elx. De qualquer forma, esses homens e mulheres serão alvo de fofocas ou piadas grosseiras ou imundas por nenhuma outra razão além do fato delxs admitirem ao marido, esposa ou amantes o direito de seus próprios corpos e sua expressão emocional, sem fazer cenas de ciúmes ou ameaças selvagens para matar x intrusx.

Há outros fatores no ciúme: o conceito do macho e da inveja do feminino. O macho em matéria sexual é um impostor, um fanfarrão, que sempre se orgulha de suas façanhas e do sucesso com as mulheres. Ele insiste em desempenhar o papel de um conquistador, já que ele foi informado de que as mulheres querem ser conquistados, e que elas gostam de ser seduzidas. Sentindo-se o único galo do curral, ou o touro que deve confrontar com seus chifres a fim de ganhar a vaca, ele se sente mortalmente ferido na sua vaidade e arrogância no momento em que umx rival entra em cena – a cena, mesmo entre os chamados homens refinados, continua a ser o amor sexual da mulher, que deve pertencer a apenas um mestre.

Em outras palavras, o monopólio do sexo em perigo, juntamente com a vaidade do homem ultrajado, em 99 em cada cem casos são os antecedentes do ciúme.

No caso de uma mulher, o medo econômico por si mesma e pelas crianças e sua inveja mesquinha de todas as outras mulheres que ganham graça aos olhos do seu defensor, invariavelmente, criam ciúme. Em justiça, foi dito para as mulheres durante os séculos passados, que a atração física era seu único estoque na negociação, portanto, ela deve se tornar necessariamente invejosa do charme e do valor de outras mulheres como uma ameaça ao seu poder sobre sua propriedade preciosa.

O aspecto grotesco de toda a questão é que os homens e as mulheres geralmente criam uma inveja violenta daquelxs que realmente não se importam muito sobre isso. Portanto, não é o seu amor ultrajado, mas a sua vaidade e inveja indignada que clamam contra esse “terrível erro”. É provável que a mulher nunca amou o homem de quem ela agora suspeita e espiona. Provavelmente ela nunca fez um esforço para manter o seu amor. Mas no momento em que umx concorrente chega, ela começa a valorizar sua propriedade sexual para defendê-la de forma que nenhum meio é muito desprezível ou cruel.

Obviamente, então, o ciúme não é o resultado do amor. Na verdade, se fosse possível investigar mais casos de ciúmes, provavelmente descobririam que quanto mais violento e desprezível é o seu ciúme, menos as pessoas estão imbuídas de um grande amor. Duas pessoas vinculadas por harmonia interior e unidade não têm medo de prejudicar a sua confiança mútua e segurança, se um ou outro tem atrações externas, nem iram terminar seu relacionamento em inimizade vil, como é muitas vezes o caso de muitas pessoas. Muitos delxs não são capazes, nem deve de se esperar, de incluir a escolha da pessoa amada na intimidade de suas vidas, mas isso não xs dá qualquer direito de negar a necessidade da atração.

Assim como eu discutirei variedade e monogamia duas semanas a partir de hoje a noite, não me deterei nisso, nem aqui, exceto para dizer que olhar as pessoas que podem amar mais de uma pessoa de forma tão perversa ou anormal é ser muito ignorante mesmo. Eu já discuti uma série de causas para o ciúme, a qual devo acrescentar a instituição do casamento que o Estado e a Igreja proclamam como “o vínculo até a morte”. Isso é aceito como o ético modo correto de vida e a ação correta.

  Com amor, em todas a sua variabilidade e mutabilidade, acorrentadxs e apertadxs, é uma pequena maravilha se o ciúme surge fora dele. Que outra coisa senão mesquinhez, avareza, suspeita e rancor pode surgir quando um homem e uma mulher são oficialmente mantidxs juntxs com a fórmula “a partir de agora vocês são um em corpo e espírito.” Basta manter qualquer casal amarrado de tal maneira, dependentes umx dxs outrxs para cada pensamento e sentimento, sem um interesse ou desejo externo, e se perguntar se tal relação não deve tornar-se odiosa e insuportável com o tempo.

De uma forma ou outra os grilhões são quebrados, e como as circunstâncias que permitem fazê-lo são geralmente baixas e degradantes, não é de surpreender que eles coloquem em jogo os mais deteriorados e malvados traços e motivos humanos.

Em outras palavras, a interferência legal, religiosa e moral são os pais do nosso atual amor e vida sexual não naturais, e fora disso o ciúme cresceu. Esse é o chicote que açoita e tortura os pobres mortais por causa de sua estupidez, ignorância e preconceito.

Mas ninguém precisa tentar justificar-se em terra por ser uma vítima destas condições. É bem verdade que todos nós inteligentes estamos sob os fardos dos arranjos sociais injustos, sob coerção e cegueira moral. Mas não somos indivíduos conscientes, cujo objetivo é trazer a verdade e a justiça aos assuntos humanos? A teoria de que o homem é um produto de condições levou apenas à indiferença e a um fraco consenso sobre essas condições. Ainda que todos saibam que a adaptação a um modo de vida não saudável e injusto só fortalece a ambos, enquanto o homem, o chamado “coroa de toda a criação”, equipado com uma capacidade de pensar e ver e acima de tudo para empregar os seus poderes de iniciativa, cresce cada vez mais fraco, mais passivo, mais fatalista.

Não há nada mais terrível e fatal do que escavar dentro das vísceras de um de seus entes queridos e de si mesmo. Isso só pode ajudar a rasgar os fiapos de afeto que ainda são inerentes à relação e, finalmente, trazer-nos até a última trincheira, que tenta combater o ciúme, ou seja, a aniquilação do amor, amizade e respeito.

O ciúme é realmente um meio pobre para proteger o amor, mas é um meio seguro para destruir o auto-respeito. Para pessoas ciumentas, como “drogas-demônios”, rebaixa ao nível mais baixo e, no final, inspira apenas desgosto e repugnância.

A angústia pela perda de um amor ou por um amor não correspondido entre as pessoas que são capazes de pensamentos elevados e finos jamais fará uma pessoa se tornar rude. Aquelxs que são sensíveis e finxs apenas devem perguntar-se se podem tolerar qualquer tipo de relação obrigatória, e um enfático “não” seria a resposta. Mas a maioria das pessoas continua a viver próximas uma das outras, apesar de terem a muito tempo deixado de viverem umas com as outras – uma vida fértil o suficiente para a operação do ciúme, cujos métodos percorrem todo o caminho desde abrir a correspondência privada até o assassinato. Comparado com tais horrores, adultério aberto parece um ato de coragem e libertação.

Um escudo forte contra a vulgaridade do ciúme é que o homem e a mulher não são um só em corpo e espírito. Eles são dois seres humanos, com temperamentos diferentes, sentimentos e emoções. Cada um é um cosmos pequeno em si mesmo, absorto em seus próprios pensamentos e idéias. Isso é glorioso e poético se estes dois mundos se encontram em liberdade e igualdade. Mesmo que isso dure pouco tempo, já valerá à pena. Mas, no momento em que os dois mundos são forçados a ficar juntos, toda a beleza e o perfume cessam e nada mais que folhas mortas permanecem. Quem compreende esta obviedade irá considerar o ciúme como algo abaixo de si e não permitirá que isso seja pendurado como uma espada de Dâmocles sobre elx.

Todos os amantes fazem bem ao deixarem as portas do seu amor aberto. Quando o amor pode ir e vir sem medo de encontrar um cão de guarda, o ciúme raramente irá criar raízes porque ele vai aprender rapidamente que onde não há fechaduras e chaves, não há lugar para a suspeita e desconfiança, dois elementos sobre os quais o ciúme cresce e prospera.

Este artigo é uma cortesia dos documentos de Emma Goldman: Divisão de Arquivos e Manuscritos, The New York Public Library, Astor, Lenox e Fundações Tilden.

Traduzido de:

http://dwardmac.pitzer.edu/Anarchist_Archives/goldman/jealousy.html


Em que Acredito – Emma Goldman

De: Nova Iorque, 19 de Julho, 1908

Em Que Acredito

Em que acredito” tem sido muitas vezes alvo de escritores retaliadores. Tantas histórias horripilantes e incoerentes têm circulado sobre mim, que não é de se admirar que o ser-humano mediano tem palpitações no coração cada vez que se menciona o nome Emma Goldman. É uma pena que não vivemos mais nos tempos em que bruxas eram queimadas na fogueira ou torturadas para que o espírito do mal saia delas. Porque, na verdade, Emma Goldman é uma bruxa! Sério, ela não come criancinhas, mas faz muitas coisas piores. Ela fabrica bombas e joga em cabeças com coroas. B-r-r-r!

Tal é a impressão que o público tem de mim e das coisas que acredito. Isso se deve muito ao The World que dá aos seus leitores pelo menos uma oportunidade de aprenderem o que minhas opiniões realmente são.

O estudante de história do pensamento progressivo está bem ciente que todas as idéias nos seus primeiros estágios foram deturpadas, e que os adeptos dessas idéias tem sido caluniados e perseguidos. Não é preciso voltar dois mil anos ao tempo em que aqueles que acreditavam no evangelho de Jesus eram jogados na arena ou caçados em calabouços para perceber quão pouco grandes crenças ou honestos crentes são compreendidos. A história do progresso é escrita no sangue de homens e mulheres que ousaram expor uma causa impopular, como, por exemplo, o direito do homem negro sobre seu corpo, ou o direito da mulher sobre sua alma. Se, então, desde tempos imemoriáveis, o Novo tem encontrado com oposição e condenação, por que minhas opiniões deveriam estar isentas de uma coroa de espinhos?

Em que acredito” é um processo mais do que uma finalidade. Finalidades são para deuses e governantes, não para o intelecto humano. Embora deva ser verdade que a formulação sobre liberdade de Herbert Spencer é o mais importante no assunto, como uma base política da sociedade, ainda assim a vida é algo mais do que formulas. Na batalha pela liberdade, como Ibsen pontuou muito bem, é a luta por, nem tanto a obtenção da, liberdade, que desenvolve tudo de mais forte, mais vigoroso e melhor no caráter humano.

Anarquismo não é somente um processo, no entanto, que marcha a “passos sombrios” , colorindo tudo de positivo e construtivo no desenvolvimento orgânico. É um protesto notável do tipo mais militante. É tão absolutamente firme, insistindo e permeando uma força para superar o mais teimoso ataque e para resistir à crítica daqueles que realmente constituem a última trompeta de uma era decadente.

Anarquistas não são de forma alguma espectadores passivos no teatro do desenvolvimento social; pelo contrário, eles tem algumas noções muito positivas no que diz respeito a objetivos e métodos.

Para que eu possa me fazer o mais clara possível sem utilizar muito espaço, permitam-me adotar o modelo de tratamento em tópicos do “Em que acredito”:

I. Quanto à propriedade

Propriedade” significa domínio sobre as coisas e a negação a outros de usar essas coisas. A medida que a produção não foi igualitária para a demanda normal, a propriedade institucional deve ter tido algum raison d’être (razão de ser). Deve-se apenas consultar a economia, no entanto, para saber que a produtividade do trabalho nas últimas décadas cresceu tão tremendamente a ponto de exceder a demanda normal cem vezes, e para fazer da propriedade não somente um estorvo para o bem-estar humano, mas um obstáculo, uma barreira mortal, para todo o progresso. É o domínio sobre as coisas que condena milhões de pessoas a serem mera nulidade, cadáveres vivos sem originalidade ou poder de iniciativa, máquinas humanas de carne e osso, que acumulam montanhas de riquezas para os outros e pagam por isso com uma cinza, monótona e miserável existência para si mesmas. Eu acredito que não pode haver nenhuma verdadeira riqueza, riqueza social, enquanto isso repousar sobre a vida humana – jovens vidas, velhas vidas e vidas ainda por vir.

É admitido por todos os pensadores radicais que a causa fundamental desse terrível estado das coisas é (1) que os humanos deve vender seu trabalho; (2) que esta inclinação e julgamento estão subordinados à vontade de um mestre.

O anarquismo é a única filosofia que pode e irá acabar com essa humilhante e degradante situação. Se difere de todas as outras teorias na medida em que aponta que o desenvolvimento humano, seu bem-estar físico, suas qualidades latentes e disposição inata devem por si mesmas determinar o caráter e condições de seu trabalho. Similarmente as apreciações mentais e físicas da pessoa e os desejos de sua alma decidem o quanto ela deve consumir. Para tornar isso uma realidade, eu acredito, só será possível em uma sociedade baseada na cooperação voluntária de grupos produtivos, comunidades e sociedades livremente federadas, eventualmente tornando-se um comunismo livre, acionado por uma solidariedade de interesses. Não pode haver liberdade no sentido largo da palavra, nenhum desenvolvimento harmônico, enquanto considerações mercenárias e comerciais atuam um papel importante na determinação da conduta pessoal.

II. Quanto ao governo

Eu acredito que o governo, autoridade organizada, ou o Estado é necessário apenas para manter ou proteger a propriedade e o monopólio. Tem eficiência comprovada somente nessa função. Como uma promotora de liberdade individual, bem-estar humano e harmonia social, o que por si só constituem real ordem, o governo está condenado por todos os grandes homens do mundo. Por isso, penso, com meus companheiros anarquistas, que os regulamentos legais, decretos legislativos, as disposições constitucionais, são invasivos. Eles até hoje nunca induziram o homem a fazer nada ele podia e não iria fazer pela virtude de seu intelecto ou temperamento, nem preveniu nada que o homem estava impelido a fazer pelos ditames. A descrição pictórica de Millet de “O Homem com a Enxada”, as obras-primas de Meunier sobre os mineiros que auxiliaram a elevar o trabalho de sua posição degradante, as descrições de Gorki do submundo, as análises psicológicas de Ibsen da vida humana, nunca poderiam ter sido induzidas pelo governo tanto quanto o espírito que impele o homem a salvar uma criança se afogando ou uma mulher aleijada de um prédio em chamas nunca foi convocado a ser posto em operação pelo regulamento legal ou pela academia de polícia. Eu acredito – de fato, eu sei – que qualquer coisa que é boa ou bonita na humanidade exprime-se e se afirma por si só apesar do governo, e não por causa dele.

Os anarquistas são por isso justificados em assumir que o Anarquismo – a ausência de governo – vai garantir com amplo e bom escopo o desimpedimento do desenvolvimento humano, a pedra angular para o verdadeiro progresso e harmonia sociais.

Quanto ao argumento estereotipado de que o governo atua como um fiscal do crime e do vício, até os que fazem as leis não mais acreditam nisso. Esse país gasta milhões de dólares para manter seus “criminosos” atrás das grades, no entanto a criminalidade está crescendo. Certamente esse estado de coisas não é devido a uma insuficiência de leis! Noventa por cento dos crimes são crimes contra a propriedade, que têm suas raízes em nossas iniqüidades econômicas. Enquanto estas últimas continuem a existir nós devemos converter cada poste em uma forca sem ter o menor efeito sobre o crime em nosso meio. Crimes que resultam de uma herança certamente nunca poderão ser curados pela lei. Com certeza nós estamos aprendendo que tais crimes podem ser efetivamente tratados somente pelos melhores modernos métodos medicinais ao nosso alcance, e, sobretudo, pelo espírito de um profundo senso de companheirismo, bondade e compreensão.

III. Quanto ao militarismo

Eu não devia tratar desse assunto separadamente uma vez que pertence à parafernália do governo, se não fosse pelo fato de que aqueles que são mais vigorosamente opositores às minhas opiniões, sobre o fundamento de que este último apóia a força, são os defensores do militarismo.

O fato é que os anarquistas são os únicos verdadeiros defensores da paz, as únicas pessoas que pedem por uma barragem do crescimento para a tendência crescente do militarismo, que está fazendo rapidamente desse país outrora livre um poder imperialista e despótico.

O espírito militar é o mais sem misericórdia, sem coração e brutal que existe. Promove uma instituição para a qual não existe nem uma pretensa justificação. O soldado, para citar Tolstoi, é um matador profissional de homens. Ele não mata por amor, como um selvagem, ou por paixão, como um homicida. Ele é uma fria, mecânica e obedediente ferramenta dos seus superiores militares. Ele está preparado para cortar gargantas ou afundar um navio ao comando do seu superior, sem saber ou, talvez, se importar, como, por quê ou por qual motivo. Estou apoiada nessa controvérsia por ninguém menos que General Funston. Cito deste, o comunicado para o New York Evening Post de 30 de Junho, lidando com o caso do Cabo William Buwalda, o que causou grande comoção por todo Nordeste. “O primeiro dever de um oficial ou de um alistado,” diz nosso nobre guerreiro, “ é a obediência sem questionamentos e lealdade ao governo ao qual fez juramento; não faz diferença se ele aprova este governo ou não”.

Como podemos harmonizar o princípio de “obediência insquestionável” com o princípio da “vida, liberdade e busca pela felicidade”? O poder mortífero do militarismo jamais foi tão efetivamente demonstrado nesse país quanto na recente condenação pela courte marcial de William Buwalda, de San Francisco, Company A, Engineers, a cinco anos na prisão militar. Aqui tínhamos um homem que teve um record de 15 anos de serviço contínuo: “Seu caráter e conduta eram incontestáveis”, nos dizia Gen. Funston, quem, em consideração a isso, reduziu a sentença de Buwalda para 3 anos. Ainda assim o homem é atirado de repente para fora do exército, desonrado, roubado de suas chances de ter uma pensão e mandado para a prisão. Qual foi seu crime? Só escutem, seus americanos livres (“ye free-born americans”)! William Buwalda foi a uma reunião pública, e depois da leitura apertou a mão do palestrante. Gen. Funston, em sua carta para o Post, a qual já me referi acima, afirma que a atitude de Buwalda foi “uma grande ofensa militar, infinitamente pior que a deserção”. Em outra declaração pública, que o General fez em Portland, Oregon, ele disse que “o crime de Buwalda foi sério, igual à traição”.

É bem verdade que a reunião foi organizada por anarquistas. Se tivessem sido os socialistas, nos informou Gen. Funston, não haveria objeção à presença de Buwalda. De fato, o General diz, “Eu mesmo não teria a menor hesitação de ir a uma reunião socialista”. Mas ir a uma reunião com Emma Goldman como palestrante – poderia haver qualquer coisa mais “traiçoeira”?

Por esse crime horrível um homem, um cidadão americano livre por nascença, que deu a este país os melhores 15 anos de sua vida, e cujos caráter e conduta nesse tempo foram “incontestáveis”, está agora apodrecendo em uma cadeia, desonrado, desgraçado e roubado de uma subsistência.

Pode haver algo mais destruidor do verdadeiro gênio da liberdade do que o espírito que tornou a sentença de Buwalda possível – o espírito da obediência inquestionável? É para isso que o povo americano tem sacrificado nos últimos anos quatrocentos milhões de dólares e seus corações e sangue?

Eu acredito que o militarismo – um exército e marinha permanentes em um país – é indicador da decadência da liberdade e da destruição de tudo que há de bom e melhor em nossa nação. O constantemente crescente clamor por mais navios de guerra e pelo aumento do exército com o fundamento de que isso nos garante a paz é tão absurdo quanto o argumento de que um homem pacífico é aquele que anda bem armado.

A mesma falta de consistência é desempenhada pelos que pretendem a paz que se opõem ao anarquismo porque ele supostamente ensina a violência, e por aqueles que ainda se sentiriam encantados com a possibilidade da nação americana ser logo capaz de arremessar bombas de dinamite sobre inimigo indefesos de máquinas voadoras.

Eu acredito que o militarismo vai acabar quando os espíritos amantes da liberdade do mundo disserem aos seus mestres: “Vá e faça sua própria matança. Nós nos sacrificamos e a aqueles que amamos tempo o bastante lutando suas batalhas. Em troca vocês nos tornaram parasitas e criminosos em tempos de paz e nos brutalizaram em tempos de guerra. Vocês nos separaram de nossos irmãos e fizeram do mundo um abatedouro humano. Não, nós não vamos fazer sua matança ou lutar pelo país que vocês nos roubaram”.

Oh, eu acredito com todo o meu coração que a irmandade e a solidariedade humanas vão limpar o horizonte desse terrível rastro vermelho de guerra e destruição.

IV. Quanto à liberdade de expressão e imprensa

O caso de Buwalda é só um pedaço da questão maior do livre discurso, da livre imprensa e do direito de livre associação.

Muitas pessoas de bem imaginam que os princípios da liberdade de expressão ou de imprensa podem ser exercidos de forma adequada e com segurança dentro dos limites das garantias constitucionais. Essa é a única justificativa, a mim me parece, para a terrível apatia e indiferença para com a investida contra a liberdade de expressão e imprensa que temos testemunhado nesse país nos últimos meses.

Eu acredito que liberdade de expressão e imprensa significa que eu posso dizer e escrever o que quiser. Esse direito, quando regulado pelas prescrições constitucionais, decretos legislativos, ao bel-prazer das decisões do chefe dos correios ou da academia de polícia, se torna uma farsa. Estou bem ciente de que vou ser avisada das conseqüências se nós removermos as correntes do discurso e da imprensa. Acredito, no entanto, que a cura para conseqüências resultantes do exercício ilimitado da expressão é permitir mais expressão.

Algemas mentais até hoje nunca ocasionaram maré de progresso, ao passo que as explosões sociais prematuras com muita freqüência foram provocadas através de uma onda de repressão.

Nossos governantes nunca vão aprender que países como Inglaterra, Holanda, Noruega, Suécia e Dinamarca, com a maior liberdade de expressão, tem sido mais livres de “conseqüências”? Ao passo que Rússia, Espanha, Itália, França e, ai de mim!, até América, cultivou essas “conseqüências” para o fator político mais urgente. Nosso país deveria ser mandado pela maioria, no entanto todo dia um policial que não é investido de poder pela maioria pode acabar com uma reunião, arrastar o orador para fora da plataforma ou dispersar a audiência para fora do salão à verdadeira moda russa. O chefe geral dos correios, que não é um funcionário elegível, tem o poder de suprimir publicações e confiscar cartas. De sua decisão não há mais nenhum apelo do que o do Czar da Rússia. Na verdade, eu acredito que nós precisamos de uma nova Declaração de Independência. Não existe nenhum Jefferson ou Adam modernos?

V. Quanto à Igreja

Na recente convenção dos remanescentes políticos de uma idéia uma vez revolucionária, foi votado que religião e obtenção de votos não tem nada a ver um com o outro. Por que deveriam? “A partir do momento que um homem pretende entregar ao demônio o cuidado de sua alma, ele pode, com a mesma coerência, delegar ao político o cuidado de seus direitos”. Que a religião é um assunto privado, a muito foi estabelecido pelos bis-marxistas (bismarck+ marx) socialistas da Alemanha. Nossos marxistas americanos, pobres de sangue e originalidade, vão a Alemanha por sua sabedoria. Essa sabedoria serviu como um chicote capital para açoitar várias milhões de pessoas para dentro do bem-disciplinado exército do Socialismo. Ela pode fazer o mesmo aqui. Pelo amor de deus, não vamos ofender a respeitabilidade, não vamos machucar os sentimentos religiosos das pessoas.

Religião é uma superstição origina na incapacidade mental do homem de resolver fenômenos naturais. A Igreja é uma instituição organizada que sempre foi uma pedra no caminho do progresso.

A organização de igrejas arrancou a religião de sua ingenuidade e primitivismo. Tornou a religião um pesadelo que oprime a alma humana e mantém a mente em cativeiro. “O domínio da escuridão”, como o último verdadeiro cristão, Leo Tolstoi, chama a Igreja, tem sido um inimigo do desenvolvimento humano e do livre pensamento, e assim não tem lugar na vida de pessoas verdadeiramente livres.

VI. Quanto ao casamento e ao amor

Acredito que estes sejam os assuntos que mais tabu nesse país. É quase impossível falar deles sem escandalizar a amada propriedade de muita boa gente. Não é de se espantar que tanta ignorância prevaleça relativa a essas questões. Nada menos que uma discussão aberta, franca e inteligente vai purificar o ar da histeria, baboseira sentimental que está encobrindo esses assuntos vitais, vital para o indivíduo como para o bem-estar social.

Casamento e amor não são sinônimos; pelo contrário, são com freqüência antagônicos um ao outro. Estou ciente do fato de que alguns casamentos são desempenhados pelo amor, mas os estreitos, limites materiais do casamento, como é, rapidamente esmaga a delicada flor da afeição.

O casamento é uma instituição que fornece ao Estado e a Igreja uma tremenda renda e os meios de se meter na fase da vida que pessoas finas a muito consideram como propriamente sua, sua coisa mais sagrada. O amor é o fator mais poderoso no relacionamento humano que desde tempos imemoriáveis tem desafiado todas as leis feitas pelo homem e rompido com as grades de ferro das convenções na Igreja e da moralidade. O casamento é normalmente um puro arranjo econômico, provendo à mulher uma apólice de seguro de longa vida e ao homem um perpetuador de sua espécie e um bonito brinquedo. Ou seja, o casamento, ou o treinamento para isso, prepara a mulher para uma vida de parasita, uma dependente, desamparada servente, enquanto concede ao homem o direito sobre a hipoteca de um bem imóvel de uma vida humana.

Como pode tal condição das coisas ter qualquer coisa a ver com amor? – com o elemento que iria abrir mão de toda a riqueza do dinheiro e do poder para viver em seu próprio mundo de livre expressão humana? Mas não é tempo de romantismo, de Romeu e Julieta, de Faust e Marguerite, e êxtases à luz da lua, de flores e canções. Nossa era é da praticidade. Nossa primeira consideração é o rendimento. Pior para nós que alcançamos a era em que os vôos mais altos da alma devem ser examinados. Nenhuma raça pode se desenvolver sem o elemento do amor.

Mas se duas pessoas estão adorando o santuário do amor, o que se faz do bezerro de ouro, casamento? “É a única segurança para a mulher, para as crianças, para a família, para o Estado”. Mas não é segurança para o amor; e sem o amor não pode existir um lar de verdade. Sem amor nenhuma criança deveria ser tida; sem amor nenhuma mulher de verdade pode estar relacionada a um homem. O medo de que o amor não seja uma segurança material suficiente para as crianças está desatualizado. Eu acredito que quando a mulher assinar sua própria emancipação, sua primeira declaração de independência vai consistir em admirar e amar um homem pelas qualidades de seu coração e mente e não pelas quantidades em seu bolso. A segunda declaração vai ser que ela tem o direito de seguir esse amor sem abandonar o mundo exterior ou se impedida por ele. A terceira e mais importante declaração será o direito absoluto à livre maternidade.

Assim uma mãe e um igualmente livre pai garantem a segurança da criança. Eles tem a força, a firmeza, a harmonia para criar uma atmosfera dentro da qual a planta humana pode crescer e se tornar uma primorosa flor.

VII. Quanto a atos de violência

E agora cheguei ao ponto de minhas opiniões sobre o qual prevalece o maior desentendido na mente do público americano. “Bom, vamos, agora, você não propaga a violência, a morte das cabeças coroadas e presidentes”? Quem disse que eu propago? Vocês me ouviram, qualquer um me ouviu? Alguém viu isso impresso em nossa literatura? Não, mas o jornal diz que sim, todo mundo diz que sim; conseqüentemente deve ser assim. Oh, pela precisão e lógica do querido público!

Acredito que o anarquismo é a única filosofia da paz, a única teoria do relacionamento social que valoriza a vida humana acima de qualquer outra coisa. Sei que alguns anarquistas cometeram atos de violência, mas é a terrível desigualdade econômica e a grande injustiça política que ocasionam esse atos, não o anarquismo. Todas as instituições hoje em dia se baseiam na violência; nossa atmosfera está saturada dela. Enquanto tal estado exista devemos lutar para parar a fúria do Niagara tanto quanto esperamos nos livrar da violência. Já expus que países que tem liberdade de expressão em alguma medida, tiveram poucos ou nenhum atos de violência. Qual é a moral? Simplesmente isso: nenhum ato cometido por anarquistas foi por benefício pessoal, engrandecimento do lucro, mas sim um protesto consciente contra algumas medidas repressivas, autoritárias e tirânicas que vem de cima.

O presidente Carnot, da França, foi morto por Caserio em resposta a recusa de Carnot de comutar a pena de morte de Vaillant, por cuja vida todo o mundo literário, científico e humanitário da França suplicou.

Bresci foi à Itália com seu próprio dinheiro, ganhado nos moinhos de tecelagem de seda de Paterson, para chamar o Rei Humberto para o lado da justiça em sua ordem de atirar em mulheres e crianças indefesas durante uma rebelião pelo pão. Angelino executou o Primeiro-Ministro Canovas por sua ressurreição da inquisição espanhola na prisão de Montjuich. Alexander Berkman tentou contra a vida de Henry C. Frick durante a greve de Homestead somente pela sua intensa compaixão pelos onze grevistas mortos por Pinkertons e pelas viúvas e orfãos despejados por Frick de suas miseráveis casinhas que pertenciam ao Sr. Carnegie.

Cada um desses homens não só fizeram suas razões conhecidas ao mundo em declarações orais ou escritas, mostrando a causa que os levaram a esses atos, provando que a insuportável pressão econômica e política, o sofrimento e desespero de seus companheiros, mulheres e crianças levaram aos atos, e não a filosofia do anarquismo. Eles vieram aberta e francamente preparados para agüentar as conseqüências, preparados para darem suas vidas.

Diagnosticando a verdadeira natureza de nossa doença social eu não posso condenar aqueles que, não por culpa própria, sofrem de um mal generalizado.

Eu não acredito que esses atos podem, ou até tiveram a intenção de, trazer a reconstrução social. Isso somente pode ser feito, primeiro, por uma educação larga e ampla sobre o lugar do homem na sociedade e sua relação adequada com os companheiros; e, segundo, pelo exemplo. Por exemplo quero dizer a real vivência de uma verdade uma vez reconhecida, não a mera teorização desse elemento da vida. Por último, e a arma mais poderosa, é o consciente, inteligente, organizado, protesto econômico das massas através da ação direta e greve geral.

A controvérsia geral de que o anarquismo é oposto à organização, e por isso apóia o caos, é completamente sem fundamento. Verdade, nós não acreditamos no compulsório, arbitrário lado da organização que compeliria as pessoas de gostos e interesses antagônicos em um corpo e manteria elas lá por coerção. Organização como o resultado natural da mistura de interesses comuns, trazidos pela adesão voluntária, os anarquistas não só não se opõem, mas acreditam nisso como a única base possível para a vida social.

É a harmonia do crescimento orgânico que produz a variedade de cores e formas – o todo completo que admiramos na flor. Analogicamente a atividade organizada de seres humanos livres dotados do espírito da solidariedade vai resultar na perfeição da harmonia social – que é o anarquismo. De fato, somente o anarquismo faz de organizações não-autoritárias uma realidade, uma vez que abole o antagonismo existente entre indivíduos e classes.


Eros e Anarquia – Prólogo

Por Osvaldo Baigorria

Buenos Aires, Abril de 2006.

Para defender o princípio de amor livre se necessitam doses iguais de inocência e experiência. Uma vez dessacralizados o casamento, a família e o casal homem-mulher unidos “para sempre”, o que senão a inocência pode vincular liberdade ao amor, especialmente se este é entendido como paixão ou atração entre seres de carne e osso? A experiência sussurra ao ouvido que a fidelidade é impossível, que a monogamia é uma ilusão e que as leis do desejo triunfam sempre sobre as leis do costume. A inocência grita que o amor só pode ser livre, que a pluralidade de afetos é um fato e que o desejo obedece a uma ordem natural, anterior e superior a todo mandato social estabelecido.

Poderia se supor que a inocência equivale à ingenuidade assim como a experiência ao cinismo. No entanto, muitos dos autores reunidos nessa antologia intuíram que a emulsão resultante da fórmula “amor-liberdade” é muito mais complexa. Nunca houve nada mais difícil do que ser libertário nas questões amorosas. Se pode sê-lo frente à autoridade, ao trabalho ou à propriedade, mas ante aos vai-e-vens do coração não há princípio, regra ou idéia que se mantenha firme em seu terreno. Existe alguém mais parecido com um escravo do que uma apaixonado?

Em tempos de relativa paz (ou seja, sem guerras nacionais, civis ou religiosas declaradas), os ciúmes são a principal causa de homicídios. Em nome do amor o ser-humano mata, possui e submete aos seus semelhantes, ao mesmo tempo que é possuído por uma força ou potência que irrompe não se sabe bem da onde e o arrasta a um destino impossível de prever. A possessão é a antítese da liberdade. Como alguém pode ser verdadeiramente livre quando ama? Só através de uma reinvenção da palavra amor.

Eros é o antigo nome dessa potência. Antes que adquirisse esse caráter sentimental personificado em um jovem charmoso, filho de Afrodite e de um pai incerto (Hermes, Ares ou o próprio Zeus), que voava com assas douradas e disparava flechas nos corações, era uma fastidiosa força aérea da natureza que, como a velhice ou as pragas, deveria ser controlada para que não perturbasse o funcionamento social. Supõem-se que foi o primeiro dos deuses já que, sem ele, nenhum outro teria nascido. De todas as maneiras, sempre foi muito irresponsável para fazer parte da hegemônica família dos Doze do olimpo.

Podemos imaginar distintos acordos e conflitos numa união hipotética entre Eros e Anarquia, sobretudo se não entendemos essa última só como uma ordem social caracterizada pela ausência de Estado. Se argumentou que an-arché é a rejeição de todo princípio inicial ou causa primeira, de toda origem única e absoluta: “A causa primeira nunca existiu, nunca pode existir… A causa primeira é uma causa que em si mesma não tem causa ou que é causa de si mesma” (Bakunin). A energia anárquica tem sido descrita como um caos cego de impulsos autônomos, assim como uma construção voluntária de formas associativas entre forças que lutam por se afirmarem e se reconhecerem sem dissolver as diferenças que as opõem (Proudhon). Em vez de um modelo político utópico situado ao final dos tempos, se trataria de uma potência aberta à criação constante de individualidades (Simondon), ocasionalmente relacionada com a ancestral ideia grega de apeiron utilizada por Anaximandro para descrever esse fundo indefinido e indeterminado a partir do qual surgem sem cessar os seres individuais. Que este principio sem principio possa se unir felizmente e sem brigas conjugais com aquele deus alado é algo que ainda está para ser visto.

Certamente os autores aqui apresentados não tem uma opinião única e homogênea sobre a dupla Eros e Anarquia nem sobre seu filho legítimo: o amor livre. Por exemplo: enquanto que para Cardias -iniciador do experimento conhecido como Colônia Cecília no Brasil do século XIX- o adultério é a forma mais indigna desse amor, para Roberto de las Carreras a figura do Amante é bandeira de luta contra o casamento burguês, segundo o panfleto publicado em Montevidéu em 1902, no qual o autor relata como descobre sua própria mulher nos braços de outro homem e, em vez de se sentir traído, exalta a adúltera como a melhor aluna de seu ensinamento erótico-libertário.

Intitulamos O Amor Livre a esta heterogênea -e majoritariamente heterossexual- seleção de textos como homenagem a um título já clássico de livros e artigos anarquistas e a um ideal que também pertence a tradição romântica e modernista. Tenta-se mostrar assim a diversidade de olhares históricos sobre a questão, reunindo fragmentos escritos por militantes sociais em publicações do fim do século XIX e princípios do XX, junto a outros de origem contracultural que, sem ser estritamente anarquistas, apresentam uma sensibilidade libertária no tratamento do tema.

Claro que se encontrarão consensos de fundo. O amor que aqui se chama livre é aquele que questiona toda moral dúbia, hipocrisia ou cinismo. Como disse René Chaughi em “O matrimônio é imoral”: se duas pessoas desejam unir-se ante um deus, nada há a criticar. Muito pelo contrário: o problema é o caráter hipócrita daqueles que aceitam submeter-se ao rito religioso sem haver pisado numa igreja desde a primeira comunhão. A mentira pertence, nesta concepção, ao campo do inimigo. O militante anarco-erótico seria, antes de tudo, um moralista.

Durante muito tempo, amor livre foi sinônimo de união livre: uma relação não sujeita à leis civis nem religiosas. Em épocas em que o casamento era indissolúvel e o divórcio um horizonte polêmico, a liberdade de duas pessoas de se unirem prescindindo da lei e de se separarem “quando o amor chegue ao seu fim” era motivo de escândalo mas não continha necessariamente a idéia posterior de libertação sexual. Ademais, era por definição geral a união entre um homem e uma mulher, não entre duas ou mais mulheres nem entre dois ou mais homens. Essa proposta pode ser vista hoje como uma demanda que questionava o casamento jurídico e a moral do século XIX mas que, de algum modo, acabaria obsoleta durante a segunda metade do século XX.

Não obstante, o amor plural, o companheirismo amoroso ou os “casamentos comunais” são relatos e práticas que os anarquistas que mais pensaram sobre o tema já manejavam faz quase 150 anos como formas de relação nas quais a expressão “amor livre” significa aquilo que literalmente hoje sugere aos nossos ouvidos. Os militantes que defenderam esses modelos tentaram resolver talvez a questão mais delicada que pode surgir entre duas pessoas que se amam: o que fazer quando aparece o desejo por outrxs.

Esse desejo se pode negar. Ou se pode reconhecer sua irrupção ainda que se utilizem instrumentos de contenção ou repressão. Se pode satisfazê-lo com encontros ocasionais proibidos mas tentando auto-controlar-se (“não vou me apaixonar”). Manter uma relação paralela clandestina (“é só sexo”); ou lançar-se a experimentar dentro do laboratório social modos diversos de intercâmbio de afetos e atrações. Como dito por Woody Allen, o coração é um órgão muito flexível.

Se observamos as distintas propostas de formas inovadoras de se relacionar, como as comunidades afetivas, o amor entre camaradas livres, o “abraço polimorfo” ou o “beijo amorfista”, notamos que o grau de ruptura e originalidade temática destes autores não se destaca unicamente sobre o contexto de sua época em que sua pluralidade de modelos foi implantada. De fato, eles parecem ganhar validade na medida que perdure a compulsão bi-pessoal de formar um casal e se casar.

Na verdade, seria difícil encontrar um período histórico capaz de absorver ou assimilar a radicalidade de algumas dessas soluções aos problemas da vida afetiva. Por exemplo, a revolução sexual da segunda metade do século XX não é facilmente homologável ao amor livre, uma noção mais velha e mais contundente. Embora a contracultura e o liberacionismo dos anos 1960-70 tivessem influências anárquicas, a idéia de uma sexualidade livre também se articulou com certos dispositivos de poder, incitou o sonho de múltiplos intercâmbios sexuais sem pagar por eles (livre no sentido de free: gratuito) ou bem legitimou a possibilidade de coisificar corpos dimensionados como objetos de desejo. Com a substituição de “amor” por “sexo” implicou algum grau de perda da inocência.

Na realidade, a noção de amor livre aponta mais alto: não a mera possibilidade de ter múltiplas relações sexuais, mas a de amar a várias pessoas ao mesmo tempo. Reintroduz a noção de companheirismo, de companheirismo afetivo. Afirma que se pode querer bem a (querer o bem de) dois ou mais seres simultaneamente. Insiste em que as pessoas sempre estão amando a várias outras ao mesmo tempo, embora com diferentes intensidades e propósitos. Aposta, portanto, numa nova educação sentimental.

Sendo assim, uma idéia tão bonita que se pode perdoar suas fragilidades. Estas são encontradas nas bases de sua própria construção. O amor livre também se assenta sobre um acordo, pacto ou modelo de conduta que tenta cavalgar sobre os deslocamentos inconstantes do desejo. E é difícil tomar as rédeas, manejar, calcular a natureza polifacetada do fluxo que leva a dois ou mais corpos a se unirem ou separarem com a mesma inesperada e incontrolada força passional.

Como advertiu Bataille, no campo de Eros sempre está em jogo a dissolução das formas constituídas. A fusão dos amantes, apesar de suas promessas de felicidade recíproca, introduz a pertubação e a desordem, elevando a atração a um ponto tal que inclusive a privação temporária da presença do outro pode chegar a ser sentida como uma ameaça de morte. Amar, em certo sentido, é viver no temor da perda dx amadx.

Isso é o que detecta Malatesta. Em contrapartida do amor livre como construção teórica superposta artificialmente para substituir a dupla monogâmica, o texto do militante trabalhador e agitador italiano introduz uma problematização mais profunda do vínculo entre amor e liberdade. Sem esperança alguma de que uma mudança radical dos costumes elimine as dores do amor, Malatesta lembra que este sentimento, para ser satisfeito, precisa de duas liberdades que concordem e que a reciprocidade é uma ilusão desde o momento em que se pode amar e não ser amado.

Alguém se junta a outra pessoa por certa promessa implícita de que ela vai satisfazer suas necessidades de companhia, diversão, contenção. A promessa coloca que essa satisfação será (deverá ser) correspondida. Assim, aderir a essas demandas converte uns e outros em propriedades e possessões. Existem proporções extremas e moderadas de apego, mas é verdadeiramente raro encontrar um amor entre seres humanos que não seja atravessado por essa obsessão.

Por sua parte, na Enciclopédia Anarquista de Sebastián Faure (Ver em anexo o Glossário não-monogâmico básico), Jean Marestan reflete sobre a tendência do amor se enobrecer com a inteligência e se transforme de paixão para sentimentos mais doces e duradouros: o companheirismo, a amizade, o carinho, a estima; ou seja, afetos mais suaves, leves, lentos ou moderados. Ali também se critica o desejo de possessão que não é considerado um mal em si mesmo a não ser quando toma as proporções extremas de apropriação e monopolização.

Então aqui o amor não é nada absoluto, nem uma essência universal inesgotável como seria um deus. Tão pouco a liberdade, um termo relativo o é: sempre aparece em relação a outra coisa. Se é livre de algo ou de alguém. Liberdade pode significar a ruptura de uma lei conjugal assim como se livrar do amor entendido como atração entre dois corpos. Nesse último caso, ser livre implicaria atravessar o campo do erotismo talvez para chegar ao que os cristãos chamaram de agapé e os budistas de karuna, mais um amor-compaixão que um amor-paixão, uma entrega não egoísta aos outros, um dom que se voltaria a todos os seres sem distinção. Um amor livre de atração, possessividade, apego, propriedade. É possível? Se alguém se livra de estar junto de uma só pessoa, poderá sentir esse amor capaz de se derramar sobre todos sem diferenciação? Não é provável que termine, mais cedo ou mais tarde, atendo-se a outro número limitado de objetos de desejo? São perguntas que precisam ser encaradas se queremos entender melhor os pontos de tensão e equilíbrio presentes no conflitivo casal de Eros e Anarquia.

Para não restar dúvida: nessas páginas se redefine o amor como um gesto que rompe as regras sociais e econômicas. Sua força destrutiva se dirige contra o cálculo, o interesse, a manipulação; quer dizer, contra do vil e do utilitário. Estes seriam os autênticos obstáculos para uma vontade de sentir que tende a escapar a toda regulamentação. Os anarquistas do século XIX propunham destruir a família justamente para que esse sentimento fosse mais sólido, durável, baseado numa convicção interior. Se tratava, em suma, de reconhecer honestamente as inconstâncias da vida. Essa aposta na verdade é o que torna o amor livre em um princípio essencialmente moral.

Só resta esperar que a força dos argumentos expostos nessa antologia ajude àqueles que suspeitam, seja por inocência ou experiência, que nenhuma força ideal – nem mesmo a noção de amor livre – poderá satisfazer as expectativas de felicidade duradoura (“por toda a vida”) de duas ou mais pessoas que se amam, assim como nenhuma convenção, rito ou regra aprovada diante testemunhas poderá sujeitar por completo o anárquico movimento dos corações.


As sete virtudes do amor livre – Thierry Lodé

As sete virtudes do amor livre – Thierry Lodé*

*Thierry Lodé é um biológo francês que estuda, dentre outros temas, ecologia evolutiva, biodiversidade sexual, etnologia, etc. “A única norma é a diversidade no comportamento sexual. “

Temos que falar de amor, dos triunfos do amor. O amor livre é uma demanda libertária que se opõe a casamentos arranjados ou ao corset (espartilho) estadista de um contrato que encerra a mulher como se fosse uma propriedade do homem. Sacudindo-se a tirania de um patriarcado estabelecido sobre o domínio da mulher, a questão do amor livre continua sendo o projeto da liberdade de amar. Porque o amor livre é antes de tudo uma crítica à exclusão.

Evidentemente, alguns podem acreditar que o amor livre está perfeitamente introduzido nos costumes de uma libertação sexual anunciada. Porque assim é com as idéias libertárias, sua força original se infiltra por aqui e ali pouco a pouco, muitas vezes sem ser premeditada. Do companheirismo amoroso e revolucionário elaborado por Émile Armand até a vida solitária dos solteiros, o caminho para a igualdade dos sexos não parece, contudo, tão fácil. Aqui reside o combate cotidiano às exclusões.

A primeira conquista do amor livre foi esclarecer a diferença entre reprodução e sexualidade. Porque explorando essa diferença se fabricou a desigualdade, uma desigualdade obscena que permitiu aprisionar as mulheres na estreita obrigação da reprodução. A sexualidade não se resume a reprodução e existem todos os comportamentos na natureza. Se a viviparidade humana tem suas obrigações, já não é possível usar essas imposições para estabelecer, com plenos direitos, a desigualdade. O desejo da criança não é negado pela sexualidade livre. E não é menos certo que se a reprodução supõem um compromisso amoroso, este pode estar fundamentado em um consentimento livre. Quando se constitui realmente como uma alienação do indivíduo, o contrato que consolida o matrimônio se pretende as vezes um meio de proteção do débil, pressupondo a incapacidade de responsabilização dos protagonistas. Ao negar a própria humanidade dos indivíduos, o contrato matrimonial se converte rapidamente numa legitimação de costumes, proibindo a homossexualidade e outras formas amorosas, colocando a exclusividade amorosa em benefício do controle de aumento da prole.

Biologicamente, o ser humano se coloca entre o bonobo e o gorila. Se do bonobo tem uma certa reivindicação por pluralidade de condutas, com o gorila o homem compartilha a exogamia das fêmeas. Nos gorilas, com efeito, as fêmeas são apartadas do grupo de pertencimento. O pachá (senhor) reina sozinho em um harém de fêmeas vindas de intercambios com outros grupos. Encontramos algo parecido com o conceito de comunidade de mulheres desenvolvido por Carpócrates e o comunismo primitivo dos agnósticos libertinos. Entre os humanos as mulheres saem dos grupos e (em muitos países) a troca do nome de solteira pelo de mulher casada estabelece essa ruptura. No entanto os humanos nem sempre exibem poligamia. Os múltiplos grupos humanos, desde os papúas até os índios, realizam minuciosamente uma estrutura comunitária. O casal exclusivamente monogâmico foi progressivamente construído ao longo da Idade Média e se impõe singularmente durante a transformação industrial do século XIX. Forma-se o casal, suja solidão molesta a sociedade. No entanto, ao se emancipar da obrigação de se reproduzir, a sexualidade leva os indivíduos a descobrirem melhor uns anos outros, a se sentirem e se compreenderem. Assim é como os bonobos utilizam a sexualidade para evitar que surjam conflitos.

O segundo êxito do amor livre foi ter removido a couraça protetora das fábulas religiosas. A rejeição da benção não só se opôs à ingerência religiosas nos assuntos pessoais, mas viu no juramento religioso a própria negação do amor. Ao romper com os aprisionamentos que as igrejas impõe, o amor recuperou algo de sua sinceridade.

As religiões monoteístas, ao imporem a exclusividade ao deus que veneram, reivindicam a exclusão. Seu deus não apenas ensangüentou uma parte do mundo, mas também apodreceu o matrimônio proibindo a contracepção e a liberdade. Foram necessárias as leis republicanas sobre divórcio para abrir uma brecha nesse eternidade. Ao emancipar-se de deus, o divórcio tem perturbado enormemente seus lacaios sectários. Introduziu a fratura fundamental que rompe com a extensão temporal do juramento. Ao introduzir a liberdade no seio dos relacionamentos humanos, o amor livre encontrou rapidamente sua ingerência atéia, estabelecendo um abismo definitivo no aparato cínico das cerimônias devotas.

O terceiro êxito do amor livre consiste nessa ausência de redução do outro. A criança já não é bastarda. Ao invés de perpetrar a conseqüência ilegítima de um concubinato, a criança é um filho do amor. É ainda pertinente para a comunidade familiar reconstruída e todos xs filhxs são reconhecidxs como iguais. O namorado não é corno, a pessoa não é infiel. O amor se fez plural e a família proprietária é sucedida por uma comunidade de indivíduos livres. Esta é a atitude que me leva a reconhecer no outro o indivíduo último que constrói o meu amor. Não sabe mais nessas categorias humilhantes e obscenas contidas na instituição da exclusão. Como rejeição a essas diminuições, o amor livre contem uma idéia verdadeiramente revolucionária ao privilegiar a autonomia individual.

A quarta vitória da exigência libertária pelo amor livre tem lugar a partir de 1968, com o desejo de autenticidade, a rejeição da exclusividade nas relações e uma vontade de transformação das culturas cotidianas. Essa reivindicação de autenticidade dos amores tem sido caricaturada como uma simples sucessão de relações múltiplas e superficiais. A sexualidade exclusiva (monogamia exclusiva, homossexualidade exclusiva, poligamia) não existe na natureza, a única norma é a diversidade no comportamento sexual. No entanto, a libertação das atividades sexuais pode esgotar-se em uma contradição, levando da autonomia aparente das pessoas à solidão desigual do isolamento no mundo mercantil. O amor livre não se reduz ao sexo liberado nem à promiscuidade luxuriosa. Pelo contrário, a experiência livre do outro supõem uma busca por autenticidade. Cada um e cada uma revelam uma pessoa única, um amor diferente que não pode reclamar esse capricho infantil da exclusividade. A liberdade que constitui nossa individualidade é antes uma demanda de confiança, de relações sem o cárcere da exclusão.

Porque o sentimento amoroso é uma construção paradoxal, na qual cada um tem sua experiência singular que, no entanto, é compartilhada por todos. Nos coloca como alguém únicx sobre a terra ao estar apaixonadxs por outra pessoa única, e no entanto todos temos essa experiência. Muitas vezes não existem outros motivos que os seus próprios. Como que em nome disso se estabelece a inacreditável perversidade de exclusão aos outros? O matrimônio institui essa regra dupla da exclusividade imposta e da suspeita inevitável porque considera o compromisso infinito. Os ciúmes, esse “prejuízo a propriedade”, como dizia Armand, envenenam a relação amorosa e ainda assim são valorizados na sociedade mercantil. Nessa prisão de costumes, ambas as partes se devem desconfiança. Nós, ao contrário, afirmamos que rejeitar a exclusividade amorosa é um fundamento necessário para o amor livre.

A quinta qualidade do amor livre consiste na transformação da economia doméstica que esta demanda libertária provocou. O casamento institui a dependência econômica e sexual das mulheres. A guerra dos sexos instaurou o casamento em uma sujeição feminina à diferentes tarefas não retribuídas. A família pressupõe a repartição desigual de tarefas, e a ausência de remuneração por atividades particulares. Dirigir a casa, rapidamente encarregado à mulher, consiste em uma parte da organização econômica curiosamente levada a cabo com uma servidão absoluta e sem pagamento. Ao sublinhar essa disparidade, a reivindicação por igualdade do amor livre pôs totalmente em desuso essa servidão doméstica e estabeleceu as bases de uma revolução da vida cotidiana. E “aqueles que preferem a revolução e a luta de classes sem se referirem explicitamente à vida cotidiana [...] têm um cadáver na boca”, como assegurava Vaneigem.

O sexto mérito do amor livre é reconhecer a força legítima do desejo. Classificados pelos devotos no campo das obsessões, o desejo e a fantasia são hipocritamente deslocados para o negativo do amor. Para o poder público, a sedução das mulheres se reduz a sua falsidade e o desejo dos homens se limita a concupiscência. Se instituiu inclusive o conceito policial de provocação passiva. Para os funcionários do Estado, o desejo é algo como a vergonha do amor. O fundamento biológico das atrações sedutoras é perfeitamente identificado e ao mesmo tempo desaconselhado pelo matrimônio. A atração amorosa é demasiado animal, “um encontro de salivas” dizia Cioran. O que permite a atração dos outros reside no extravagante.

Numerosos animais fazem gestos insólitos para seduzir a seu companheiro. A tendência ao exagero é um componente fundamental da biologia que permite explicar a exuberância dos traços sexuais entre os animais, como a cor nos pássaros, a cauda do pavão real ou as pinças do caranguejo do mar. A biologia evolutiva mostra que os traços artificialmente aumentados podem inclusive superar aos estímulos simples. O homem não é indiferente ao exagero dessas características, como muito bem sabem os publicitários, que “melhoram” os retratos femininos para aumentar as vendas de um produto. Se a maquiagem e o tratamento de imagens são as últimas mentiras do mundo mercantil, também é certo que nossa mente é cada vez mais natural. É provável que a atração nasça biologicamente desse estímulo supranormal, um estímulo excessivo que desencadeia uma atração mais intensa, com a ajuda de certos ferormônios. No curso da evolução biológica, os processos de seleção natural aumentaram a presença dessas características estranhas que estimulam o desejo sexual. O desejo nasce do sensorial e seu fundamento biológico. Inclusive as representações e desenhos femininos, inclusive as bonecas que as crianças usam, tudo que afeta a parte baixa do corpo constitui o problema, mesmo que se disfarce com o comprimento das pernas, os olhos grandes, a finura da aparência, exagerando todos os traços do desejo. Assim, a beleza física não seria mais que a impressão de um desejo formado pela composição de caracteres exagerados. Então é possível perguntar-se sobre os determinismos do desejo, a imagem pela qual ficamos apaixonados prisioneiros ao reconhecer o dinamismo vivaz que constitui o desejo, e a inércia de seus constituintes, que podem também nos enganar. O desejo é um componente fundamental que o amor livre reabilitou.

A sétima força do amor livre reside curiosamente no incerto. A única coisa que x apaixonadx conhece é seu próprio sentimento íntimo. Só existe uma certeza no amor, minha própria razão. A resposta do outro se estabelece no desconhecido. O desejo que funda o descobrimento do outro é tão confuso que o sentimento nunca desaparece totalmente. O amor se prescreve como uma força oculta. Mas a incerteza estabelece igualmente a verdade do amor, a tristeza de seu vigor. Porque o amor não está fundado em um direito. O mal-entendido não reside só no medo do engano, da dissimulação. X apaixonadx não tem mais direitos além do de amar. O drama quase esbarra na comédia. Então, as provas de amor seriam exigidas como fragmentos desses juramentos perdidos. Eu não tenho direito a nada do amor do outro, ainda que tenha o direito de amar. Aqui a humanidade se constrói sem obrigações nem restrições. Há na incerteza uma força viva que reconhece intuitivamente a liberdade do outro. É também um pequeno sofrimento, que mostra a esse indivíduo irredutível sua liberdade e sua humanidade.

Decididamente, o amor livre instaura uma reconciliação entre as liberdades e uma exigência de emancipação social. Está aqui todo o sentido crítico de Lucienne Gervais: “Se representa comumente ao amor zombando os velhos: pois bem, eu vejo o amor, livre até o fim, zombando das morais caducas, dos velhos usos e dos velhos costumes. Vejo o amor zombando do velho mundo”.

Referências:

ARMAND E. 1906 « Les « Colonies » communistes », L’Ere Nouvelle
CIORAN E. 1987 « Précis de décomposition ». Eds Gallimard
GERVAIS L. 1907 « L’amour libre », l’anarchie, n° 111
LODE T. 2006 « La guerre des sexes chez les animaux » Eds O Jacob
VANEIGEM R 1967 « Traité de savoir vivre à l’usage des jeunes générations » Eds Gallimard.
ZAÏKOVSKA S. 1913 « Le féminisme », La Vie anarchiste n°12, 1er mai 1913

Traduzido de: http://elanticristodistro.blogspot.com/2011/02/las-siete-virtudes-del-amor-libre-x.html

OBS: algumas alterações foram feitas em relação ao texto de origem para tornar o texto mais inclusivo.


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