Eros e Anarquia – Prólogo

Por Osvaldo Baigorria

Buenos Aires, Abril de 2006.

Para defender o princípio de amor livre se necessitam doses iguais de inocência e experiência. Uma vez dessacralizados o casamento, a família e o casal homem-mulher unidos “para sempre”, o que senão a inocência pode vincular liberdade ao amor, especialmente se este é entendido como paixão ou atração entre seres de carne e osso? A experiência sussurra ao ouvido que a fidelidade é impossível, que a monogamia é uma ilusão e que as leis do desejo triunfam sempre sobre as leis do costume. A inocência grita que o amor só pode ser livre, que a pluralidade de afetos é um fato e que o desejo obedece a uma ordem natural, anterior e superior a todo mandato social estabelecido.

Poderia se supor que a inocência equivale à ingenuidade assim como a experiência ao cinismo. No entanto, muitos dos autores reunidos nessa antologia intuíram que a emulsão resultante da fórmula “amor-liberdade” é muito mais complexa. Nunca houve nada mais difícil do que ser libertário nas questões amorosas. Se pode sê-lo frente à autoridade, ao trabalho ou à propriedade, mas ante aos vai-e-vens do coração não há princípio, regra ou idéia que se mantenha firme em seu terreno. Existe alguém mais parecido com um escravo do que uma apaixonado?

Em tempos de relativa paz (ou seja, sem guerras nacionais, civis ou religiosas declaradas), os ciúmes são a principal causa de homicídios. Em nome do amor o ser-humano mata, possui e submete aos seus semelhantes, ao mesmo tempo que é possuído por uma força ou potência que irrompe não se sabe bem da onde e o arrasta a um destino impossível de prever. A possessão é a antítese da liberdade. Como alguém pode ser verdadeiramente livre quando ama? Só através de uma reinvenção da palavra amor.

Eros é o antigo nome dessa potência. Antes que adquirisse esse caráter sentimental personificado em um jovem charmoso, filho de Afrodite e de um pai incerto (Hermes, Ares ou o próprio Zeus), que voava com assas douradas e disparava flechas nos corações, era uma fastidiosa força aérea da natureza que, como a velhice ou as pragas, deveria ser controlada para que não perturbasse o funcionamento social. Supõem-se que foi o primeiro dos deuses já que, sem ele, nenhum outro teria nascido. De todas as maneiras, sempre foi muito irresponsável para fazer parte da hegemônica família dos Doze do olimpo.

Podemos imaginar distintos acordos e conflitos numa união hipotética entre Eros e Anarquia, sobretudo se não entendemos essa última só como uma ordem social caracterizada pela ausência de Estado. Se argumentou que an-arché é a rejeição de todo princípio inicial ou causa primeira, de toda origem única e absoluta: “A causa primeira nunca existiu, nunca pode existir… A causa primeira é uma causa que em si mesma não tem causa ou que é causa de si mesma” (Bakunin). A energia anárquica tem sido descrita como um caos cego de impulsos autônomos, assim como uma construção voluntária de formas associativas entre forças que lutam por se afirmarem e se reconhecerem sem dissolver as diferenças que as opõem (Proudhon). Em vez de um modelo político utópico situado ao final dos tempos, se trataria de uma potência aberta à criação constante de individualidades (Simondon), ocasionalmente relacionada com a ancestral ideia grega de apeiron utilizada por Anaximandro para descrever esse fundo indefinido e indeterminado a partir do qual surgem sem cessar os seres individuais. Que este principio sem principio possa se unir felizmente e sem brigas conjugais com aquele deus alado é algo que ainda está para ser visto.

Certamente os autores aqui apresentados não tem uma opinião única e homogênea sobre a dupla Eros e Anarquia nem sobre seu filho legítimo: o amor livre. Por exemplo: enquanto que para Cardias -iniciador do experimento conhecido como Colônia Cecília no Brasil do século XIX- o adultério é a forma mais indigna desse amor, para Roberto de las Carreras a figura do Amante é bandeira de luta contra o casamento burguês, segundo o panfleto publicado em Montevidéu em 1902, no qual o autor relata como descobre sua própria mulher nos braços de outro homem e, em vez de se sentir traído, exalta a adúltera como a melhor aluna de seu ensinamento erótico-libertário.

Intitulamos O Amor Livre a esta heterogênea -e majoritariamente heterossexual- seleção de textos como homenagem a um título já clássico de livros e artigos anarquistas e a um ideal que também pertence a tradição romântica e modernista. Tenta-se mostrar assim a diversidade de olhares históricos sobre a questão, reunindo fragmentos escritos por militantes sociais em publicações do fim do século XIX e princípios do XX, junto a outros de origem contracultural que, sem ser estritamente anarquistas, apresentam uma sensibilidade libertária no tratamento do tema.

Claro que se encontrarão consensos de fundo. O amor que aqui se chama livre é aquele que questiona toda moral dúbia, hipocrisia ou cinismo. Como disse René Chaughi em “O matrimônio é imoral”: se duas pessoas desejam unir-se ante um deus, nada há a criticar. Muito pelo contrário: o problema é o caráter hipócrita daqueles que aceitam submeter-se ao rito religioso sem haver pisado numa igreja desde a primeira comunhão. A mentira pertence, nesta concepção, ao campo do inimigo. O militante anarco-erótico seria, antes de tudo, um moralista.

Durante muito tempo, amor livre foi sinônimo de união livre: uma relação não sujeita à leis civis nem religiosas. Em épocas em que o casamento era indissolúvel e o divórcio um horizonte polêmico, a liberdade de duas pessoas de se unirem prescindindo da lei e de se separarem “quando o amor chegue ao seu fim” era motivo de escândalo mas não continha necessariamente a idéia posterior de libertação sexual. Ademais, era por definição geral a união entre um homem e uma mulher, não entre duas ou mais mulheres nem entre dois ou mais homens. Essa proposta pode ser vista hoje como uma demanda que questionava o casamento jurídico e a moral do século XIX mas que, de algum modo, acabaria obsoleta durante a segunda metade do século XX.

Não obstante, o amor plural, o companheirismo amoroso ou os “casamentos comunais” são relatos e práticas que os anarquistas que mais pensaram sobre o tema já manejavam faz quase 150 anos como formas de relação nas quais a expressão “amor livre” significa aquilo que literalmente hoje sugere aos nossos ouvidos. Os militantes que defenderam esses modelos tentaram resolver talvez a questão mais delicada que pode surgir entre duas pessoas que se amam: o que fazer quando aparece o desejo por outrxs.

Esse desejo se pode negar. Ou se pode reconhecer sua irrupção ainda que se utilizem instrumentos de contenção ou repressão. Se pode satisfazê-lo com encontros ocasionais proibidos mas tentando auto-controlar-se (“não vou me apaixonar”). Manter uma relação paralela clandestina (“é só sexo”); ou lançar-se a experimentar dentro do laboratório social modos diversos de intercâmbio de afetos e atrações. Como dito por Woody Allen, o coração é um órgão muito flexível.

Se observamos as distintas propostas de formas inovadoras de se relacionar, como as comunidades afetivas, o amor entre camaradas livres, o “abraço polimorfo” ou o “beijo amorfista”, notamos que o grau de ruptura e originalidade temática destes autores não se destaca unicamente sobre o contexto de sua época em que sua pluralidade de modelos foi implantada. De fato, eles parecem ganhar validade na medida que perdure a compulsão bi-pessoal de formar um casal e se casar.

Na verdade, seria difícil encontrar um período histórico capaz de absorver ou assimilar a radicalidade de algumas dessas soluções aos problemas da vida afetiva. Por exemplo, a revolução sexual da segunda metade do século XX não é facilmente homologável ao amor livre, uma noção mais velha e mais contundente. Embora a contracultura e o liberacionismo dos anos 1960-70 tivessem influências anárquicas, a idéia de uma sexualidade livre também se articulou com certos dispositivos de poder, incitou o sonho de múltiplos intercâmbios sexuais sem pagar por eles (livre no sentido de free: gratuito) ou bem legitimou a possibilidade de coisificar corpos dimensionados como objetos de desejo. Com a substituição de “amor” por “sexo” implicou algum grau de perda da inocência.

Na realidade, a noção de amor livre aponta mais alto: não a mera possibilidade de ter múltiplas relações sexuais, mas a de amar a várias pessoas ao mesmo tempo. Reintroduz a noção de companheirismo, de companheirismo afetivo. Afirma que se pode querer bem a (querer o bem de) dois ou mais seres simultaneamente. Insiste em que as pessoas sempre estão amando a várias outras ao mesmo tempo, embora com diferentes intensidades e propósitos. Aposta, portanto, numa nova educação sentimental.

Sendo assim, uma idéia tão bonita que se pode perdoar suas fragilidades. Estas são encontradas nas bases de sua própria construção. O amor livre também se assenta sobre um acordo, pacto ou modelo de conduta que tenta cavalgar sobre os deslocamentos inconstantes do desejo. E é difícil tomar as rédeas, manejar, calcular a natureza polifacetada do fluxo que leva a dois ou mais corpos a se unirem ou separarem com a mesma inesperada e incontrolada força passional.

Como advertiu Bataille, no campo de Eros sempre está em jogo a dissolução das formas constituídas. A fusão dos amantes, apesar de suas promessas de felicidade recíproca, introduz a pertubação e a desordem, elevando a atração a um ponto tal que inclusive a privação temporária da presença do outro pode chegar a ser sentida como uma ameaça de morte. Amar, em certo sentido, é viver no temor da perda dx amadx.

Isso é o que detecta Malatesta. Em contrapartida do amor livre como construção teórica superposta artificialmente para substituir a dupla monogâmica, o texto do militante trabalhador e agitador italiano introduz uma problematização mais profunda do vínculo entre amor e liberdade. Sem esperança alguma de que uma mudança radical dos costumes elimine as dores do amor, Malatesta lembra que este sentimento, para ser satisfeito, precisa de duas liberdades que concordem e que a reciprocidade é uma ilusão desde o momento em que se pode amar e não ser amado.

Alguém se junta a outra pessoa por certa promessa implícita de que ela vai satisfazer suas necessidades de companhia, diversão, contenção. A promessa coloca que essa satisfação será (deverá ser) correspondida. Assim, aderir a essas demandas converte uns e outros em propriedades e possessões. Existem proporções extremas e moderadas de apego, mas é verdadeiramente raro encontrar um amor entre seres humanos que não seja atravessado por essa obsessão.

Por sua parte, na Enciclopédia Anarquista de Sebastián Faure (Ver em anexo o Glossário não-monogâmico básico), Jean Marestan reflete sobre a tendência do amor se enobrecer com a inteligência e se transforme de paixão para sentimentos mais doces e duradouros: o companheirismo, a amizade, o carinho, a estima; ou seja, afetos mais suaves, leves, lentos ou moderados. Ali também se critica o desejo de possessão que não é considerado um mal em si mesmo a não ser quando toma as proporções extremas de apropriação e monopolização.

Então aqui o amor não é nada absoluto, nem uma essência universal inesgotável como seria um deus. Tão pouco a liberdade, um termo relativo o é: sempre aparece em relação a outra coisa. Se é livre de algo ou de alguém. Liberdade pode significar a ruptura de uma lei conjugal assim como se livrar do amor entendido como atração entre dois corpos. Nesse último caso, ser livre implicaria atravessar o campo do erotismo talvez para chegar ao que os cristãos chamaram de agapé e os budistas de karuna, mais um amor-compaixão que um amor-paixão, uma entrega não egoísta aos outros, um dom que se voltaria a todos os seres sem distinção. Um amor livre de atração, possessividade, apego, propriedade. É possível? Se alguém se livra de estar junto de uma só pessoa, poderá sentir esse amor capaz de se derramar sobre todos sem diferenciação? Não é provável que termine, mais cedo ou mais tarde, atendo-se a outro número limitado de objetos de desejo? São perguntas que precisam ser encaradas se queremos entender melhor os pontos de tensão e equilíbrio presentes no conflitivo casal de Eros e Anarquia.

Para não restar dúvida: nessas páginas se redefine o amor como um gesto que rompe as regras sociais e econômicas. Sua força destrutiva se dirige contra o cálculo, o interesse, a manipulação; quer dizer, contra do vil e do utilitário. Estes seriam os autênticos obstáculos para uma vontade de sentir que tende a escapar a toda regulamentação. Os anarquistas do século XIX propunham destruir a família justamente para que esse sentimento fosse mais sólido, durável, baseado numa convicção interior. Se tratava, em suma, de reconhecer honestamente as inconstâncias da vida. Essa aposta na verdade é o que torna o amor livre em um princípio essencialmente moral.

Só resta esperar que a força dos argumentos expostos nessa antologia ajude àqueles que suspeitam, seja por inocência ou experiência, que nenhuma força ideal – nem mesmo a noção de amor livre – poderá satisfazer as expectativas de felicidade duradoura (“por toda a vida”) de duas ou mais pessoas que se amam, assim como nenhuma convenção, rito ou regra aprovada diante testemunhas poderá sujeitar por completo o anárquico movimento dos corações.



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