Eros e Anarquia – Prólogo

Por Osvaldo Baigorria

Buenos Aires, Abril de 2006.

Para defender o princípio de amor livre se necessitam doses iguais de inocência e experiência. Uma vez dessacralizados o casamento, a família e o casal homem-mulher unidos “para sempre”, o que senão a inocência pode vincular liberdade ao amor, especialmente se este é entendido como paixão ou atração entre seres de carne e osso? A experiência sussurra ao ouvido que a fidelidade é impossível, que a monogamia é uma ilusão e que as leis do desejo triunfam sempre sobre as leis do costume. A inocência grita que o amor só pode ser livre, que a pluralidade de afetos é um fato e que o desejo obedece a uma ordem natural, anterior e superior a todo mandato social estabelecido.

Poderia se supor que a inocência equivale à ingenuidade assim como a experiência ao cinismo. No entanto, muitos dos autores reunidos nessa antologia intuíram que a emulsão resultante da fórmula “amor-liberdade” é muito mais complexa. Nunca houve nada mais difícil do que ser libertário nas questões amorosas. Se pode sê-lo frente à autoridade, ao trabalho ou à propriedade, mas ante aos vai-e-vens do coração não há princípio, regra ou idéia que se mantenha firme em seu terreno. Existe alguém mais parecido com um escravo do que uma apaixonado?

Em tempos de relativa paz (ou seja, sem guerras nacionais, civis ou religiosas declaradas), os ciúmes são a principal causa de homicídios. Em nome do amor o ser-humano mata, possui e submete aos seus semelhantes, ao mesmo tempo que é possuído por uma força ou potência que irrompe não se sabe bem da onde e o arrasta a um destino impossível de prever. A possessão é a antítese da liberdade. Como alguém pode ser verdadeiramente livre quando ama? Só através de uma reinvenção da palavra amor.

Eros é o antigo nome dessa potência. Antes que adquirisse esse caráter sentimental personificado em um jovem charmoso, filho de Afrodite e de um pai incerto (Hermes, Ares ou o próprio Zeus), que voava com assas douradas e disparava flechas nos corações, era uma fastidiosa força aérea da natureza que, como a velhice ou as pragas, deveria ser controlada para que não perturbasse o funcionamento social. Supõem-se que foi o primeiro dos deuses já que, sem ele, nenhum outro teria nascido. De todas as maneiras, sempre foi muito irresponsável para fazer parte da hegemônica família dos Doze do olimpo.

Podemos imaginar distintos acordos e conflitos numa união hipotética entre Eros e Anarquia, sobretudo se não entendemos essa última só como uma ordem social caracterizada pela ausência de Estado. Se argumentou que an-arché é a rejeição de todo princípio inicial ou causa primeira, de toda origem única e absoluta: “A causa primeira nunca existiu, nunca pode existir… A causa primeira é uma causa que em si mesma não tem causa ou que é causa de si mesma” (Bakunin). A energia anárquica tem sido descrita como um caos cego de impulsos autônomos, assim como uma construção voluntária de formas associativas entre forças que lutam por se afirmarem e se reconhecerem sem dissolver as diferenças que as opõem (Proudhon). Em vez de um modelo político utópico situado ao final dos tempos, se trataria de uma potência aberta à criação constante de individualidades (Simondon), ocasionalmente relacionada com a ancestral ideia grega de apeiron utilizada por Anaximandro para descrever esse fundo indefinido e indeterminado a partir do qual surgem sem cessar os seres individuais. Que este principio sem principio possa se unir felizmente e sem brigas conjugais com aquele deus alado é algo que ainda está para ser visto.

Certamente os autores aqui apresentados não tem uma opinião única e homogênea sobre a dupla Eros e Anarquia nem sobre seu filho legítimo: o amor livre. Por exemplo: enquanto que para Cardias -iniciador do experimento conhecido como Colônia Cecília no Brasil do século XIX- o adultério é a forma mais indigna desse amor, para Roberto de las Carreras a figura do Amante é bandeira de luta contra o casamento burguês, segundo o panfleto publicado em Montevidéu em 1902, no qual o autor relata como descobre sua própria mulher nos braços de outro homem e, em vez de se sentir traído, exalta a adúltera como a melhor aluna de seu ensinamento erótico-libertário.

Intitulamos O Amor Livre a esta heterogênea -e majoritariamente heterossexual- seleção de textos como homenagem a um título já clássico de livros e artigos anarquistas e a um ideal que também pertence a tradição romântica e modernista. Tenta-se mostrar assim a diversidade de olhares históricos sobre a questão, reunindo fragmentos escritos por militantes sociais em publicações do fim do século XIX e princípios do XX, junto a outros de origem contracultural que, sem ser estritamente anarquistas, apresentam uma sensibilidade libertária no tratamento do tema.

Claro que se encontrarão consensos de fundo. O amor que aqui se chama livre é aquele que questiona toda moral dúbia, hipocrisia ou cinismo. Como disse René Chaughi em “O matrimônio é imoral”: se duas pessoas desejam unir-se ante um deus, nada há a criticar. Muito pelo contrário: o problema é o caráter hipócrita daqueles que aceitam submeter-se ao rito religioso sem haver pisado numa igreja desde a primeira comunhão. A mentira pertence, nesta concepção, ao campo do inimigo. O militante anarco-erótico seria, antes de tudo, um moralista.

Durante muito tempo, amor livre foi sinônimo de união livre: uma relação não sujeita à leis civis nem religiosas. Em épocas em que o casamento era indissolúvel e o divórcio um horizonte polêmico, a liberdade de duas pessoas de se unirem prescindindo da lei e de se separarem “quando o amor chegue ao seu fim” era motivo de escândalo mas não continha necessariamente a idéia posterior de libertação sexual. Ademais, era por definição geral a união entre um homem e uma mulher, não entre duas ou mais mulheres nem entre dois ou mais homens. Essa proposta pode ser vista hoje como uma demanda que questionava o casamento jurídico e a moral do século XIX mas que, de algum modo, acabaria obsoleta durante a segunda metade do século XX.

Não obstante, o amor plural, o companheirismo amoroso ou os “casamentos comunais” são relatos e práticas que os anarquistas que mais pensaram sobre o tema já manejavam faz quase 150 anos como formas de relação nas quais a expressão “amor livre” significa aquilo que literalmente hoje sugere aos nossos ouvidos. Os militantes que defenderam esses modelos tentaram resolver talvez a questão mais delicada que pode surgir entre duas pessoas que se amam: o que fazer quando aparece o desejo por outrxs.

Esse desejo se pode negar. Ou se pode reconhecer sua irrupção ainda que se utilizem instrumentos de contenção ou repressão. Se pode satisfazê-lo com encontros ocasionais proibidos mas tentando auto-controlar-se (“não vou me apaixonar”). Manter uma relação paralela clandestina (“é só sexo”); ou lançar-se a experimentar dentro do laboratório social modos diversos de intercâmbio de afetos e atrações. Como dito por Woody Allen, o coração é um órgão muito flexível.

Se observamos as distintas propostas de formas inovadoras de se relacionar, como as comunidades afetivas, o amor entre camaradas livres, o “abraço polimorfo” ou o “beijo amorfista”, notamos que o grau de ruptura e originalidade temática destes autores não se destaca unicamente sobre o contexto de sua época em que sua pluralidade de modelos foi implantada. De fato, eles parecem ganhar validade na medida que perdure a compulsão bi-pessoal de formar um casal e se casar.

Na verdade, seria difícil encontrar um período histórico capaz de absorver ou assimilar a radicalidade de algumas dessas soluções aos problemas da vida afetiva. Por exemplo, a revolução sexual da segunda metade do século XX não é facilmente homologável ao amor livre, uma noção mais velha e mais contundente. Embora a contracultura e o liberacionismo dos anos 1960-70 tivessem influências anárquicas, a idéia de uma sexualidade livre também se articulou com certos dispositivos de poder, incitou o sonho de múltiplos intercâmbios sexuais sem pagar por eles (livre no sentido de free: gratuito) ou bem legitimou a possibilidade de coisificar corpos dimensionados como objetos de desejo. Com a substituição de “amor” por “sexo” implicou algum grau de perda da inocência.

Na realidade, a noção de amor livre aponta mais alto: não a mera possibilidade de ter múltiplas relações sexuais, mas a de amar a várias pessoas ao mesmo tempo. Reintroduz a noção de companheirismo, de companheirismo afetivo. Afirma que se pode querer bem a (querer o bem de) dois ou mais seres simultaneamente. Insiste em que as pessoas sempre estão amando a várias outras ao mesmo tempo, embora com diferentes intensidades e propósitos. Aposta, portanto, numa nova educação sentimental.

Sendo assim, uma idéia tão bonita que se pode perdoar suas fragilidades. Estas são encontradas nas bases de sua própria construção. O amor livre também se assenta sobre um acordo, pacto ou modelo de conduta que tenta cavalgar sobre os deslocamentos inconstantes do desejo. E é difícil tomar as rédeas, manejar, calcular a natureza polifacetada do fluxo que leva a dois ou mais corpos a se unirem ou separarem com a mesma inesperada e incontrolada força passional.

Como advertiu Bataille, no campo de Eros sempre está em jogo a dissolução das formas constituídas. A fusão dos amantes, apesar de suas promessas de felicidade recíproca, introduz a pertubação e a desordem, elevando a atração a um ponto tal que inclusive a privação temporária da presença do outro pode chegar a ser sentida como uma ameaça de morte. Amar, em certo sentido, é viver no temor da perda dx amadx.

Isso é o que detecta Malatesta. Em contrapartida do amor livre como construção teórica superposta artificialmente para substituir a dupla monogâmica, o texto do militante trabalhador e agitador italiano introduz uma problematização mais profunda do vínculo entre amor e liberdade. Sem esperança alguma de que uma mudança radical dos costumes elimine as dores do amor, Malatesta lembra que este sentimento, para ser satisfeito, precisa de duas liberdades que concordem e que a reciprocidade é uma ilusão desde o momento em que se pode amar e não ser amado.

Alguém se junta a outra pessoa por certa promessa implícita de que ela vai satisfazer suas necessidades de companhia, diversão, contenção. A promessa coloca que essa satisfação será (deverá ser) correspondida. Assim, aderir a essas demandas converte uns e outros em propriedades e possessões. Existem proporções extremas e moderadas de apego, mas é verdadeiramente raro encontrar um amor entre seres humanos que não seja atravessado por essa obsessão.

Por sua parte, na Enciclopédia Anarquista de Sebastián Faure (Ver em anexo o Glossário não-monogâmico básico), Jean Marestan reflete sobre a tendência do amor se enobrecer com a inteligência e se transforme de paixão para sentimentos mais doces e duradouros: o companheirismo, a amizade, o carinho, a estima; ou seja, afetos mais suaves, leves, lentos ou moderados. Ali também se critica o desejo de possessão que não é considerado um mal em si mesmo a não ser quando toma as proporções extremas de apropriação e monopolização.

Então aqui o amor não é nada absoluto, nem uma essência universal inesgotável como seria um deus. Tão pouco a liberdade, um termo relativo o é: sempre aparece em relação a outra coisa. Se é livre de algo ou de alguém. Liberdade pode significar a ruptura de uma lei conjugal assim como se livrar do amor entendido como atração entre dois corpos. Nesse último caso, ser livre implicaria atravessar o campo do erotismo talvez para chegar ao que os cristãos chamaram de agapé e os budistas de karuna, mais um amor-compaixão que um amor-paixão, uma entrega não egoísta aos outros, um dom que se voltaria a todos os seres sem distinção. Um amor livre de atração, possessividade, apego, propriedade. É possível? Se alguém se livra de estar junto de uma só pessoa, poderá sentir esse amor capaz de se derramar sobre todos sem diferenciação? Não é provável que termine, mais cedo ou mais tarde, atendo-se a outro número limitado de objetos de desejo? São perguntas que precisam ser encaradas se queremos entender melhor os pontos de tensão e equilíbrio presentes no conflitivo casal de Eros e Anarquia.

Para não restar dúvida: nessas páginas se redefine o amor como um gesto que rompe as regras sociais e econômicas. Sua força destrutiva se dirige contra o cálculo, o interesse, a manipulação; quer dizer, contra do vil e do utilitário. Estes seriam os autênticos obstáculos para uma vontade de sentir que tende a escapar a toda regulamentação. Os anarquistas do século XIX propunham destruir a família justamente para que esse sentimento fosse mais sólido, durável, baseado numa convicção interior. Se tratava, em suma, de reconhecer honestamente as inconstâncias da vida. Essa aposta na verdade é o que torna o amor livre em um princípio essencialmente moral.

Só resta esperar que a força dos argumentos expostos nessa antologia ajude àqueles que suspeitam, seja por inocência ou experiência, que nenhuma força ideal – nem mesmo a noção de amor livre – poderá satisfazer as expectativas de felicidade duradoura (“por toda a vida”) de duas ou mais pessoas que se amam, assim como nenhuma convenção, rito ou regra aprovada diante testemunhas poderá sujeitar por completo o anárquico movimento dos corações.


As sete virtudes do amor livre – Thierry Lodé

As sete virtudes do amor livre – Thierry Lodé*

*Thierry Lodé é um biológo francês que estuda, dentre outros temas, ecologia evolutiva, biodiversidade sexual, etnologia, etc. “A única norma é a diversidade no comportamento sexual. “

Temos que falar de amor, dos triunfos do amor. O amor livre é uma demanda libertária que se opõe a casamentos arranjados ou ao corset (espartilho) estadista de um contrato que encerra a mulher como se fosse uma propriedade do homem. Sacudindo-se a tirania de um patriarcado estabelecido sobre o domínio da mulher, a questão do amor livre continua sendo o projeto da liberdade de amar. Porque o amor livre é antes de tudo uma crítica à exclusão.

Evidentemente, alguns podem acreditar que o amor livre está perfeitamente introduzido nos costumes de uma libertação sexual anunciada. Porque assim é com as idéias libertárias, sua força original se infiltra por aqui e ali pouco a pouco, muitas vezes sem ser premeditada. Do companheirismo amoroso e revolucionário elaborado por Émile Armand até a vida solitária dos solteiros, o caminho para a igualdade dos sexos não parece, contudo, tão fácil. Aqui reside o combate cotidiano às exclusões.

A primeira conquista do amor livre foi esclarecer a diferença entre reprodução e sexualidade. Porque explorando essa diferença se fabricou a desigualdade, uma desigualdade obscena que permitiu aprisionar as mulheres na estreita obrigação da reprodução. A sexualidade não se resume a reprodução e existem todos os comportamentos na natureza. Se a viviparidade humana tem suas obrigações, já não é possível usar essas imposições para estabelecer, com plenos direitos, a desigualdade. O desejo da criança não é negado pela sexualidade livre. E não é menos certo que se a reprodução supõem um compromisso amoroso, este pode estar fundamentado em um consentimento livre. Quando se constitui realmente como uma alienação do indivíduo, o contrato que consolida o matrimônio se pretende as vezes um meio de proteção do débil, pressupondo a incapacidade de responsabilização dos protagonistas. Ao negar a própria humanidade dos indivíduos, o contrato matrimonial se converte rapidamente numa legitimação de costumes, proibindo a homossexualidade e outras formas amorosas, colocando a exclusividade amorosa em benefício do controle de aumento da prole.

Biologicamente, o ser humano se coloca entre o bonobo e o gorila. Se do bonobo tem uma certa reivindicação por pluralidade de condutas, com o gorila o homem compartilha a exogamia das fêmeas. Nos gorilas, com efeito, as fêmeas são apartadas do grupo de pertencimento. O pachá (senhor) reina sozinho em um harém de fêmeas vindas de intercambios com outros grupos. Encontramos algo parecido com o conceito de comunidade de mulheres desenvolvido por Carpócrates e o comunismo primitivo dos agnósticos libertinos. Entre os humanos as mulheres saem dos grupos e (em muitos países) a troca do nome de solteira pelo de mulher casada estabelece essa ruptura. No entanto os humanos nem sempre exibem poligamia. Os múltiplos grupos humanos, desde os papúas até os índios, realizam minuciosamente uma estrutura comunitária. O casal exclusivamente monogâmico foi progressivamente construído ao longo da Idade Média e se impõe singularmente durante a transformação industrial do século XIX. Forma-se o casal, suja solidão molesta a sociedade. No entanto, ao se emancipar da obrigação de se reproduzir, a sexualidade leva os indivíduos a descobrirem melhor uns anos outros, a se sentirem e se compreenderem. Assim é como os bonobos utilizam a sexualidade para evitar que surjam conflitos.

O segundo êxito do amor livre foi ter removido a couraça protetora das fábulas religiosas. A rejeição da benção não só se opôs à ingerência religiosas nos assuntos pessoais, mas viu no juramento religioso a própria negação do amor. Ao romper com os aprisionamentos que as igrejas impõe, o amor recuperou algo de sua sinceridade.

As religiões monoteístas, ao imporem a exclusividade ao deus que veneram, reivindicam a exclusão. Seu deus não apenas ensangüentou uma parte do mundo, mas também apodreceu o matrimônio proibindo a contracepção e a liberdade. Foram necessárias as leis republicanas sobre divórcio para abrir uma brecha nesse eternidade. Ao emancipar-se de deus, o divórcio tem perturbado enormemente seus lacaios sectários. Introduziu a fratura fundamental que rompe com a extensão temporal do juramento. Ao introduzir a liberdade no seio dos relacionamentos humanos, o amor livre encontrou rapidamente sua ingerência atéia, estabelecendo um abismo definitivo no aparato cínico das cerimônias devotas.

O terceiro êxito do amor livre consiste nessa ausência de redução do outro. A criança já não é bastarda. Ao invés de perpetrar a conseqüência ilegítima de um concubinato, a criança é um filho do amor. É ainda pertinente para a comunidade familiar reconstruída e todos xs filhxs são reconhecidxs como iguais. O namorado não é corno, a pessoa não é infiel. O amor se fez plural e a família proprietária é sucedida por uma comunidade de indivíduos livres. Esta é a atitude que me leva a reconhecer no outro o indivíduo último que constrói o meu amor. Não sabe mais nessas categorias humilhantes e obscenas contidas na instituição da exclusão. Como rejeição a essas diminuições, o amor livre contem uma idéia verdadeiramente revolucionária ao privilegiar a autonomia individual.

A quarta vitória da exigência libertária pelo amor livre tem lugar a partir de 1968, com o desejo de autenticidade, a rejeição da exclusividade nas relações e uma vontade de transformação das culturas cotidianas. Essa reivindicação de autenticidade dos amores tem sido caricaturada como uma simples sucessão de relações múltiplas e superficiais. A sexualidade exclusiva (monogamia exclusiva, homossexualidade exclusiva, poligamia) não existe na natureza, a única norma é a diversidade no comportamento sexual. No entanto, a libertação das atividades sexuais pode esgotar-se em uma contradição, levando da autonomia aparente das pessoas à solidão desigual do isolamento no mundo mercantil. O amor livre não se reduz ao sexo liberado nem à promiscuidade luxuriosa. Pelo contrário, a experiência livre do outro supõem uma busca por autenticidade. Cada um e cada uma revelam uma pessoa única, um amor diferente que não pode reclamar esse capricho infantil da exclusividade. A liberdade que constitui nossa individualidade é antes uma demanda de confiança, de relações sem o cárcere da exclusão.

Porque o sentimento amoroso é uma construção paradoxal, na qual cada um tem sua experiência singular que, no entanto, é compartilhada por todos. Nos coloca como alguém únicx sobre a terra ao estar apaixonadxs por outra pessoa única, e no entanto todos temos essa experiência. Muitas vezes não existem outros motivos que os seus próprios. Como que em nome disso se estabelece a inacreditável perversidade de exclusão aos outros? O matrimônio institui essa regra dupla da exclusividade imposta e da suspeita inevitável porque considera o compromisso infinito. Os ciúmes, esse “prejuízo a propriedade”, como dizia Armand, envenenam a relação amorosa e ainda assim são valorizados na sociedade mercantil. Nessa prisão de costumes, ambas as partes se devem desconfiança. Nós, ao contrário, afirmamos que rejeitar a exclusividade amorosa é um fundamento necessário para o amor livre.

A quinta qualidade do amor livre consiste na transformação da economia doméstica que esta demanda libertária provocou. O casamento institui a dependência econômica e sexual das mulheres. A guerra dos sexos instaurou o casamento em uma sujeição feminina à diferentes tarefas não retribuídas. A família pressupõe a repartição desigual de tarefas, e a ausência de remuneração por atividades particulares. Dirigir a casa, rapidamente encarregado à mulher, consiste em uma parte da organização econômica curiosamente levada a cabo com uma servidão absoluta e sem pagamento. Ao sublinhar essa disparidade, a reivindicação por igualdade do amor livre pôs totalmente em desuso essa servidão doméstica e estabeleceu as bases de uma revolução da vida cotidiana. E “aqueles que preferem a revolução e a luta de classes sem se referirem explicitamente à vida cotidiana […] têm um cadáver na boca”, como assegurava Vaneigem.

O sexto mérito do amor livre é reconhecer a força legítima do desejo. Classificados pelos devotos no campo das obsessões, o desejo e a fantasia são hipocritamente deslocados para o negativo do amor. Para o poder público, a sedução das mulheres se reduz a sua falsidade e o desejo dos homens se limita a concupiscência. Se instituiu inclusive o conceito policial de provocação passiva. Para os funcionários do Estado, o desejo é algo como a vergonha do amor. O fundamento biológico das atrações sedutoras é perfeitamente identificado e ao mesmo tempo desaconselhado pelo matrimônio. A atração amorosa é demasiado animal, “um encontro de salivas” dizia Cioran. O que permite a atração dos outros reside no extravagante.

Numerosos animais fazem gestos insólitos para seduzir a seu companheiro. A tendência ao exagero é um componente fundamental da biologia que permite explicar a exuberância dos traços sexuais entre os animais, como a cor nos pássaros, a cauda do pavão real ou as pinças do caranguejo do mar. A biologia evolutiva mostra que os traços artificialmente aumentados podem inclusive superar aos estímulos simples. O homem não é indiferente ao exagero dessas características, como muito bem sabem os publicitários, que “melhoram” os retratos femininos para aumentar as vendas de um produto. Se a maquiagem e o tratamento de imagens são as últimas mentiras do mundo mercantil, também é certo que nossa mente é cada vez mais natural. É provável que a atração nasça biologicamente desse estímulo supranormal, um estímulo excessivo que desencadeia uma atração mais intensa, com a ajuda de certos ferormônios. No curso da evolução biológica, os processos de seleção natural aumentaram a presença dessas características estranhas que estimulam o desejo sexual. O desejo nasce do sensorial e seu fundamento biológico. Inclusive as representações e desenhos femininos, inclusive as bonecas que as crianças usam, tudo que afeta a parte baixa do corpo constitui o problema, mesmo que se disfarce com o comprimento das pernas, os olhos grandes, a finura da aparência, exagerando todos os traços do desejo. Assim, a beleza física não seria mais que a impressão de um desejo formado pela composição de caracteres exagerados. Então é possível perguntar-se sobre os determinismos do desejo, a imagem pela qual ficamos apaixonados prisioneiros ao reconhecer o dinamismo vivaz que constitui o desejo, e a inércia de seus constituintes, que podem também nos enganar. O desejo é um componente fundamental que o amor livre reabilitou.

A sétima força do amor livre reside curiosamente no incerto. A única coisa que x apaixonadx conhece é seu próprio sentimento íntimo. Só existe uma certeza no amor, minha própria razão. A resposta do outro se estabelece no desconhecido. O desejo que funda o descobrimento do outro é tão confuso que o sentimento nunca desaparece totalmente. O amor se prescreve como uma força oculta. Mas a incerteza estabelece igualmente a verdade do amor, a tristeza de seu vigor. Porque o amor não está fundado em um direito. O mal-entendido não reside só no medo do engano, da dissimulação. X apaixonadx não tem mais direitos além do de amar. O drama quase esbarra na comédia. Então, as provas de amor seriam exigidas como fragmentos desses juramentos perdidos. Eu não tenho direito a nada do amor do outro, ainda que tenha o direito de amar. Aqui a humanidade se constrói sem obrigações nem restrições. Há na incerteza uma força viva que reconhece intuitivamente a liberdade do outro. É também um pequeno sofrimento, que mostra a esse indivíduo irredutível sua liberdade e sua humanidade.

Decididamente, o amor livre instaura uma reconciliação entre as liberdades e uma exigência de emancipação social. Está aqui todo o sentido crítico de Lucienne Gervais: “Se representa comumente ao amor zombando os velhos: pois bem, eu vejo o amor, livre até o fim, zombando das morais caducas, dos velhos usos e dos velhos costumes. Vejo o amor zombando do velho mundo”.

Referências:

ARMAND E. 1906 « Les « Colonies » communistes », L’Ere Nouvelle
CIORAN E. 1987 « Précis de décomposition ». Eds Gallimard
GERVAIS L. 1907 « L’amour libre », l’anarchie, n° 111
LODE T. 2006 « La guerre des sexes chez les animaux » Eds O Jacob
VANEIGEM R 1967 « Traité de savoir vivre à l’usage des jeunes générations » Eds Gallimard.
ZAÏKOVSKA S. 1913 « Le féminisme », La Vie anarchiste n°12, 1er mai 1913

Traduzido de: http://elanticristodistro.blogspot.com/2011/02/las-siete-virtudes-del-amor-libre-x.html

OBS: algumas alterações foram feitas em relação ao texto de origem para tornar o texto mais inclusivo.