Em que Acredito – Emma Goldman

De: Nova Iorque, 19 de Julho, 1908

Em Que Acredito

Em que acredito” tem sido muitas vezes alvo de escritores retaliadores. Tantas histórias horripilantes e incoerentes têm circulado sobre mim, que não é de se admirar que o ser-humano mediano tem palpitações no coração cada vez que se menciona o nome Emma Goldman. É uma pena que não vivemos mais nos tempos em que bruxas eram queimadas na fogueira ou torturadas para que o espírito do mal saia delas. Porque, na verdade, Emma Goldman é uma bruxa! Sério, ela não come criancinhas, mas faz muitas coisas piores. Ela fabrica bombas e joga em cabeças com coroas. B-r-r-r!

Tal é a impressão que o público tem de mim e das coisas que acredito. Isso se deve muito ao The World que dá aos seus leitores pelo menos uma oportunidade de aprenderem o que minhas opiniões realmente são.

O estudante de história do pensamento progressivo está bem ciente que todas as idéias nos seus primeiros estágios foram deturpadas, e que os adeptos dessas idéias tem sido caluniados e perseguidos. Não é preciso voltar dois mil anos ao tempo em que aqueles que acreditavam no evangelho de Jesus eram jogados na arena ou caçados em calabouços para perceber quão pouco grandes crenças ou honestos crentes são compreendidos. A história do progresso é escrita no sangue de homens e mulheres que ousaram expor uma causa impopular, como, por exemplo, o direito do homem negro sobre seu corpo, ou o direito da mulher sobre sua alma. Se, então, desde tempos imemoriáveis, o Novo tem encontrado com oposição e condenação, por que minhas opiniões deveriam estar isentas de uma coroa de espinhos?

Em que acredito” é um processo mais do que uma finalidade. Finalidades são para deuses e governantes, não para o intelecto humano. Embora deva ser verdade que a formulação sobre liberdade de Herbert Spencer é o mais importante no assunto, como uma base política da sociedade, ainda assim a vida é algo mais do que formulas. Na batalha pela liberdade, como Ibsen pontuou muito bem, é a luta por, nem tanto a obtenção da, liberdade, que desenvolve tudo de mais forte, mais vigoroso e melhor no caráter humano.

Anarquismo não é somente um processo, no entanto, que marcha a “passos sombrios” , colorindo tudo de positivo e construtivo no desenvolvimento orgânico. É um protesto notável do tipo mais militante. É tão absolutamente firme, insistindo e permeando uma força para superar o mais teimoso ataque e para resistir à crítica daqueles que realmente constituem a última trompeta de uma era decadente.

Anarquistas não são de forma alguma espectadores passivos no teatro do desenvolvimento social; pelo contrário, eles tem algumas noções muito positivas no que diz respeito a objetivos e métodos.

Para que eu possa me fazer o mais clara possível sem utilizar muito espaço, permitam-me adotar o modelo de tratamento em tópicos do “Em que acredito”:

I. Quanto à propriedade

Propriedade” significa domínio sobre as coisas e a negação a outros de usar essas coisas. A medida que a produção não foi igualitária para a demanda normal, a propriedade institucional deve ter tido algum raison d’être (razão de ser). Deve-se apenas consultar a economia, no entanto, para saber que a produtividade do trabalho nas últimas décadas cresceu tão tremendamente a ponto de exceder a demanda normal cem vezes, e para fazer da propriedade não somente um estorvo para o bem-estar humano, mas um obstáculo, uma barreira mortal, para todo o progresso. É o domínio sobre as coisas que condena milhões de pessoas a serem mera nulidade, cadáveres vivos sem originalidade ou poder de iniciativa, máquinas humanas de carne e osso, que acumulam montanhas de riquezas para os outros e pagam por isso com uma cinza, monótona e miserável existência para si mesmas. Eu acredito que não pode haver nenhuma verdadeira riqueza, riqueza social, enquanto isso repousar sobre a vida humana – jovens vidas, velhas vidas e vidas ainda por vir.

É admitido por todos os pensadores radicais que a causa fundamental desse terrível estado das coisas é (1) que os humanos deve vender seu trabalho; (2) que esta inclinação e julgamento estão subordinados à vontade de um mestre.

O anarquismo é a única filosofia que pode e irá acabar com essa humilhante e degradante situação. Se difere de todas as outras teorias na medida em que aponta que o desenvolvimento humano, seu bem-estar físico, suas qualidades latentes e disposição inata devem por si mesmas determinar o caráter e condições de seu trabalho. Similarmente as apreciações mentais e físicas da pessoa e os desejos de sua alma decidem o quanto ela deve consumir. Para tornar isso uma realidade, eu acredito, só será possível em uma sociedade baseada na cooperação voluntária de grupos produtivos, comunidades e sociedades livremente federadas, eventualmente tornando-se um comunismo livre, acionado por uma solidariedade de interesses. Não pode haver liberdade no sentido largo da palavra, nenhum desenvolvimento harmônico, enquanto considerações mercenárias e comerciais atuam um papel importante na determinação da conduta pessoal.

II. Quanto ao governo

Eu acredito que o governo, autoridade organizada, ou o Estado é necessário apenas para manter ou proteger a propriedade e o monopólio. Tem eficiência comprovada somente nessa função. Como uma promotora de liberdade individual, bem-estar humano e harmonia social, o que por si só constituem real ordem, o governo está condenado por todos os grandes homens do mundo. Por isso, penso, com meus companheiros anarquistas, que os regulamentos legais, decretos legislativos, as disposições constitucionais, são invasivos. Eles até hoje nunca induziram o homem a fazer nada ele podia e não iria fazer pela virtude de seu intelecto ou temperamento, nem preveniu nada que o homem estava impelido a fazer pelos ditames. A descrição pictórica de Millet de “O Homem com a Enxada”, as obras-primas de Meunier sobre os mineiros que auxiliaram a elevar o trabalho de sua posição degradante, as descrições de Gorki do submundo, as análises psicológicas de Ibsen da vida humana, nunca poderiam ter sido induzidas pelo governo tanto quanto o espírito que impele o homem a salvar uma criança se afogando ou uma mulher aleijada de um prédio em chamas nunca foi convocado a ser posto em operação pelo regulamento legal ou pela academia de polícia. Eu acredito – de fato, eu sei – que qualquer coisa que é boa ou bonita na humanidade exprime-se e se afirma por si só apesar do governo, e não por causa dele.

Os anarquistas são por isso justificados em assumir que o Anarquismo – a ausência de governo – vai garantir com amplo e bom escopo o desimpedimento do desenvolvimento humano, a pedra angular para o verdadeiro progresso e harmonia sociais.

Quanto ao argumento estereotipado de que o governo atua como um fiscal do crime e do vício, até os que fazem as leis não mais acreditam nisso. Esse país gasta milhões de dólares para manter seus “criminosos” atrás das grades, no entanto a criminalidade está crescendo. Certamente esse estado de coisas não é devido a uma insuficiência de leis! Noventa por cento dos crimes são crimes contra a propriedade, que têm suas raízes em nossas iniqüidades econômicas. Enquanto estas últimas continuem a existir nós devemos converter cada poste em uma forca sem ter o menor efeito sobre o crime em nosso meio. Crimes que resultam de uma herança certamente nunca poderão ser curados pela lei. Com certeza nós estamos aprendendo que tais crimes podem ser efetivamente tratados somente pelos melhores modernos métodos medicinais ao nosso alcance, e, sobretudo, pelo espírito de um profundo senso de companheirismo, bondade e compreensão.

III. Quanto ao militarismo

Eu não devia tratar desse assunto separadamente uma vez que pertence à parafernália do governo, se não fosse pelo fato de que aqueles que são mais vigorosamente opositores às minhas opiniões, sobre o fundamento de que este último apóia a força, são os defensores do militarismo.

O fato é que os anarquistas são os únicos verdadeiros defensores da paz, as únicas pessoas que pedem por uma barragem do crescimento para a tendência crescente do militarismo, que está fazendo rapidamente desse país outrora livre um poder imperialista e despótico.

O espírito militar é o mais sem misericórdia, sem coração e brutal que existe. Promove uma instituição para a qual não existe nem uma pretensa justificação. O soldado, para citar Tolstoi, é um matador profissional de homens. Ele não mata por amor, como um selvagem, ou por paixão, como um homicida. Ele é uma fria, mecânica e obedediente ferramenta dos seus superiores militares. Ele está preparado para cortar gargantas ou afundar um navio ao comando do seu superior, sem saber ou, talvez, se importar, como, por quê ou por qual motivo. Estou apoiada nessa controvérsia por ninguém menos que General Funston. Cito deste, o comunicado para o New York Evening Post de 30 de Junho, lidando com o caso do Cabo William Buwalda, o que causou grande comoção por todo Nordeste. “O primeiro dever de um oficial ou de um alistado,” diz nosso nobre guerreiro, “ é a obediência sem questionamentos e lealdade ao governo ao qual fez juramento; não faz diferença se ele aprova este governo ou não”.

Como podemos harmonizar o princípio de “obediência insquestionável” com o princípio da “vida, liberdade e busca pela felicidade”? O poder mortífero do militarismo jamais foi tão efetivamente demonstrado nesse país quanto na recente condenação pela courte marcial de William Buwalda, de San Francisco, Company A, Engineers, a cinco anos na prisão militar. Aqui tínhamos um homem que teve um record de 15 anos de serviço contínuo: “Seu caráter e conduta eram incontestáveis”, nos dizia Gen. Funston, quem, em consideração a isso, reduziu a sentença de Buwalda para 3 anos. Ainda assim o homem é atirado de repente para fora do exército, desonrado, roubado de suas chances de ter uma pensão e mandado para a prisão. Qual foi seu crime? Só escutem, seus americanos livres (“ye free-born americans”)! William Buwalda foi a uma reunião pública, e depois da leitura apertou a mão do palestrante. Gen. Funston, em sua carta para o Post, a qual já me referi acima, afirma que a atitude de Buwalda foi “uma grande ofensa militar, infinitamente pior que a deserção”. Em outra declaração pública, que o General fez em Portland, Oregon, ele disse que “o crime de Buwalda foi sério, igual à traição”.

É bem verdade que a reunião foi organizada por anarquistas. Se tivessem sido os socialistas, nos informou Gen. Funston, não haveria objeção à presença de Buwalda. De fato, o General diz, “Eu mesmo não teria a menor hesitação de ir a uma reunião socialista”. Mas ir a uma reunião com Emma Goldman como palestrante – poderia haver qualquer coisa mais “traiçoeira”?

Por esse crime horrível um homem, um cidadão americano livre por nascença, que deu a este país os melhores 15 anos de sua vida, e cujos caráter e conduta nesse tempo foram “incontestáveis”, está agora apodrecendo em uma cadeia, desonrado, desgraçado e roubado de uma subsistência.

Pode haver algo mais destruidor do verdadeiro gênio da liberdade do que o espírito que tornou a sentença de Buwalda possível – o espírito da obediência inquestionável? É para isso que o povo americano tem sacrificado nos últimos anos quatrocentos milhões de dólares e seus corações e sangue?

Eu acredito que o militarismo – um exército e marinha permanentes em um país – é indicador da decadência da liberdade e da destruição de tudo que há de bom e melhor em nossa nação. O constantemente crescente clamor por mais navios de guerra e pelo aumento do exército com o fundamento de que isso nos garante a paz é tão absurdo quanto o argumento de que um homem pacífico é aquele que anda bem armado.

A mesma falta de consistência é desempenhada pelos que pretendem a paz que se opõem ao anarquismo porque ele supostamente ensina a violência, e por aqueles que ainda se sentiriam encantados com a possibilidade da nação americana ser logo capaz de arremessar bombas de dinamite sobre inimigo indefesos de máquinas voadoras.

Eu acredito que o militarismo vai acabar quando os espíritos amantes da liberdade do mundo disserem aos seus mestres: “Vá e faça sua própria matança. Nós nos sacrificamos e a aqueles que amamos tempo o bastante lutando suas batalhas. Em troca vocês nos tornaram parasitas e criminosos em tempos de paz e nos brutalizaram em tempos de guerra. Vocês nos separaram de nossos irmãos e fizeram do mundo um abatedouro humano. Não, nós não vamos fazer sua matança ou lutar pelo país que vocês nos roubaram”.

Oh, eu acredito com todo o meu coração que a irmandade e a solidariedade humanas vão limpar o horizonte desse terrível rastro vermelho de guerra e destruição.

IV. Quanto à liberdade de expressão e imprensa

O caso de Buwalda é só um pedaço da questão maior do livre discurso, da livre imprensa e do direito de livre associação.

Muitas pessoas de bem imaginam que os princípios da liberdade de expressão ou de imprensa podem ser exercidos de forma adequada e com segurança dentro dos limites das garantias constitucionais. Essa é a única justificativa, a mim me parece, para a terrível apatia e indiferença para com a investida contra a liberdade de expressão e imprensa que temos testemunhado nesse país nos últimos meses.

Eu acredito que liberdade de expressão e imprensa significa que eu posso dizer e escrever o que quiser. Esse direito, quando regulado pelas prescrições constitucionais, decretos legislativos, ao bel-prazer das decisões do chefe dos correios ou da academia de polícia, se torna uma farsa. Estou bem ciente de que vou ser avisada das conseqüências se nós removermos as correntes do discurso e da imprensa. Acredito, no entanto, que a cura para conseqüências resultantes do exercício ilimitado da expressão é permitir mais expressão.

Algemas mentais até hoje nunca ocasionaram maré de progresso, ao passo que as explosões sociais prematuras com muita freqüência foram provocadas através de uma onda de repressão.

Nossos governantes nunca vão aprender que países como Inglaterra, Holanda, Noruega, Suécia e Dinamarca, com a maior liberdade de expressão, tem sido mais livres de “conseqüências”? Ao passo que Rússia, Espanha, Itália, França e, ai de mim!, até América, cultivou essas “conseqüências” para o fator político mais urgente. Nosso país deveria ser mandado pela maioria, no entanto todo dia um policial que não é investido de poder pela maioria pode acabar com uma reunião, arrastar o orador para fora da plataforma ou dispersar a audiência para fora do salão à verdadeira moda russa. O chefe geral dos correios, que não é um funcionário elegível, tem o poder de suprimir publicações e confiscar cartas. De sua decisão não há mais nenhum apelo do que o do Czar da Rússia. Na verdade, eu acredito que nós precisamos de uma nova Declaração de Independência. Não existe nenhum Jefferson ou Adam modernos?

V. Quanto à Igreja

Na recente convenção dos remanescentes políticos de uma idéia uma vez revolucionária, foi votado que religião e obtenção de votos não tem nada a ver um com o outro. Por que deveriam? “A partir do momento que um homem pretende entregar ao demônio o cuidado de sua alma, ele pode, com a mesma coerência, delegar ao político o cuidado de seus direitos”. Que a religião é um assunto privado, a muito foi estabelecido pelos bis-marxistas (bismarck+ marx) socialistas da Alemanha. Nossos marxistas americanos, pobres de sangue e originalidade, vão a Alemanha por sua sabedoria. Essa sabedoria serviu como um chicote capital para açoitar várias milhões de pessoas para dentro do bem-disciplinado exército do Socialismo. Ela pode fazer o mesmo aqui. Pelo amor de deus, não vamos ofender a respeitabilidade, não vamos machucar os sentimentos religiosos das pessoas.

Religião é uma superstição origina na incapacidade mental do homem de resolver fenômenos naturais. A Igreja é uma instituição organizada que sempre foi uma pedra no caminho do progresso.

A organização de igrejas arrancou a religião de sua ingenuidade e primitivismo. Tornou a religião um pesadelo que oprime a alma humana e mantém a mente em cativeiro. “O domínio da escuridão”, como o último verdadeiro cristão, Leo Tolstoi, chama a Igreja, tem sido um inimigo do desenvolvimento humano e do livre pensamento, e assim não tem lugar na vida de pessoas verdadeiramente livres.

VI. Quanto ao casamento e ao amor

Acredito que estes sejam os assuntos que mais tabu nesse país. É quase impossível falar deles sem escandalizar a amada propriedade de muita boa gente. Não é de se espantar que tanta ignorância prevaleça relativa a essas questões. Nada menos que uma discussão aberta, franca e inteligente vai purificar o ar da histeria, baboseira sentimental que está encobrindo esses assuntos vitais, vital para o indivíduo como para o bem-estar social.

Casamento e amor não são sinônimos; pelo contrário, são com freqüência antagônicos um ao outro. Estou ciente do fato de que alguns casamentos são desempenhados pelo amor, mas os estreitos, limites materiais do casamento, como é, rapidamente esmaga a delicada flor da afeição.

O casamento é uma instituição que fornece ao Estado e a Igreja uma tremenda renda e os meios de se meter na fase da vida que pessoas finas a muito consideram como propriamente sua, sua coisa mais sagrada. O amor é o fator mais poderoso no relacionamento humano que desde tempos imemoriáveis tem desafiado todas as leis feitas pelo homem e rompido com as grades de ferro das convenções na Igreja e da moralidade. O casamento é normalmente um puro arranjo econômico, provendo à mulher uma apólice de seguro de longa vida e ao homem um perpetuador de sua espécie e um bonito brinquedo. Ou seja, o casamento, ou o treinamento para isso, prepara a mulher para uma vida de parasita, uma dependente, desamparada servente, enquanto concede ao homem o direito sobre a hipoteca de um bem imóvel de uma vida humana.

Como pode tal condição das coisas ter qualquer coisa a ver com amor? – com o elemento que iria abrir mão de toda a riqueza do dinheiro e do poder para viver em seu próprio mundo de livre expressão humana? Mas não é tempo de romantismo, de Romeu e Julieta, de Faust e Marguerite, e êxtases à luz da lua, de flores e canções. Nossa era é da praticidade. Nossa primeira consideração é o rendimento. Pior para nós que alcançamos a era em que os vôos mais altos da alma devem ser examinados. Nenhuma raça pode se desenvolver sem o elemento do amor.

Mas se duas pessoas estão adorando o santuário do amor, o que se faz do bezerro de ouro, casamento? “É a única segurança para a mulher, para as crianças, para a família, para o Estado”. Mas não é segurança para o amor; e sem o amor não pode existir um lar de verdade. Sem amor nenhuma criança deveria ser tida; sem amor nenhuma mulher de verdade pode estar relacionada a um homem. O medo de que o amor não seja uma segurança material suficiente para as crianças está desatualizado. Eu acredito que quando a mulher assinar sua própria emancipação, sua primeira declaração de independência vai consistir em admirar e amar um homem pelas qualidades de seu coração e mente e não pelas quantidades em seu bolso. A segunda declaração vai ser que ela tem o direito de seguir esse amor sem abandonar o mundo exterior ou se impedida por ele. A terceira e mais importante declaração será o direito absoluto à livre maternidade.

Assim uma mãe e um igualmente livre pai garantem a segurança da criança. Eles tem a força, a firmeza, a harmonia para criar uma atmosfera dentro da qual a planta humana pode crescer e se tornar uma primorosa flor.

VII. Quanto a atos de violência

E agora cheguei ao ponto de minhas opiniões sobre o qual prevalece o maior desentendido na mente do público americano. “Bom, vamos, agora, você não propaga a violência, a morte das cabeças coroadas e presidentes”? Quem disse que eu propago? Vocês me ouviram, qualquer um me ouviu? Alguém viu isso impresso em nossa literatura? Não, mas o jornal diz que sim, todo mundo diz que sim; conseqüentemente deve ser assim. Oh, pela precisão e lógica do querido público!

Acredito que o anarquismo é a única filosofia da paz, a única teoria do relacionamento social que valoriza a vida humana acima de qualquer outra coisa. Sei que alguns anarquistas cometeram atos de violência, mas é a terrível desigualdade econômica e a grande injustiça política que ocasionam esse atos, não o anarquismo. Todas as instituições hoje em dia se baseiam na violência; nossa atmosfera está saturada dela. Enquanto tal estado exista devemos lutar para parar a fúria do Niagara tanto quanto esperamos nos livrar da violência. Já expus que países que tem liberdade de expressão em alguma medida, tiveram poucos ou nenhum atos de violência. Qual é a moral? Simplesmente isso: nenhum ato cometido por anarquistas foi por benefício pessoal, engrandecimento do lucro, mas sim um protesto consciente contra algumas medidas repressivas, autoritárias e tirânicas que vem de cima.

O presidente Carnot, da França, foi morto por Caserio em resposta a recusa de Carnot de comutar a pena de morte de Vaillant, por cuja vida todo o mundo literário, científico e humanitário da França suplicou.

Bresci foi à Itália com seu próprio dinheiro, ganhado nos moinhos de tecelagem de seda de Paterson, para chamar o Rei Humberto para o lado da justiça em sua ordem de atirar em mulheres e crianças indefesas durante uma rebelião pelo pão. Angelino executou o Primeiro-Ministro Canovas por sua ressurreição da inquisição espanhola na prisão de Montjuich. Alexander Berkman tentou contra a vida de Henry C. Frick durante a greve de Homestead somente pela sua intensa compaixão pelos onze grevistas mortos por Pinkertons e pelas viúvas e orfãos despejados por Frick de suas miseráveis casinhas que pertenciam ao Sr. Carnegie.

Cada um desses homens não só fizeram suas razões conhecidas ao mundo em declarações orais ou escritas, mostrando a causa que os levaram a esses atos, provando que a insuportável pressão econômica e política, o sofrimento e desespero de seus companheiros, mulheres e crianças levaram aos atos, e não a filosofia do anarquismo. Eles vieram aberta e francamente preparados para agüentar as conseqüências, preparados para darem suas vidas.

Diagnosticando a verdadeira natureza de nossa doença social eu não posso condenar aqueles que, não por culpa própria, sofrem de um mal generalizado.

Eu não acredito que esses atos podem, ou até tiveram a intenção de, trazer a reconstrução social. Isso somente pode ser feito, primeiro, por uma educação larga e ampla sobre o lugar do homem na sociedade e sua relação adequada com os companheiros; e, segundo, pelo exemplo. Por exemplo quero dizer a real vivência de uma verdade uma vez reconhecida, não a mera teorização desse elemento da vida. Por último, e a arma mais poderosa, é o consciente, inteligente, organizado, protesto econômico das massas através da ação direta e greve geral.

A controvérsia geral de que o anarquismo é oposto à organização, e por isso apóia o caos, é completamente sem fundamento. Verdade, nós não acreditamos no compulsório, arbitrário lado da organização que compeliria as pessoas de gostos e interesses antagônicos em um corpo e manteria elas lá por coerção. Organização como o resultado natural da mistura de interesses comuns, trazidos pela adesão voluntária, os anarquistas não só não se opõem, mas acreditam nisso como a única base possível para a vida social.

É a harmonia do crescimento orgânico que produz a variedade de cores e formas – o todo completo que admiramos na flor. Analogicamente a atividade organizada de seres humanos livres dotados do espírito da solidariedade vai resultar na perfeição da harmonia social – que é o anarquismo. De fato, somente o anarquismo faz de organizações não-autoritárias uma realidade, uma vez que abole o antagonismo existente entre indivíduos e classes.



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