Ciúmes: Causas e uma possível cura – Emma Goldman
Publicado; janeiro 19, 2012 Arquivado em: Emma Goldman 3 Comments »Ninguém em geral é capaz de uma intensa consciência interna, porque a vida sempre necessita de esperança para escapar da angústia mental e do sofrimento. O sofrimento, e muitas vezes o desespero, sobre a chamada característica eterna das coisas são a mais persistente companhia de nossas vidas. Mas eles não surgem em nós do exterior, através dos atos malignos de pessoas particularmente más. Eles são condicionados ao nosso próprio ser, de fato, eles estão interligados através de mil propostas e grossos fios com a nossa existência.
É absolutamente necessário que nós compreendamos esse fato, porque as pessoas que nunca se livram da noção de que sua desgraça é fruto da maldade dos outros nunca podem superar o ódio mesquinho e a malícia que constantemente acusa, condena e persegue os outros por algo que é inevitavelmente parte de si mesmos. Tais pessoas não irão subir para as alturas sublimes do verdadeiro humanista, para quem o bem e o mal, a moral e a imoral, são, portanto, termos limitados para o conflito interior das emoções humanas no mar da vida humana.
O filósofo “além do bem e do mal”, Nietzsche, é atualmente denunciado como criador de um ódio nacional e uma destruição metralhadora. Mas apenas maus leitores e maus alunxs o interpretam desta forma. “Além do bem e do mal” significa além do Ministério Público, além de fazer julgamentos, além de matar, etc. Além do Bem e do Mal se abre diante dos nossos olhos como uma visão do pano de fundo que é a afirmação individual, juntamente com a compreensão de todos aqueles que são o contrário de nós mesmos, que são diferentes.
Por isso eu não me refiro à tentativa desajeitada da democracia de regular as complexidades do caráter humano por meio da igualdade externa. A visão de “além do bem e do mal” aponta para a direita de si mesmo, à própria personalidade. Tais possibilidades não excluem a dor do caos da vida, mas excluem a justiça puritana que se insere no julgamento de todos os outros, exceto de si mesmo.
É auto-evidente que a profundidade radical – muitos são superficiais, você sabe – deve aplicar esta profundidade ao reconhecimento humano da relação de amor e sexo. Emoções de amor e sexo estão entre as mais íntimas, intensas e sensíveis, expressões do nosso ser. Elas são tão profundamente relacionadas às características físicas e psíquicas individuais como um carimbo em cada caso de amor como um caso independente, diferente de todos os outros casos de amor. Em outras palavras, cada amor é resultado das impressões e características que duas pessoas envolvidas dão a isso. Toda relação de amor deve, por sua própria natureza, permanecer como um caso absolutamente privado. Nem mesmo o Estado, a Igreja, a moralidade ou as pessoas devem mediar isso.
Infelizmente esse não é o caso. A mais íntima relação é submetida a proscrições, regulamentos e coerções; porém, esses fatores externos são absolutamente estranhos ao amor, e leva a eternas contradições e conflitos entre o amor e a lei.
O resultado disso é que nossa vida amorosa está imersa em corrupção e degradação. O “amor puro”, tão aclamado pelos poetas, é, no atual matrimônio, divórcio e disputas alienadas, um espécime raro. Com dinheiro, status social, e posição como critérios para o amor, a prostituição é quase inevitável, ainda que seja coberta pelo manto da legitimidade e da moralidade.
O mais permanente demônio da nossa mutilada vida amorosa é o ciúme, frequentemente descrito como “mostro de olhos verdes”, que mente, engana, trai e mata. O senso comum é de que o ciúme é inato e, portanto, nunca poderá ser erradicado do coração humano. Essa ideia é uma desculpa conveniente para aqueles que não têm capacidade ou vontade para mergulhar dentro das causas e efeitos.
A angústia sobre um amor perdido, sobre o fio quebrado da continuidade do amor é, de fato, inerente ao nosso ser. O sofrimento emocional tem inspirado muitas letras sublimes, com olhares muito profundos e exaltação poética de Byron, Shelley, Heine e outros. Mas será que é possível comparar esta tristeza com o que comumente acontece no ciúme? Eles são tão diferentes como a sabedoria e a estupidez. Como o refinamento e a rudeza. Dignidade e coerção brutal. O ciúme é o oposto da compreensão, da simpatia, e dos sentimentos generosos. O ciúme nunca adicionou algo ao caráter, nunca fez o indivíduo grande e bom. O que ele realmente faz é torná-lo cego com fúria, mesquinho com suspeita, e duro de inveja.
Ciúme, as contorções que vemos nas tragédias e comédias matrimoniais, são invariáveis por um lado, intolerantemente acusadoras, convencidas da sua própria justiça e da maldade, crueldade e culpa da sua vítima. O ciúme nem mesmo tenta compreender. Seu único desejo é punir, e punir tão severamente quanto possível. Essa noção é incorporada ao código de honra, como representada em um duelo ou em uma lei não escrita. Um código que vai considerar que a sedução de uma mulher deve ser punida com a morte dx sedutor(a). Mesmo onde a sedução não tomou lugar, onde ambos voluntariamente cederam ao desejo mais íntimo, a honra só é restaurada quando o sangue é derramado, seja do homem ou da mulher.
O Ciúme é obcecado pelo sentimento de possessão e vingança. Isto está de acordo com todas as outras leis de punição nos estatutos que ainda aderem à barbárie noção de que uma ofensa, muitas vezes meramente resulta de injustiças sociais, e devem ser adequadamente punidas ou vingadas.
Um argumento muito forte contra o ciúme pode ser encontrado nos dados de historiadores como Morgan, Reclus e outros, como sobre as relações sexuais dos povos primitivos. Qualquer um que esteja familiarizado com suas obras sabe que a monogamia é uma forma de sexo que surgiu muito mais tarde, como resultado da domesticação e da propriedade das mulheres, e que criou o monopólio do sexo e o inevitável sentimento de ciúme.
No passado, quando homens e mulheres se misturaram livremente sem a interferência da lei e da moralidade, não poderia existir ciúme, porque este repousa sobre a suposição de que certo homem tem o monopólio exclusivo sobre o sexo de determinada mulher e vice-versa. No momento em que ninguém visa transgredir este preceito sagrado, o ciúme está em pé de guerra. Sob tais circunstâncias, é ridículo dizer que o ciúme é perfeitamente natural. Fatidicamente, se trata de um resultado artificial de uma causa artificial, nada mais.
Infelizmente não são apenas os casamentos conservadores que são afetados pelo ciúme com a noção de monopólio sexual; as chamadas uniões livres também são vítimas dele. O argumento provavelmente levantado é que isto é mais uma prova de que o ciúme é um traço inato. Mas é preciso ter em mente que o monopólio sexual tem sido transmitido de geração em geração como um direito sagrado e como a base da pureza da família e do lar. E assim como a Igreja e o Estado aceitam o monopólio sexual como a única segurança para o vinculo matrimonial, eles tem justificado o ciúmes como uma arma legítima de defesa para a proteção do direito de propriedade.
Agora, se é verdade que um grande número de pessoas superou a legalidade do monopólio do sexo, elxs não superaram as suas tradições e hábitos. Por isso, elxs se tornaram tão cegxs pelo “monstro de olhos verdes” quanto seus/suas vizinhxs conservadorxs no momento os seus bens estão em jogo.
Um homem ou uma mulher livre e grande o suficiente para não interferir ou inquietar-se sobre as outras atrações da pessoa amada são com certeza desprezadxs por seus/suas amigxs conservadores, e ridicularizadxs por seus/suas amigxs radicais. Elx também será acusadx de ser umx degeneradx ou umx covarde; e frequentemente alguns motivos materiais mesquinhos serão imputados a elx. De qualquer forma, esses homens e mulheres serão alvo de fofocas ou piadas grosseiras ou imundas por nenhuma outra razão além do fato delxs admitirem ao marido, esposa ou amantes o direito de seus próprios corpos e sua expressão emocional, sem fazer cenas de ciúmes ou ameaças selvagens para matar x intrusx.
Há outros fatores no ciúme: o conceito do macho e da inveja do feminino. O macho em matéria sexual é um impostor, um fanfarrão, que sempre se orgulha de suas façanhas e do sucesso com as mulheres. Ele insiste em desempenhar o papel de um conquistador, já que ele foi informado de que as mulheres querem ser conquistados, e que elas gostam de ser seduzidas. Sentindo-se o único galo do curral, ou o touro que deve confrontar com seus chifres a fim de ganhar a vaca, ele se sente mortalmente ferido na sua vaidade e arrogância no momento em que umx rival entra em cena – a cena, mesmo entre os chamados homens refinados, continua a ser o amor sexual da mulher, que deve pertencer a apenas um mestre.
Em outras palavras, o monopólio do sexo em perigo, juntamente com a vaidade do homem ultrajado, em 99 em cada cem casos são os antecedentes do ciúme.
No caso de uma mulher, o medo econômico por si mesma e pelas crianças e sua inveja mesquinha de todas as outras mulheres que ganham graça aos olhos do seu defensor, invariavelmente, criam ciúme. Em justiça, foi dito para as mulheres durante os séculos passados, que a atração física era seu único estoque na negociação, portanto, ela deve se tornar necessariamente invejosa do charme e do valor de outras mulheres como uma ameaça ao seu poder sobre sua propriedade preciosa.
O aspecto grotesco de toda a questão é que os homens e as mulheres geralmente criam uma inveja violenta daquelxs que realmente não se importam muito sobre isso. Portanto, não é o seu amor ultrajado, mas a sua vaidade e inveja indignada que clamam contra esse “terrível erro”. É provável que a mulher nunca amou o homem de quem ela agora suspeita e espiona. Provavelmente ela nunca fez um esforço para manter o seu amor. Mas no momento em que umx concorrente chega, ela começa a valorizar sua propriedade sexual para defendê-la de forma que nenhum meio é muito desprezível ou cruel.
Obviamente, então, o ciúme não é o resultado do amor. Na verdade, se fosse possível investigar mais casos de ciúmes, provavelmente descobririam que quanto mais violento e desprezível é o seu ciúme, menos as pessoas estão imbuídas de um grande amor. Duas pessoas vinculadas por harmonia interior e unidade não têm medo de prejudicar a sua confiança mútua e segurança, se um ou outro tem atrações externas, nem iram terminar seu relacionamento em inimizade vil, como é muitas vezes o caso de muitas pessoas. Muitos delxs não são capazes, nem deve de se esperar, de incluir a escolha da pessoa amada na intimidade de suas vidas, mas isso não xs dá qualquer direito de negar a necessidade da atração.
Assim como eu discutirei variedade e monogamia duas semanas a partir de hoje a noite, não me deterei nisso, nem aqui, exceto para dizer que olhar as pessoas que podem amar mais de uma pessoa de forma tão perversa ou anormal é ser muito ignorante mesmo. Eu já discuti uma série de causas para o ciúme, a qual devo acrescentar a instituição do casamento que o Estado e a Igreja proclamam como “o vínculo até a morte”. Isso é aceito como o ético modo correto de vida e a ação correta.
Com amor, em todas a sua variabilidade e mutabilidade, acorrentadxs e apertadxs, é uma pequena maravilha se o ciúme surge fora dele. Que outra coisa senão mesquinhez, avareza, suspeita e rancor pode surgir quando um homem e uma mulher são oficialmente mantidxs juntxs com a fórmula “a partir de agora vocês são um em corpo e espírito.” Basta manter qualquer casal amarrado de tal maneira, dependentes umx dxs outrxs para cada pensamento e sentimento, sem um interesse ou desejo externo, e se perguntar se tal relação não deve tornar-se odiosa e insuportável com o tempo.
De uma forma ou outra os grilhões são quebrados, e como as circunstâncias que permitem fazê-lo são geralmente baixas e degradantes, não é de surpreender que eles coloquem em jogo os mais deteriorados e malvados traços e motivos humanos.
Em outras palavras, a interferência legal, religiosa e moral são os pais do nosso atual amor e vida sexual não naturais, e fora disso o ciúme cresceu. Esse é o chicote que açoita e tortura os pobres mortais por causa de sua estupidez, ignorância e preconceito.
Mas ninguém precisa tentar justificar-se em terra por ser uma vítima destas condições. É bem verdade que todos nós inteligentes estamos sob os fardos dos arranjos sociais injustos, sob coerção e cegueira moral. Mas não somos indivíduos conscientes, cujo objetivo é trazer a verdade e a justiça aos assuntos humanos? A teoria de que o homem é um produto de condições levou apenas à indiferença e a um fraco consenso sobre essas condições. Ainda que todos saibam que a adaptação a um modo de vida não saudável e injusto só fortalece a ambos, enquanto o homem, o chamado “coroa de toda a criação”, equipado com uma capacidade de pensar e ver e acima de tudo para empregar os seus poderes de iniciativa, cresce cada vez mais fraco, mais passivo, mais fatalista.
Não há nada mais terrível e fatal do que escavar dentro das vísceras de um de seus entes queridos e de si mesmo. Isso só pode ajudar a rasgar os fiapos de afeto que ainda são inerentes à relação e, finalmente, trazer-nos até a última trincheira, que tenta combater o ciúme, ou seja, a aniquilação do amor, amizade e respeito.
O ciúme é realmente um meio pobre para proteger o amor, mas é um meio seguro para destruir o auto-respeito. Para pessoas ciumentas, como “drogas-demônios”, rebaixa ao nível mais baixo e, no final, inspira apenas desgosto e repugnância.
A angústia pela perda de um amor ou por um amor não correspondido entre as pessoas que são capazes de pensamentos elevados e finos jamais fará uma pessoa se tornar rude. Aquelxs que são sensíveis e finxs apenas devem perguntar-se se podem tolerar qualquer tipo de relação obrigatória, e um enfático “não” seria a resposta. Mas a maioria das pessoas continua a viver próximas uma das outras, apesar de terem a muito tempo deixado de viverem umas com as outras – uma vida fértil o suficiente para a operação do ciúme, cujos métodos percorrem todo o caminho desde abrir a correspondência privada até o assassinato. Comparado com tais horrores, adultério aberto parece um ato de coragem e libertação.
Um escudo forte contra a vulgaridade do ciúme é que o homem e a mulher não são um só em corpo e espírito. Eles são dois seres humanos, com temperamentos diferentes, sentimentos e emoções. Cada um é um cosmos pequeno em si mesmo, absorto em seus próprios pensamentos e idéias. Isso é glorioso e poético se estes dois mundos se encontram em liberdade e igualdade. Mesmo que isso dure pouco tempo, já valerá à pena. Mas, no momento em que os dois mundos são forçados a ficar juntos, toda a beleza e o perfume cessam e nada mais que folhas mortas permanecem. Quem compreende esta obviedade irá considerar o ciúme como algo abaixo de si e não permitirá que isso seja pendurado como uma espada de Dâmocles sobre elx.
Todos os amantes fazem bem ao deixarem as portas do seu amor aberto. Quando o amor pode ir e vir sem medo de encontrar um cão de guarda, o ciúme raramente irá criar raízes porque ele vai aprender rapidamente que onde não há fechaduras e chaves, não há lugar para a suspeita e desconfiança, dois elementos sobre os quais o ciúme cresce e prospera.
Este artigo é uma cortesia dos documentos de Emma Goldman: Divisão de Arquivos e Manuscritos, The New York Public Library, Astor, Lenox e Fundações Tilden.
Traduzido de:
http://dwardmac.pitzer.edu/Anarchist_Archives/goldman/jealousy.html
Em que Acredito – Emma Goldman
Publicado; janeiro 3, 2012 Arquivado em: Emma Goldman | Tags: anarquismo Leave a comment »De: Nova Iorque, 19 de Julho, 1908
Em Que Acredito
“Em que acredito” tem sido muitas vezes alvo de escritores retaliadores. Tantas histórias horripilantes e incoerentes têm circulado sobre mim, que não é de se admirar que o ser-humano mediano tem palpitações no coração cada vez que se menciona o nome Emma Goldman. É uma pena que não vivemos mais nos tempos em que bruxas eram queimadas na fogueira ou torturadas para que o espírito do mal saia delas. Porque, na verdade, Emma Goldman é uma bruxa! Sério, ela não come criancinhas, mas faz muitas coisas piores. Ela fabrica bombas e joga em cabeças com coroas. B-r-r-r!
Tal é a impressão que o público tem de mim e das coisas que acredito. Isso se deve muito ao The World que dá aos seus leitores pelo menos uma oportunidade de aprenderem o que minhas opiniões realmente são.
O estudante de história do pensamento progressivo está bem ciente que todas as idéias nos seus primeiros estágios foram deturpadas, e que os adeptos dessas idéias tem sido caluniados e perseguidos. Não é preciso voltar dois mil anos ao tempo em que aqueles que acreditavam no evangelho de Jesus eram jogados na arena ou caçados em calabouços para perceber quão pouco grandes crenças ou honestos crentes são compreendidos. A história do progresso é escrita no sangue de homens e mulheres que ousaram expor uma causa impopular, como, por exemplo, o direito do homem negro sobre seu corpo, ou o direito da mulher sobre sua alma. Se, então, desde tempos imemoriáveis, o Novo tem encontrado com oposição e condenação, por que minhas opiniões deveriam estar isentas de uma coroa de espinhos?
“Em que acredito” é um processo mais do que uma finalidade. Finalidades são para deuses e governantes, não para o intelecto humano. Embora deva ser verdade que a formulação sobre liberdade de Herbert Spencer é o mais importante no assunto, como uma base política da sociedade, ainda assim a vida é algo mais do que formulas. Na batalha pela liberdade, como Ibsen pontuou muito bem, é a luta por, nem tanto a obtenção da, liberdade, que desenvolve tudo de mais forte, mais vigoroso e melhor no caráter humano.
Anarquismo não é somente um processo, no entanto, que marcha a “passos sombrios” , colorindo tudo de positivo e construtivo no desenvolvimento orgânico. É um protesto notável do tipo mais militante. É tão absolutamente firme, insistindo e permeando uma força para superar o mais teimoso ataque e para resistir à crítica daqueles que realmente constituem a última trompeta de uma era decadente.
Anarquistas não são de forma alguma espectadores passivos no teatro do desenvolvimento social; pelo contrário, eles tem algumas noções muito positivas no que diz respeito a objetivos e métodos.
Para que eu possa me fazer o mais clara possível sem utilizar muito espaço, permitam-me adotar o modelo de tratamento em tópicos do “Em que acredito”:
I. Quanto à propriedade
“Propriedade” significa domínio sobre as coisas e a negação a outros de usar essas coisas. A medida que a produção não foi igualitária para a demanda normal, a propriedade institucional deve ter tido algum raison d’être (razão de ser). Deve-se apenas consultar a economia, no entanto, para saber que a produtividade do trabalho nas últimas décadas cresceu tão tremendamente a ponto de exceder a demanda normal cem vezes, e para fazer da propriedade não somente um estorvo para o bem-estar humano, mas um obstáculo, uma barreira mortal, para todo o progresso. É o domínio sobre as coisas que condena milhões de pessoas a serem mera nulidade, cadáveres vivos sem originalidade ou poder de iniciativa, máquinas humanas de carne e osso, que acumulam montanhas de riquezas para os outros e pagam por isso com uma cinza, monótona e miserável existência para si mesmas. Eu acredito que não pode haver nenhuma verdadeira riqueza, riqueza social, enquanto isso repousar sobre a vida humana – jovens vidas, velhas vidas e vidas ainda por vir.
É admitido por todos os pensadores radicais que a causa fundamental desse terrível estado das coisas é (1) que os humanos deve vender seu trabalho; (2) que esta inclinação e julgamento estão subordinados à vontade de um mestre.
O anarquismo é a única filosofia que pode e irá acabar com essa humilhante e degradante situação. Se difere de todas as outras teorias na medida em que aponta que o desenvolvimento humano, seu bem-estar físico, suas qualidades latentes e disposição inata devem por si mesmas determinar o caráter e condições de seu trabalho. Similarmente as apreciações mentais e físicas da pessoa e os desejos de sua alma decidem o quanto ela deve consumir. Para tornar isso uma realidade, eu acredito, só será possível em uma sociedade baseada na cooperação voluntária de grupos produtivos, comunidades e sociedades livremente federadas, eventualmente tornando-se um comunismo livre, acionado por uma solidariedade de interesses. Não pode haver liberdade no sentido largo da palavra, nenhum desenvolvimento harmônico, enquanto considerações mercenárias e comerciais atuam um papel importante na determinação da conduta pessoal.
II. Quanto ao governo
Eu acredito que o governo, autoridade organizada, ou o Estado é necessário apenas para manter ou proteger a propriedade e o monopólio. Tem eficiência comprovada somente nessa função. Como uma promotora de liberdade individual, bem-estar humano e harmonia social, o que por si só constituem real ordem, o governo está condenado por todos os grandes homens do mundo. Por isso, penso, com meus companheiros anarquistas, que os regulamentos legais, decretos legislativos, as disposições constitucionais, são invasivos. Eles até hoje nunca induziram o homem a fazer nada ele podia e não iria fazer pela virtude de seu intelecto ou temperamento, nem preveniu nada que o homem estava impelido a fazer pelos ditames. A descrição pictórica de Millet de “O Homem com a Enxada”, as obras-primas de Meunier sobre os mineiros que auxiliaram a elevar o trabalho de sua posição degradante, as descrições de Gorki do submundo, as análises psicológicas de Ibsen da vida humana, nunca poderiam ter sido induzidas pelo governo tanto quanto o espírito que impele o homem a salvar uma criança se afogando ou uma mulher aleijada de um prédio em chamas nunca foi convocado a ser posto em operação pelo regulamento legal ou pela academia de polícia. Eu acredito – de fato, eu sei – que qualquer coisa que é boa ou bonita na humanidade exprime-se e se afirma por si só apesar do governo, e não por causa dele.
Os anarquistas são por isso justificados em assumir que o Anarquismo – a ausência de governo – vai garantir com amplo e bom escopo o desimpedimento do desenvolvimento humano, a pedra angular para o verdadeiro progresso e harmonia sociais.
Quanto ao argumento estereotipado de que o governo atua como um fiscal do crime e do vício, até os que fazem as leis não mais acreditam nisso. Esse país gasta milhões de dólares para manter seus “criminosos” atrás das grades, no entanto a criminalidade está crescendo. Certamente esse estado de coisas não é devido a uma insuficiência de leis! Noventa por cento dos crimes são crimes contra a propriedade, que têm suas raízes em nossas iniqüidades econômicas. Enquanto estas últimas continuem a existir nós devemos converter cada poste em uma forca sem ter o menor efeito sobre o crime em nosso meio. Crimes que resultam de uma herança certamente nunca poderão ser curados pela lei. Com certeza nós estamos aprendendo que tais crimes podem ser efetivamente tratados somente pelos melhores modernos métodos medicinais ao nosso alcance, e, sobretudo, pelo espírito de um profundo senso de companheirismo, bondade e compreensão.
III. Quanto ao militarismo
Eu não devia tratar desse assunto separadamente uma vez que pertence à parafernália do governo, se não fosse pelo fato de que aqueles que são mais vigorosamente opositores às minhas opiniões, sobre o fundamento de que este último apóia a força, são os defensores do militarismo.
O fato é que os anarquistas são os únicos verdadeiros defensores da paz, as únicas pessoas que pedem por uma barragem do crescimento para a tendência crescente do militarismo, que está fazendo rapidamente desse país outrora livre um poder imperialista e despótico.
O espírito militar é o mais sem misericórdia, sem coração e brutal que existe. Promove uma instituição para a qual não existe nem uma pretensa justificação. O soldado, para citar Tolstoi, é um matador profissional de homens. Ele não mata por amor, como um selvagem, ou por paixão, como um homicida. Ele é uma fria, mecânica e obedediente ferramenta dos seus superiores militares. Ele está preparado para cortar gargantas ou afundar um navio ao comando do seu superior, sem saber ou, talvez, se importar, como, por quê ou por qual motivo. Estou apoiada nessa controvérsia por ninguém menos que General Funston. Cito deste, o comunicado para o New York Evening Post de 30 de Junho, lidando com o caso do Cabo William Buwalda, o que causou grande comoção por todo Nordeste. “O primeiro dever de um oficial ou de um alistado,” diz nosso nobre guerreiro, “ é a obediência sem questionamentos e lealdade ao governo ao qual fez juramento; não faz diferença se ele aprova este governo ou não”.
Como podemos harmonizar o princípio de “obediência insquestionável” com o princípio da “vida, liberdade e busca pela felicidade”? O poder mortífero do militarismo jamais foi tão efetivamente demonstrado nesse país quanto na recente condenação pela courte marcial de William Buwalda, de San Francisco, Company A, Engineers, a cinco anos na prisão militar. Aqui tínhamos um homem que teve um record de 15 anos de serviço contínuo: “Seu caráter e conduta eram incontestáveis”, nos dizia Gen. Funston, quem, em consideração a isso, reduziu a sentença de Buwalda para 3 anos. Ainda assim o homem é atirado de repente para fora do exército, desonrado, roubado de suas chances de ter uma pensão e mandado para a prisão. Qual foi seu crime? Só escutem, seus americanos livres (“ye free-born americans”)! William Buwalda foi a uma reunião pública, e depois da leitura apertou a mão do palestrante. Gen. Funston, em sua carta para o Post, a qual já me referi acima, afirma que a atitude de Buwalda foi “uma grande ofensa militar, infinitamente pior que a deserção”. Em outra declaração pública, que o General fez em Portland, Oregon, ele disse que “o crime de Buwalda foi sério, igual à traição”.
É bem verdade que a reunião foi organizada por anarquistas. Se tivessem sido os socialistas, nos informou Gen. Funston, não haveria objeção à presença de Buwalda. De fato, o General diz, “Eu mesmo não teria a menor hesitação de ir a uma reunião socialista”. Mas ir a uma reunião com Emma Goldman como palestrante – poderia haver qualquer coisa mais “traiçoeira”?
Por esse crime horrível um homem, um cidadão americano livre por nascença, que deu a este país os melhores 15 anos de sua vida, e cujos caráter e conduta nesse tempo foram “incontestáveis”, está agora apodrecendo em uma cadeia, desonrado, desgraçado e roubado de uma subsistência.
Pode haver algo mais destruidor do verdadeiro gênio da liberdade do que o espírito que tornou a sentença de Buwalda possível – o espírito da obediência inquestionável? É para isso que o povo americano tem sacrificado nos últimos anos quatrocentos milhões de dólares e seus corações e sangue?
Eu acredito que o militarismo – um exército e marinha permanentes em um país – é indicador da decadência da liberdade e da destruição de tudo que há de bom e melhor em nossa nação. O constantemente crescente clamor por mais navios de guerra e pelo aumento do exército com o fundamento de que isso nos garante a paz é tão absurdo quanto o argumento de que um homem pacífico é aquele que anda bem armado.
A mesma falta de consistência é desempenhada pelos que pretendem a paz que se opõem ao anarquismo porque ele supostamente ensina a violência, e por aqueles que ainda se sentiriam encantados com a possibilidade da nação americana ser logo capaz de arremessar bombas de dinamite sobre inimigo indefesos de máquinas voadoras.
Eu acredito que o militarismo vai acabar quando os espíritos amantes da liberdade do mundo disserem aos seus mestres: “Vá e faça sua própria matança. Nós nos sacrificamos e a aqueles que amamos tempo o bastante lutando suas batalhas. Em troca vocês nos tornaram parasitas e criminosos em tempos de paz e nos brutalizaram em tempos de guerra. Vocês nos separaram de nossos irmãos e fizeram do mundo um abatedouro humano. Não, nós não vamos fazer sua matança ou lutar pelo país que vocês nos roubaram”.
Oh, eu acredito com todo o meu coração que a irmandade e a solidariedade humanas vão limpar o horizonte desse terrível rastro vermelho de guerra e destruição.
IV. Quanto à liberdade de expressão e imprensa
O caso de Buwalda é só um pedaço da questão maior do livre discurso, da livre imprensa e do direito de livre associação.
Muitas pessoas de bem imaginam que os princípios da liberdade de expressão ou de imprensa podem ser exercidos de forma adequada e com segurança dentro dos limites das garantias constitucionais. Essa é a única justificativa, a mim me parece, para a terrível apatia e indiferença para com a investida contra a liberdade de expressão e imprensa que temos testemunhado nesse país nos últimos meses.
Eu acredito que liberdade de expressão e imprensa significa que eu posso dizer e escrever o que quiser. Esse direito, quando regulado pelas prescrições constitucionais, decretos legislativos, ao bel-prazer das decisões do chefe dos correios ou da academia de polícia, se torna uma farsa. Estou bem ciente de que vou ser avisada das conseqüências se nós removermos as correntes do discurso e da imprensa. Acredito, no entanto, que a cura para conseqüências resultantes do exercício ilimitado da expressão é permitir mais expressão.
Algemas mentais até hoje nunca ocasionaram maré de progresso, ao passo que as explosões sociais prematuras com muita freqüência foram provocadas através de uma onda de repressão.
Nossos governantes nunca vão aprender que países como Inglaterra, Holanda, Noruega, Suécia e Dinamarca, com a maior liberdade de expressão, tem sido mais livres de “conseqüências”? Ao passo que Rússia, Espanha, Itália, França e, ai de mim!, até América, cultivou essas “conseqüências” para o fator político mais urgente. Nosso país deveria ser mandado pela maioria, no entanto todo dia um policial que não é investido de poder pela maioria pode acabar com uma reunião, arrastar o orador para fora da plataforma ou dispersar a audiência para fora do salão à verdadeira moda russa. O chefe geral dos correios, que não é um funcionário elegível, tem o poder de suprimir publicações e confiscar cartas. De sua decisão não há mais nenhum apelo do que o do Czar da Rússia. Na verdade, eu acredito que nós precisamos de uma nova Declaração de Independência. Não existe nenhum Jefferson ou Adam modernos?
V. Quanto à Igreja
Na recente convenção dos remanescentes políticos de uma idéia uma vez revolucionária, foi votado que religião e obtenção de votos não tem nada a ver um com o outro. Por que deveriam? “A partir do momento que um homem pretende entregar ao demônio o cuidado de sua alma, ele pode, com a mesma coerência, delegar ao político o cuidado de seus direitos”. Que a religião é um assunto privado, a muito foi estabelecido pelos bis-marxistas (bismarck+ marx) socialistas da Alemanha. Nossos marxistas americanos, pobres de sangue e originalidade, vão a Alemanha por sua sabedoria. Essa sabedoria serviu como um chicote capital para açoitar várias milhões de pessoas para dentro do bem-disciplinado exército do Socialismo. Ela pode fazer o mesmo aqui. Pelo amor de deus, não vamos ofender a respeitabilidade, não vamos machucar os sentimentos religiosos das pessoas.
Religião é uma superstição origina na incapacidade mental do homem de resolver fenômenos naturais. A Igreja é uma instituição organizada que sempre foi uma pedra no caminho do progresso.
A organização de igrejas arrancou a religião de sua ingenuidade e primitivismo. Tornou a religião um pesadelo que oprime a alma humana e mantém a mente em cativeiro. “O domínio da escuridão”, como o último verdadeiro cristão, Leo Tolstoi, chama a Igreja, tem sido um inimigo do desenvolvimento humano e do livre pensamento, e assim não tem lugar na vida de pessoas verdadeiramente livres.
VI. Quanto ao casamento e ao amor
Acredito que estes sejam os assuntos que mais tabu nesse país. É quase impossível falar deles sem escandalizar a amada propriedade de muita boa gente. Não é de se espantar que tanta ignorância prevaleça relativa a essas questões. Nada menos que uma discussão aberta, franca e inteligente vai purificar o ar da histeria, baboseira sentimental que está encobrindo esses assuntos vitais, vital para o indivíduo como para o bem-estar social.
Casamento e amor não são sinônimos; pelo contrário, são com freqüência antagônicos um ao outro. Estou ciente do fato de que alguns casamentos são desempenhados pelo amor, mas os estreitos, limites materiais do casamento, como é, rapidamente esmaga a delicada flor da afeição.
O casamento é uma instituição que fornece ao Estado e a Igreja uma tremenda renda e os meios de se meter na fase da vida que pessoas finas a muito consideram como propriamente sua, sua coisa mais sagrada. O amor é o fator mais poderoso no relacionamento humano que desde tempos imemoriáveis tem desafiado todas as leis feitas pelo homem e rompido com as grades de ferro das convenções na Igreja e da moralidade. O casamento é normalmente um puro arranjo econômico, provendo à mulher uma apólice de seguro de longa vida e ao homem um perpetuador de sua espécie e um bonito brinquedo. Ou seja, o casamento, ou o treinamento para isso, prepara a mulher para uma vida de parasita, uma dependente, desamparada servente, enquanto concede ao homem o direito sobre a hipoteca de um bem imóvel de uma vida humana.
Como pode tal condição das coisas ter qualquer coisa a ver com amor? – com o elemento que iria abrir mão de toda a riqueza do dinheiro e do poder para viver em seu próprio mundo de livre expressão humana? Mas não é tempo de romantismo, de Romeu e Julieta, de Faust e Marguerite, e êxtases à luz da lua, de flores e canções. Nossa era é da praticidade. Nossa primeira consideração é o rendimento. Pior para nós que alcançamos a era em que os vôos mais altos da alma devem ser examinados. Nenhuma raça pode se desenvolver sem o elemento do amor.
Mas se duas pessoas estão adorando o santuário do amor, o que se faz do bezerro de ouro, casamento? “É a única segurança para a mulher, para as crianças, para a família, para o Estado”. Mas não é segurança para o amor; e sem o amor não pode existir um lar de verdade. Sem amor nenhuma criança deveria ser tida; sem amor nenhuma mulher de verdade pode estar relacionada a um homem. O medo de que o amor não seja uma segurança material suficiente para as crianças está desatualizado. Eu acredito que quando a mulher assinar sua própria emancipação, sua primeira declaração de independência vai consistir em admirar e amar um homem pelas qualidades de seu coração e mente e não pelas quantidades em seu bolso. A segunda declaração vai ser que ela tem o direito de seguir esse amor sem abandonar o mundo exterior ou se impedida por ele. A terceira e mais importante declaração será o direito absoluto à livre maternidade.
Assim uma mãe e um igualmente livre pai garantem a segurança da criança. Eles tem a força, a firmeza, a harmonia para criar uma atmosfera dentro da qual a planta humana pode crescer e se tornar uma primorosa flor.
VII. Quanto a atos de violência
E agora cheguei ao ponto de minhas opiniões sobre o qual prevalece o maior desentendido na mente do público americano. “Bom, vamos, agora, você não propaga a violência, a morte das cabeças coroadas e presidentes”? Quem disse que eu propago? Vocês me ouviram, qualquer um me ouviu? Alguém viu isso impresso em nossa literatura? Não, mas o jornal diz que sim, todo mundo diz que sim; conseqüentemente deve ser assim. Oh, pela precisão e lógica do querido público!
Acredito que o anarquismo é a única filosofia da paz, a única teoria do relacionamento social que valoriza a vida humana acima de qualquer outra coisa. Sei que alguns anarquistas cometeram atos de violência, mas é a terrível desigualdade econômica e a grande injustiça política que ocasionam esse atos, não o anarquismo. Todas as instituições hoje em dia se baseiam na violência; nossa atmosfera está saturada dela. Enquanto tal estado exista devemos lutar para parar a fúria do Niagara tanto quanto esperamos nos livrar da violência. Já expus que países que tem liberdade de expressão em alguma medida, tiveram poucos ou nenhum atos de violência. Qual é a moral? Simplesmente isso: nenhum ato cometido por anarquistas foi por benefício pessoal, engrandecimento do lucro, mas sim um protesto consciente contra algumas medidas repressivas, autoritárias e tirânicas que vem de cima.
O presidente Carnot, da França, foi morto por Caserio em resposta a recusa de Carnot de comutar a pena de morte de Vaillant, por cuja vida todo o mundo literário, científico e humanitário da França suplicou.
Bresci foi à Itália com seu próprio dinheiro, ganhado nos moinhos de tecelagem de seda de Paterson, para chamar o Rei Humberto para o lado da justiça em sua ordem de atirar em mulheres e crianças indefesas durante uma rebelião pelo pão. Angelino executou o Primeiro-Ministro Canovas por sua ressurreição da inquisição espanhola na prisão de Montjuich. Alexander Berkman tentou contra a vida de Henry C. Frick durante a greve de Homestead somente pela sua intensa compaixão pelos onze grevistas mortos por Pinkertons e pelas viúvas e orfãos despejados por Frick de suas miseráveis casinhas que pertenciam ao Sr. Carnegie.
Cada um desses homens não só fizeram suas razões conhecidas ao mundo em declarações orais ou escritas, mostrando a causa que os levaram a esses atos, provando que a insuportável pressão econômica e política, o sofrimento e desespero de seus companheiros, mulheres e crianças levaram aos atos, e não a filosofia do anarquismo. Eles vieram aberta e francamente preparados para agüentar as conseqüências, preparados para darem suas vidas.
Diagnosticando a verdadeira natureza de nossa doença social eu não posso condenar aqueles que, não por culpa própria, sofrem de um mal generalizado.
Eu não acredito que esses atos podem, ou até tiveram a intenção de, trazer a reconstrução social. Isso somente pode ser feito, primeiro, por uma educação larga e ampla sobre o lugar do homem na sociedade e sua relação adequada com os companheiros; e, segundo, pelo exemplo. Por exemplo quero dizer a real vivência de uma verdade uma vez reconhecida, não a mera teorização desse elemento da vida. Por último, e a arma mais poderosa, é o consciente, inteligente, organizado, protesto econômico das massas através da ação direta e greve geral.
A controvérsia geral de que o anarquismo é oposto à organização, e por isso apóia o caos, é completamente sem fundamento. Verdade, nós não acreditamos no compulsório, arbitrário lado da organização que compeliria as pessoas de gostos e interesses antagônicos em um corpo e manteria elas lá por coerção. Organização como o resultado natural da mistura de interesses comuns, trazidos pela adesão voluntária, os anarquistas não só não se opõem, mas acreditam nisso como a única base possível para a vida social.
É a harmonia do crescimento orgânico que produz a variedade de cores e formas – o todo completo que admiramos na flor. Analogicamente a atividade organizada de seres humanos livres dotados do espírito da solidariedade vai resultar na perfeição da harmonia social – que é o anarquismo. De fato, somente o anarquismo faz de organizações não-autoritárias uma realidade, uma vez que abole o antagonismo existente entre indivíduos e classes.
Eros e Anarquia – Prólogo
Publicado; novembro 4, 2011 Arquivado em: Uncategorized | Tags: amor livre Leave a comment »Por Osvaldo Baigorria
Buenos Aires, Abril de 2006.
Para defender o princípio de amor livre se necessitam doses iguais de inocência e experiência. Uma vez dessacralizados o casamento, a família e o casal homem-mulher unidos “para sempre”, o que senão a inocência pode vincular liberdade ao amor, especialmente se este é entendido como paixão ou atração entre seres de carne e osso? A experiência sussurra ao ouvido que a fidelidade é impossível, que a monogamia é uma ilusão e que as leis do desejo triunfam sempre sobre as leis do costume. A inocência grita que o amor só pode ser livre, que a pluralidade de afetos é um fato e que o desejo obedece a uma ordem natural, anterior e superior a todo mandato social estabelecido.
Poderia se supor que a inocência equivale à ingenuidade assim como a experiência ao cinismo. No entanto, muitos dos autores reunidos nessa antologia intuíram que a emulsão resultante da fórmula “amor-liberdade” é muito mais complexa. Nunca houve nada mais difícil do que ser libertário nas questões amorosas. Se pode sê-lo frente à autoridade, ao trabalho ou à propriedade, mas ante aos vai-e-vens do coração não há princípio, regra ou idéia que se mantenha firme em seu terreno. Existe alguém mais parecido com um escravo do que uma apaixonado?
Em tempos de relativa paz (ou seja, sem guerras nacionais, civis ou religiosas declaradas), os ciúmes são a principal causa de homicídios. Em nome do amor o ser-humano mata, possui e submete aos seus semelhantes, ao mesmo tempo que é possuído por uma força ou potência que irrompe não se sabe bem da onde e o arrasta a um destino impossível de prever. A possessão é a antítese da liberdade. Como alguém pode ser verdadeiramente livre quando ama? Só através de uma reinvenção da palavra amor.
Eros é o antigo nome dessa potência. Antes que adquirisse esse caráter sentimental personificado em um jovem charmoso, filho de Afrodite e de um pai incerto (Hermes, Ares ou o próprio Zeus), que voava com assas douradas e disparava flechas nos corações, era uma fastidiosa força aérea da natureza que, como a velhice ou as pragas, deveria ser controlada para que não perturbasse o funcionamento social. Supõem-se que foi o primeiro dos deuses já que, sem ele, nenhum outro teria nascido. De todas as maneiras, sempre foi muito irresponsável para fazer parte da hegemônica família dos Doze do olimpo.
Podemos imaginar distintos acordos e conflitos numa união hipotética entre Eros e Anarquia, sobretudo se não entendemos essa última só como uma ordem social caracterizada pela ausência de Estado. Se argumentou que an-arché é a rejeição de todo princípio inicial ou causa primeira, de toda origem única e absoluta: “A causa primeira nunca existiu, nunca pode existir… A causa primeira é uma causa que em si mesma não tem causa ou que é causa de si mesma” (Bakunin). A energia anárquica tem sido descrita como um caos cego de impulsos autônomos, assim como uma construção voluntária de formas associativas entre forças que lutam por se afirmarem e se reconhecerem sem dissolver as diferenças que as opõem (Proudhon). Em vez de um modelo político utópico situado ao final dos tempos, se trataria de uma potência aberta à criação constante de individualidades (Simondon), ocasionalmente relacionada com a ancestral ideia grega de apeiron utilizada por Anaximandro para descrever esse fundo indefinido e indeterminado a partir do qual surgem sem cessar os seres individuais. Que este principio sem principio possa se unir felizmente e sem brigas conjugais com aquele deus alado é algo que ainda está para ser visto.
Certamente os autores aqui apresentados não tem uma opinião única e homogênea sobre a dupla Eros e Anarquia nem sobre seu filho legítimo: o amor livre. Por exemplo: enquanto que para Cardias -iniciador do experimento conhecido como Colônia Cecília no Brasil do século XIX- o adultério é a forma mais indigna desse amor, para Roberto de las Carreras a figura do Amante é bandeira de luta contra o casamento burguês, segundo o panfleto publicado em Montevidéu em 1902, no qual o autor relata como descobre sua própria mulher nos braços de outro homem e, em vez de se sentir traído, exalta a adúltera como a melhor aluna de seu ensinamento erótico-libertário.
Intitulamos O Amor Livre a esta heterogênea -e majoritariamente heterossexual- seleção de textos como homenagem a um título já clássico de livros e artigos anarquistas e a um ideal que também pertence a tradição romântica e modernista. Tenta-se mostrar assim a diversidade de olhares históricos sobre a questão, reunindo fragmentos escritos por militantes sociais em publicações do fim do século XIX e princípios do XX, junto a outros de origem contracultural que, sem ser estritamente anarquistas, apresentam uma sensibilidade libertária no tratamento do tema.
Claro que se encontrarão consensos de fundo. O amor que aqui se chama livre é aquele que questiona toda moral dúbia, hipocrisia ou cinismo. Como disse René Chaughi em “O matrimônio é imoral”: se duas pessoas desejam unir-se ante um deus, nada há a criticar. Muito pelo contrário: o problema é o caráter hipócrita daqueles que aceitam submeter-se ao rito religioso sem haver pisado numa igreja desde a primeira comunhão. A mentira pertence, nesta concepção, ao campo do inimigo. O militante anarco-erótico seria, antes de tudo, um moralista.
Durante muito tempo, amor livre foi sinônimo de união livre: uma relação não sujeita à leis civis nem religiosas. Em épocas em que o casamento era indissolúvel e o divórcio um horizonte polêmico, a liberdade de duas pessoas de se unirem prescindindo da lei e de se separarem “quando o amor chegue ao seu fim” era motivo de escândalo mas não continha necessariamente a idéia posterior de libertação sexual. Ademais, era por definição geral a união entre um homem e uma mulher, não entre duas ou mais mulheres nem entre dois ou mais homens. Essa proposta pode ser vista hoje como uma demanda que questionava o casamento jurídico e a moral do século XIX mas que, de algum modo, acabaria obsoleta durante a segunda metade do século XX.
Não obstante, o amor plural, o companheirismo amoroso ou os “casamentos comunais” são relatos e práticas que os anarquistas que mais pensaram sobre o tema já manejavam faz quase 150 anos como formas de relação nas quais a expressão “amor livre” significa aquilo que literalmente hoje sugere aos nossos ouvidos. Os militantes que defenderam esses modelos tentaram resolver talvez a questão mais delicada que pode surgir entre duas pessoas que se amam: o que fazer quando aparece o desejo por outrxs.
Esse desejo se pode negar. Ou se pode reconhecer sua irrupção ainda que se utilizem instrumentos de contenção ou repressão. Se pode satisfazê-lo com encontros ocasionais proibidos mas tentando auto-controlar-se (“não vou me apaixonar”). Manter uma relação paralela clandestina (“é só sexo”); ou lançar-se a experimentar dentro do laboratório social modos diversos de intercâmbio de afetos e atrações. Como dito por Woody Allen, o coração é um órgão muito flexível.
Se observamos as distintas propostas de formas inovadoras de se relacionar, como as comunidades afetivas, o amor entre camaradas livres, o “abraço polimorfo” ou o “beijo amorfista”, notamos que o grau de ruptura e originalidade temática destes autores não se destaca unicamente sobre o contexto de sua época em que sua pluralidade de modelos foi implantada. De fato, eles parecem ganhar validade na medida que perdure a compulsão bi-pessoal de formar um casal e se casar.
Na verdade, seria difícil encontrar um período histórico capaz de absorver ou assimilar a radicalidade de algumas dessas soluções aos problemas da vida afetiva. Por exemplo, a revolução sexual da segunda metade do século XX não é facilmente homologável ao amor livre, uma noção mais velha e mais contundente. Embora a contracultura e o liberacionismo dos anos 1960-70 tivessem influências anárquicas, a idéia de uma sexualidade livre também se articulou com certos dispositivos de poder, incitou o sonho de múltiplos intercâmbios sexuais sem pagar por eles (livre no sentido de free: gratuito) ou bem legitimou a possibilidade de coisificar corpos dimensionados como objetos de desejo. Com a substituição de “amor” por “sexo” implicou algum grau de perda da inocência.
Na realidade, a noção de amor livre aponta mais alto: não a mera possibilidade de ter múltiplas relações sexuais, mas a de amar a várias pessoas ao mesmo tempo. Reintroduz a noção de companheirismo, de companheirismo afetivo. Afirma que se pode querer bem a (querer o bem de) dois ou mais seres simultaneamente. Insiste em que as pessoas sempre estão amando a várias outras ao mesmo tempo, embora com diferentes intensidades e propósitos. Aposta, portanto, numa nova educação sentimental.
Sendo assim, uma idéia tão bonita que se pode perdoar suas fragilidades. Estas são encontradas nas bases de sua própria construção. O amor livre também se assenta sobre um acordo, pacto ou modelo de conduta que tenta cavalgar sobre os deslocamentos inconstantes do desejo. E é difícil tomar as rédeas, manejar, calcular a natureza polifacetada do fluxo que leva a dois ou mais corpos a se unirem ou separarem com a mesma inesperada e incontrolada força passional.
Como advertiu Bataille, no campo de Eros sempre está em jogo a dissolução das formas constituídas. A fusão dos amantes, apesar de suas promessas de felicidade recíproca, introduz a pertubação e a desordem, elevando a atração a um ponto tal que inclusive a privação temporária da presença do outro pode chegar a ser sentida como uma ameaça de morte. Amar, em certo sentido, é viver no temor da perda dx amadx.
Isso é o que detecta Malatesta. Em contrapartida do amor livre como construção teórica superposta artificialmente para substituir a dupla monogâmica, o texto do militante trabalhador e agitador italiano introduz uma problematização mais profunda do vínculo entre amor e liberdade. Sem esperança alguma de que uma mudança radical dos costumes elimine as dores do amor, Malatesta lembra que este sentimento, para ser satisfeito, precisa de duas liberdades que concordem e que a reciprocidade é uma ilusão desde o momento em que se pode amar e não ser amado.
Alguém se junta a outra pessoa por certa promessa implícita de que ela vai satisfazer suas necessidades de companhia, diversão, contenção. A promessa coloca que essa satisfação será (deverá ser) correspondida. Assim, aderir a essas demandas converte uns e outros em propriedades e possessões. Existem proporções extremas e moderadas de apego, mas é verdadeiramente raro encontrar um amor entre seres humanos que não seja atravessado por essa obsessão.
Por sua parte, na Enciclopédia Anarquista de Sebastián Faure (Ver em anexo o Glossário não-monogâmico básico), Jean Marestan reflete sobre a tendência do amor se enobrecer com a inteligência e se transforme de paixão para sentimentos mais doces e duradouros: o companheirismo, a amizade, o carinho, a estima; ou seja, afetos mais suaves, leves, lentos ou moderados. Ali também se critica o desejo de possessão que não é considerado um mal em si mesmo a não ser quando toma as proporções extremas de apropriação e monopolização.
Então aqui o amor não é nada absoluto, nem uma essência universal inesgotável como seria um deus. Tão pouco a liberdade, um termo relativo o é: sempre aparece em relação a outra coisa. Se é livre de algo ou de alguém. Liberdade pode significar a ruptura de uma lei conjugal assim como se livrar do amor entendido como atração entre dois corpos. Nesse último caso, ser livre implicaria atravessar o campo do erotismo talvez para chegar ao que os cristãos chamaram de agapé e os budistas de karuna, mais um amor-compaixão que um amor-paixão, uma entrega não egoísta aos outros, um dom que se voltaria a todos os seres sem distinção. Um amor livre de atração, possessividade, apego, propriedade. É possível? Se alguém se livra de estar junto de uma só pessoa, poderá sentir esse amor capaz de se derramar sobre todos sem diferenciação? Não é provável que termine, mais cedo ou mais tarde, atendo-se a outro número limitado de objetos de desejo? São perguntas que precisam ser encaradas se queremos entender melhor os pontos de tensão e equilíbrio presentes no conflitivo casal de Eros e Anarquia.
Para não restar dúvida: nessas páginas se redefine o amor como um gesto que rompe as regras sociais e econômicas. Sua força destrutiva se dirige contra o cálculo, o interesse, a manipulação; quer dizer, contra do vil e do utilitário. Estes seriam os autênticos obstáculos para uma vontade de sentir que tende a escapar a toda regulamentação. Os anarquistas do século XIX propunham destruir a família justamente para que esse sentimento fosse mais sólido, durável, baseado numa convicção interior. Se tratava, em suma, de reconhecer honestamente as inconstâncias da vida. Essa aposta na verdade é o que torna o amor livre em um princípio essencialmente moral.
Só resta esperar que a força dos argumentos expostos nessa antologia ajude àqueles que suspeitam, seja por inocência ou experiência, que nenhuma força ideal – nem mesmo a noção de amor livre – poderá satisfazer as expectativas de felicidade duradoura (“por toda a vida”) de duas ou mais pessoas que se amam, assim como nenhuma convenção, rito ou regra aprovada diante testemunhas poderá sujeitar por completo o anárquico movimento dos corações.
As sete virtudes do amor livre – Thierry Lodé
Publicado; setembro 15, 2011 Arquivado em: Uncategorized | Tags: amor livre Leave a comment »As sete virtudes do amor livre – Thierry Lodé*
*Thierry Lodé é um biológo francês que estuda, dentre outros temas, ecologia evolutiva, biodiversidade sexual, etnologia, etc. “A única norma é a diversidade no comportamento sexual. “
Temos que falar de amor, dos triunfos do amor. O amor livre é uma demanda libertária que se opõe a casamentos arranjados ou ao corset (espartilho) estadista de um contrato que encerra a mulher como se fosse uma propriedade do homem. Sacudindo-se a tirania de um patriarcado estabelecido sobre o domínio da mulher, a questão do amor livre continua sendo o projeto da liberdade de amar. Porque o amor livre é antes de tudo uma crítica à exclusão.
Evidentemente, alguns podem acreditar que o amor livre está perfeitamente introduzido nos costumes de uma libertação sexual anunciada. Porque assim é com as idéias libertárias, sua força original se infiltra por aqui e ali pouco a pouco, muitas vezes sem ser premeditada. Do companheirismo amoroso e revolucionário elaborado por Émile Armand até a vida solitária dos solteiros, o caminho para a igualdade dos sexos não parece, contudo, tão fácil. Aqui reside o combate cotidiano às exclusões.
A primeira conquista do amor livre foi esclarecer a diferença entre reprodução e sexualidade. Porque explorando essa diferença se fabricou a desigualdade, uma desigualdade obscena que permitiu aprisionar as mulheres na estreita obrigação da reprodução. A sexualidade não se resume a reprodução e existem todos os comportamentos na natureza. Se a viviparidade humana tem suas obrigações, já não é possível usar essas imposições para estabelecer, com plenos direitos, a desigualdade. O desejo da criança não é negado pela sexualidade livre. E não é menos certo que se a reprodução supõem um compromisso amoroso, este pode estar fundamentado em um consentimento livre. Quando se constitui realmente como uma alienação do indivíduo, o contrato que consolida o matrimônio se pretende as vezes um meio de proteção do débil, pressupondo a incapacidade de responsabilização dos protagonistas. Ao negar a própria humanidade dos indivíduos, o contrato matrimonial se converte rapidamente numa legitimação de costumes, proibindo a homossexualidade e outras formas amorosas, colocando a exclusividade amorosa em benefício do controle de aumento da prole.
Biologicamente, o ser humano se coloca entre o bonobo e o gorila. Se do bonobo tem uma certa reivindicação por pluralidade de condutas, com o gorila o homem compartilha a exogamia das fêmeas. Nos gorilas, com efeito, as fêmeas são apartadas do grupo de pertencimento. O pachá (senhor) reina sozinho em um harém de fêmeas vindas de intercambios com outros grupos. Encontramos algo parecido com o conceito de comunidade de mulheres desenvolvido por Carpócrates e o comunismo primitivo dos agnósticos libertinos. Entre os humanos as mulheres saem dos grupos e (em muitos países) a troca do nome de solteira pelo de mulher casada estabelece essa ruptura. No entanto os humanos nem sempre exibem poligamia. Os múltiplos grupos humanos, desde os papúas até os índios, realizam minuciosamente uma estrutura comunitária. O casal exclusivamente monogâmico foi progressivamente construído ao longo da Idade Média e se impõe singularmente durante a transformação industrial do século XIX. Forma-se o casal, suja solidão molesta a sociedade. No entanto, ao se emancipar da obrigação de se reproduzir, a sexualidade leva os indivíduos a descobrirem melhor uns anos outros, a se sentirem e se compreenderem. Assim é como os bonobos utilizam a sexualidade para evitar que surjam conflitos.
O segundo êxito do amor livre foi ter removido a couraça protetora das fábulas religiosas. A rejeição da benção não só se opôs à ingerência religiosas nos assuntos pessoais, mas viu no juramento religioso a própria negação do amor. Ao romper com os aprisionamentos que as igrejas impõe, o amor recuperou algo de sua sinceridade.
As religiões monoteístas, ao imporem a exclusividade ao deus que veneram, reivindicam a exclusão. Seu deus não apenas ensangüentou uma parte do mundo, mas também apodreceu o matrimônio proibindo a contracepção e a liberdade. Foram necessárias as leis republicanas sobre divórcio para abrir uma brecha nesse eternidade. Ao emancipar-se de deus, o divórcio tem perturbado enormemente seus lacaios sectários. Introduziu a fratura fundamental que rompe com a extensão temporal do juramento. Ao introduzir a liberdade no seio dos relacionamentos humanos, o amor livre encontrou rapidamente sua ingerência atéia, estabelecendo um abismo definitivo no aparato cínico das cerimônias devotas.
O terceiro êxito do amor livre consiste nessa ausência de redução do outro. A criança já não é bastarda. Ao invés de perpetrar a conseqüência ilegítima de um concubinato, a criança é um filho do amor. É ainda pertinente para a comunidade familiar reconstruída e todos xs filhxs são reconhecidxs como iguais. O namorado não é corno, a pessoa não é infiel. O amor se fez plural e a família proprietária é sucedida por uma comunidade de indivíduos livres. Esta é a atitude que me leva a reconhecer no outro o indivíduo último que constrói o meu amor. Não sabe mais nessas categorias humilhantes e obscenas contidas na instituição da exclusão. Como rejeição a essas diminuições, o amor livre contem uma idéia verdadeiramente revolucionária ao privilegiar a autonomia individual.
A quarta vitória da exigência libertária pelo amor livre tem lugar a partir de 1968, com o desejo de autenticidade, a rejeição da exclusividade nas relações e uma vontade de transformação das culturas cotidianas. Essa reivindicação de autenticidade dos amores tem sido caricaturada como uma simples sucessão de relações múltiplas e superficiais. A sexualidade exclusiva (monogamia exclusiva, homossexualidade exclusiva, poligamia) não existe na natureza, a única norma é a diversidade no comportamento sexual. No entanto, a libertação das atividades sexuais pode esgotar-se em uma contradição, levando da autonomia aparente das pessoas à solidão desigual do isolamento no mundo mercantil. O amor livre não se reduz ao sexo liberado nem à promiscuidade luxuriosa. Pelo contrário, a experiência livre do outro supõem uma busca por autenticidade. Cada um e cada uma revelam uma pessoa única, um amor diferente que não pode reclamar esse capricho infantil da exclusividade. A liberdade que constitui nossa individualidade é antes uma demanda de confiança, de relações sem o cárcere da exclusão.
Porque o sentimento amoroso é uma construção paradoxal, na qual cada um tem sua experiência singular que, no entanto, é compartilhada por todos. Nos coloca como alguém únicx sobre a terra ao estar apaixonadxs por outra pessoa única, e no entanto todos temos essa experiência. Muitas vezes não existem outros motivos que os seus próprios. Como que em nome disso se estabelece a inacreditável perversidade de exclusão aos outros? O matrimônio institui essa regra dupla da exclusividade imposta e da suspeita inevitável porque considera o compromisso infinito. Os ciúmes, esse “prejuízo a propriedade”, como dizia Armand, envenenam a relação amorosa e ainda assim são valorizados na sociedade mercantil. Nessa prisão de costumes, ambas as partes se devem desconfiança. Nós, ao contrário, afirmamos que rejeitar a exclusividade amorosa é um fundamento necessário para o amor livre.
A quinta qualidade do amor livre consiste na transformação da economia doméstica que esta demanda libertária provocou. O casamento institui a dependência econômica e sexual das mulheres. A guerra dos sexos instaurou o casamento em uma sujeição feminina à diferentes tarefas não retribuídas. A família pressupõe a repartição desigual de tarefas, e a ausência de remuneração por atividades particulares. Dirigir a casa, rapidamente encarregado à mulher, consiste em uma parte da organização econômica curiosamente levada a cabo com uma servidão absoluta e sem pagamento. Ao sublinhar essa disparidade, a reivindicação por igualdade do amor livre pôs totalmente em desuso essa servidão doméstica e estabeleceu as bases de uma revolução da vida cotidiana. E “aqueles que preferem a revolução e a luta de classes sem se referirem explicitamente à vida cotidiana [...] têm um cadáver na boca”, como assegurava Vaneigem.
O sexto mérito do amor livre é reconhecer a força legítima do desejo. Classificados pelos devotos no campo das obsessões, o desejo e a fantasia são hipocritamente deslocados para o negativo do amor. Para o poder público, a sedução das mulheres se reduz a sua falsidade e o desejo dos homens se limita a concupiscência. Se instituiu inclusive o conceito policial de provocação passiva. Para os funcionários do Estado, o desejo é algo como a vergonha do amor. O fundamento biológico das atrações sedutoras é perfeitamente identificado e ao mesmo tempo desaconselhado pelo matrimônio. A atração amorosa é demasiado animal, “um encontro de salivas” dizia Cioran. O que permite a atração dos outros reside no extravagante.
Numerosos animais fazem gestos insólitos para seduzir a seu companheiro. A tendência ao exagero é um componente fundamental da biologia que permite explicar a exuberância dos traços sexuais entre os animais, como a cor nos pássaros, a cauda do pavão real ou as pinças do caranguejo do mar. A biologia evolutiva mostra que os traços artificialmente aumentados podem inclusive superar aos estímulos simples. O homem não é indiferente ao exagero dessas características, como muito bem sabem os publicitários, que “melhoram” os retratos femininos para aumentar as vendas de um produto. Se a maquiagem e o tratamento de imagens são as últimas mentiras do mundo mercantil, também é certo que nossa mente é cada vez mais natural. É provável que a atração nasça biologicamente desse estímulo supranormal, um estímulo excessivo que desencadeia uma atração mais intensa, com a ajuda de certos ferormônios. No curso da evolução biológica, os processos de seleção natural aumentaram a presença dessas características estranhas que estimulam o desejo sexual. O desejo nasce do sensorial e seu fundamento biológico. Inclusive as representações e desenhos femininos, inclusive as bonecas que as crianças usam, tudo que afeta a parte baixa do corpo constitui o problema, mesmo que se disfarce com o comprimento das pernas, os olhos grandes, a finura da aparência, exagerando todos os traços do desejo. Assim, a beleza física não seria mais que a impressão de um desejo formado pela composição de caracteres exagerados. Então é possível perguntar-se sobre os determinismos do desejo, a imagem pela qual ficamos apaixonados prisioneiros ao reconhecer o dinamismo vivaz que constitui o desejo, e a inércia de seus constituintes, que podem também nos enganar. O desejo é um componente fundamental que o amor livre reabilitou.
A sétima força do amor livre reside curiosamente no incerto. A única coisa que x apaixonadx conhece é seu próprio sentimento íntimo. Só existe uma certeza no amor, minha própria razão. A resposta do outro se estabelece no desconhecido. O desejo que funda o descobrimento do outro é tão confuso que o sentimento nunca desaparece totalmente. O amor se prescreve como uma força oculta. Mas a incerteza estabelece igualmente a verdade do amor, a tristeza de seu vigor. Porque o amor não está fundado em um direito. O mal-entendido não reside só no medo do engano, da dissimulação. X apaixonadx não tem mais direitos além do de amar. O drama quase esbarra na comédia. Então, as provas de amor seriam exigidas como fragmentos desses juramentos perdidos. Eu não tenho direito a nada do amor do outro, ainda que tenha o direito de amar. Aqui a humanidade se constrói sem obrigações nem restrições. Há na incerteza uma força viva que reconhece intuitivamente a liberdade do outro. É também um pequeno sofrimento, que mostra a esse indivíduo irredutível sua liberdade e sua humanidade.
Decididamente, o amor livre instaura uma reconciliação entre as liberdades e uma exigência de emancipação social. Está aqui todo o sentido crítico de Lucienne Gervais: “Se representa comumente ao amor zombando os velhos: pois bem, eu vejo o amor, livre até o fim, zombando das morais caducas, dos velhos usos e dos velhos costumes. Vejo o amor zombando do velho mundo”.
Referências:
ARMAND E. 1906 « Les « Colonies » communistes », L’Ere Nouvelle
CIORAN E. 1987 « Précis de décomposition ». Eds Gallimard
GERVAIS L. 1907 « L’amour libre », l’anarchie, n° 111
LODE T. 2006 « La guerre des sexes chez les animaux » Eds O Jacob
VANEIGEM R 1967 « Traité de savoir vivre à l’usage des jeunes générations » Eds Gallimard.
ZAÏKOVSKA S. 1913 « Le féminisme », La Vie anarchiste n°12, 1er mai 1913
Traduzido de: http://elanticristodistro.blogspot.com/2011/02/las-siete-virtudes-del-amor-libre-x.html
OBS: algumas alterações foram feitas em relação ao texto de origem para tornar o texto mais inclusivo.