As sete virtudes do amor livre – Thierry Lodé

As sete virtudes do amor livre – Thierry Lodé*

*Thierry Lodé é um biológo francês que estuda, dentre outros temas, ecologia evolutiva, biodiversidade sexual, etnologia, etc. “A única norma é a diversidade no comportamento sexual. “

Temos que falar de amor, dos triunfos do amor. O amor livre é uma demanda libertária que se opõe a casamentos arranjados ou ao corset (espartilho) estadista de um contrato que encerra a mulher como se fosse uma propriedade do homem. Sacudindo-se a tirania de um patriarcado estabelecido sobre o domínio da mulher, a questão do amor livre continua sendo o projeto da liberdade de amar. Porque o amor livre é antes de tudo uma crítica à exclusão.

Evidentemente, alguns podem acreditar que o amor livre está perfeitamente introduzido nos costumes de uma libertação sexual anunciada. Porque assim é com as idéias libertárias, sua força original se infiltra por aqui e ali pouco a pouco, muitas vezes sem ser premeditada. Do companheirismo amoroso e revolucionário elaborado por Émile Armand até a vida solitária dos solteiros, o caminho para a igualdade dos sexos não parece, contudo, tão fácil. Aqui reside o combate cotidiano às exclusões.

A primeira conquista do amor livre foi esclarecer a diferença entre reprodução e sexualidade. Porque explorando essa diferença se fabricou a desigualdade, uma desigualdade obscena que permitiu aprisionar as mulheres na estreita obrigação da reprodução. A sexualidade não se resume a reprodução e existem todos os comportamentos na natureza. Se a viviparidade humana tem suas obrigações, já não é possível usar essas imposições para estabelecer, com plenos direitos, a desigualdade. O desejo da criança não é negado pela sexualidade livre. E não é menos certo que se a reprodução supõem um compromisso amoroso, este pode estar fundamentado em um consentimento livre. Quando se constitui realmente como uma alienação do indivíduo, o contrato que consolida o matrimônio se pretende as vezes um meio de proteção do débil, pressupondo a incapacidade de responsabilização dos protagonistas. Ao negar a própria humanidade dos indivíduos, o contrato matrimonial se converte rapidamente numa legitimação de costumes, proibindo a homossexualidade e outras formas amorosas, colocando a exclusividade amorosa em benefício do controle de aumento da prole.

Biologicamente, o ser humano se coloca entre o bonobo e o gorila. Se do bonobo tem uma certa reivindicação por pluralidade de condutas, com o gorila o homem compartilha a exogamia das fêmeas. Nos gorilas, com efeito, as fêmeas são apartadas do grupo de pertencimento. O pachá (senhor) reina sozinho em um harém de fêmeas vindas de intercambios com outros grupos. Encontramos algo parecido com o conceito de comunidade de mulheres desenvolvido por Carpócrates e o comunismo primitivo dos agnósticos libertinos. Entre os humanos as mulheres saem dos grupos e (em muitos países) a troca do nome de solteira pelo de mulher casada estabelece essa ruptura. No entanto os humanos nem sempre exibem poligamia. Os múltiplos grupos humanos, desde os papúas até os índios, realizam minuciosamente uma estrutura comunitária. O casal exclusivamente monogâmico foi progressivamente construído ao longo da Idade Média e se impõe singularmente durante a transformação industrial do século XIX. Forma-se o casal, suja solidão molesta a sociedade. No entanto, ao se emancipar da obrigação de se reproduzir, a sexualidade leva os indivíduos a descobrirem melhor uns anos outros, a se sentirem e se compreenderem. Assim é como os bonobos utilizam a sexualidade para evitar que surjam conflitos.

O segundo êxito do amor livre foi ter removido a couraça protetora das fábulas religiosas. A rejeição da benção não só se opôs à ingerência religiosas nos assuntos pessoais, mas viu no juramento religioso a própria negação do amor. Ao romper com os aprisionamentos que as igrejas impõe, o amor recuperou algo de sua sinceridade.

As religiões monoteístas, ao imporem a exclusividade ao deus que veneram, reivindicam a exclusão. Seu deus não apenas ensangüentou uma parte do mundo, mas também apodreceu o matrimônio proibindo a contracepção e a liberdade. Foram necessárias as leis republicanas sobre divórcio para abrir uma brecha nesse eternidade. Ao emancipar-se de deus, o divórcio tem perturbado enormemente seus lacaios sectários. Introduziu a fratura fundamental que rompe com a extensão temporal do juramento. Ao introduzir a liberdade no seio dos relacionamentos humanos, o amor livre encontrou rapidamente sua ingerência atéia, estabelecendo um abismo definitivo no aparato cínico das cerimônias devotas.

O terceiro êxito do amor livre consiste nessa ausência de redução do outro. A criança já não é bastarda. Ao invés de perpetrar a conseqüência ilegítima de um concubinato, a criança é um filho do amor. É ainda pertinente para a comunidade familiar reconstruída e todos xs filhxs são reconhecidxs como iguais. O namorado não é corno, a pessoa não é infiel. O amor se fez plural e a família proprietária é sucedida por uma comunidade de indivíduos livres. Esta é a atitude que me leva a reconhecer no outro o indivíduo último que constrói o meu amor. Não sabe mais nessas categorias humilhantes e obscenas contidas na instituição da exclusão. Como rejeição a essas diminuições, o amor livre contem uma idéia verdadeiramente revolucionária ao privilegiar a autonomia individual.

A quarta vitória da exigência libertária pelo amor livre tem lugar a partir de 1968, com o desejo de autenticidade, a rejeição da exclusividade nas relações e uma vontade de transformação das culturas cotidianas. Essa reivindicação de autenticidade dos amores tem sido caricaturada como uma simples sucessão de relações múltiplas e superficiais. A sexualidade exclusiva (monogamia exclusiva, homossexualidade exclusiva, poligamia) não existe na natureza, a única norma é a diversidade no comportamento sexual. No entanto, a libertação das atividades sexuais pode esgotar-se em uma contradição, levando da autonomia aparente das pessoas à solidão desigual do isolamento no mundo mercantil. O amor livre não se reduz ao sexo liberado nem à promiscuidade luxuriosa. Pelo contrário, a experiência livre do outro supõem uma busca por autenticidade. Cada um e cada uma revelam uma pessoa única, um amor diferente que não pode reclamar esse capricho infantil da exclusividade. A liberdade que constitui nossa individualidade é antes uma demanda de confiança, de relações sem o cárcere da exclusão.

Porque o sentimento amoroso é uma construção paradoxal, na qual cada um tem sua experiência singular que, no entanto, é compartilhada por todos. Nos coloca como alguém únicx sobre a terra ao estar apaixonadxs por outra pessoa única, e no entanto todos temos essa experiência. Muitas vezes não existem outros motivos que os seus próprios. Como que em nome disso se estabelece a inacreditável perversidade de exclusão aos outros? O matrimônio institui essa regra dupla da exclusividade imposta e da suspeita inevitável porque considera o compromisso infinito. Os ciúmes, esse “prejuízo a propriedade”, como dizia Armand, envenenam a relação amorosa e ainda assim são valorizados na sociedade mercantil. Nessa prisão de costumes, ambas as partes se devem desconfiança. Nós, ao contrário, afirmamos que rejeitar a exclusividade amorosa é um fundamento necessário para o amor livre.

A quinta qualidade do amor livre consiste na transformação da economia doméstica que esta demanda libertária provocou. O casamento institui a dependência econômica e sexual das mulheres. A guerra dos sexos instaurou o casamento em uma sujeição feminina à diferentes tarefas não retribuídas. A família pressupõe a repartição desigual de tarefas, e a ausência de remuneração por atividades particulares. Dirigir a casa, rapidamente encarregado à mulher, consiste em uma parte da organização econômica curiosamente levada a cabo com uma servidão absoluta e sem pagamento. Ao sublinhar essa disparidade, a reivindicação por igualdade do amor livre pôs totalmente em desuso essa servidão doméstica e estabeleceu as bases de uma revolução da vida cotidiana. E “aqueles que preferem a revolução e a luta de classes sem se referirem explicitamente à vida cotidiana […] têm um cadáver na boca”, como assegurava Vaneigem.

O sexto mérito do amor livre é reconhecer a força legítima do desejo. Classificados pelos devotos no campo das obsessões, o desejo e a fantasia são hipocritamente deslocados para o negativo do amor. Para o poder público, a sedução das mulheres se reduz a sua falsidade e o desejo dos homens se limita a concupiscência. Se instituiu inclusive o conceito policial de provocação passiva. Para os funcionários do Estado, o desejo é algo como a vergonha do amor. O fundamento biológico das atrações sedutoras é perfeitamente identificado e ao mesmo tempo desaconselhado pelo matrimônio. A atração amorosa é demasiado animal, “um encontro de salivas” dizia Cioran. O que permite a atração dos outros reside no extravagante.

Numerosos animais fazem gestos insólitos para seduzir a seu companheiro. A tendência ao exagero é um componente fundamental da biologia que permite explicar a exuberância dos traços sexuais entre os animais, como a cor nos pássaros, a cauda do pavão real ou as pinças do caranguejo do mar. A biologia evolutiva mostra que os traços artificialmente aumentados podem inclusive superar aos estímulos simples. O homem não é indiferente ao exagero dessas características, como muito bem sabem os publicitários, que “melhoram” os retratos femininos para aumentar as vendas de um produto. Se a maquiagem e o tratamento de imagens são as últimas mentiras do mundo mercantil, também é certo que nossa mente é cada vez mais natural. É provável que a atração nasça biologicamente desse estímulo supranormal, um estímulo excessivo que desencadeia uma atração mais intensa, com a ajuda de certos ferormônios. No curso da evolução biológica, os processos de seleção natural aumentaram a presença dessas características estranhas que estimulam o desejo sexual. O desejo nasce do sensorial e seu fundamento biológico. Inclusive as representações e desenhos femininos, inclusive as bonecas que as crianças usam, tudo que afeta a parte baixa do corpo constitui o problema, mesmo que se disfarce com o comprimento das pernas, os olhos grandes, a finura da aparência, exagerando todos os traços do desejo. Assim, a beleza física não seria mais que a impressão de um desejo formado pela composição de caracteres exagerados. Então é possível perguntar-se sobre os determinismos do desejo, a imagem pela qual ficamos apaixonados prisioneiros ao reconhecer o dinamismo vivaz que constitui o desejo, e a inércia de seus constituintes, que podem também nos enganar. O desejo é um componente fundamental que o amor livre reabilitou.

A sétima força do amor livre reside curiosamente no incerto. A única coisa que x apaixonadx conhece é seu próprio sentimento íntimo. Só existe uma certeza no amor, minha própria razão. A resposta do outro se estabelece no desconhecido. O desejo que funda o descobrimento do outro é tão confuso que o sentimento nunca desaparece totalmente. O amor se prescreve como uma força oculta. Mas a incerteza estabelece igualmente a verdade do amor, a tristeza de seu vigor. Porque o amor não está fundado em um direito. O mal-entendido não reside só no medo do engano, da dissimulação. X apaixonadx não tem mais direitos além do de amar. O drama quase esbarra na comédia. Então, as provas de amor seriam exigidas como fragmentos desses juramentos perdidos. Eu não tenho direito a nada do amor do outro, ainda que tenha o direito de amar. Aqui a humanidade se constrói sem obrigações nem restrições. Há na incerteza uma força viva que reconhece intuitivamente a liberdade do outro. É também um pequeno sofrimento, que mostra a esse indivíduo irredutível sua liberdade e sua humanidade.

Decididamente, o amor livre instaura uma reconciliação entre as liberdades e uma exigência de emancipação social. Está aqui todo o sentido crítico de Lucienne Gervais: “Se representa comumente ao amor zombando os velhos: pois bem, eu vejo o amor, livre até o fim, zombando das morais caducas, dos velhos usos e dos velhos costumes. Vejo o amor zombando do velho mundo”.

Referências:

ARMAND E. 1906 « Les « Colonies » communistes », L’Ere Nouvelle
CIORAN E. 1987 « Précis de décomposition ». Eds Gallimard
GERVAIS L. 1907 « L’amour libre », l’anarchie, n° 111
LODE T. 2006 « La guerre des sexes chez les animaux » Eds O Jacob
VANEIGEM R 1967 « Traité de savoir vivre à l’usage des jeunes générations » Eds Gallimard.
ZAÏKOVSKA S. 1913 « Le féminisme », La Vie anarchiste n°12, 1er mai 1913

Traduzido de: http://elanticristodistro.blogspot.com/2011/02/las-siete-virtudes-del-amor-libre-x.html

OBS: algumas alterações foram feitas em relação ao texto de origem para tornar o texto mais inclusivo.



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